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MARACANAZO. O relato de um bancário aposentado que assistiu ao histórico Brasil x Uruguai em 1950

José de Oliveira Guimarães, hoje morador de Santa Maria, tinha 17 anos à época

O momento exato em que Ghiggia calou o então maior estádio do mundo. Foto Arquivo Nacional

Por Maiquel Rosauro

“Domingo, nós vamos para o Maracanã!”.

“Não é possível, não temos as entradas e os ingressos já estão esgotados”.

“Eu vou explicar como vamos fazer”.

O diálogo se passa em Teresópolis, em 11 de julho de 1950, cinco dias antes da histórica final da Copa do Mundo, entre Brasil e Uruguai. Quem ouvia as instruções atentamente era o jovem José de Oliveira Guimarães, então com 17 anos. Quem bolou o plano foi seu tio, Belchior, que tinha a mesma idade.

A ideia consistia em descer a Serra Fluminense, entrar na fila organizada pela polícia no Maracanã, acompanhar a multidão de torcedores que pressionaria os portões de acesso às arquibancadas e gritar para que alguém dentro do estádio recém-construído voltasse para buscá-los.

“E então começamos a gritar: “Pai, espera por nós”. Essa foi a parte cômica da coisa, e deu no que deu. As catracas foram arrebentadas e todo mundo, literalmente, foi atirado para dentro”, relembra Guimarães.

Após o previsível incidente ocorreu o primeiro transtorno, como assistir ao jogo? Ficar exprimido nas arquibancadas, por duas horas, não era uma tarefa fácil e o problema iniciou logo quando foi cantado o Hino Nacional. Guimarães e Belchior acabaram se separando no entrevero e só foram se ver de novo dois dias depois.

O público pagante, naquela tarde ensolarada, foi de 172.772 pessoas, mas reza lenda que 200 mil almas acompanharam aquele jogo no então o maior estádio do mundo, já que milhares entraram sem pagar.

O clima no país era de euforia. Nos dois jogos anteriores o Brasil havia derrotado a Suécia por 7×1 e a Espanha por 6×1. A partida com o Uruguai não era, tecnicamente, uma final, mas a última rodada de um quadrangular final.

A seleção tupiniquim chegava para a decisão com 4 pontos (cada vitória valia dois pontos), enquanto o Uruguai tinha 3 pontos. A seleção da banda oriental havia empatado em 2×2 com a Espanha e vencido a Suécia por 3×2. Logo, bastava um empate para o Brasil erguer a taça Jules Rimet pela primeira vez. Para os uruguaios conquistarem o bicampeonato (foram campeões em 1930) só a vitória interessava.

“A própria CDB (hoje CBF) já festejava o título na véspera, inclusive os jogadores já comemoravam, como ficou registrado pela imprensa na época”, comenta Guimarães.

José de Oliveira Guimarães, na juventude em Teresópolis, na Serra Fluminense. Foto Arquivo Pessoal

Colaborava o fato de o Brasil chegar à decisão com time completo. O escrete comandado por Flávio Costa entrou em campo com Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friança, Zizinho, Ademir, Jair e Chico.

A única ausência lamentada pela torcida era o ponta-direita Tesourinha, que brilhou no Rolo Compressor, como foi apelidado o imbatível time do Internacional na década de 1940. Titular absoluto da seleção, ele acabou cortado da equipe por uma grave lesão no joelho enquanto atuava pelo Vasco da Gama.

A Celeste Olímpica, comandada por Juan López, atuou com Máspoli; Matías González e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Rodríguez Andrade, Ghiggia, Julio Pérez, Miguez, Schiaffino e Móran. Esse último, de apenas 19 anos, substituía o ponta-esquerda titular, Vidal, destaque do Peñarol da década de 1940, que estava contundido.

“Obdulio Varela neutralizou o Ademir, usaram um esquema para amedrontar a Seleção Brasileira. Nosso grande craque era o Ademir, deles era o Varela”.

Após um primeiro tempo com o placar zerado, o são-paulino Friança estufou as redes aos dois minutos. O título inédito parecia questão de tempo.

Mas o Uruguai foi guerreiro em campo, passou a dominar o jogo e igualou o placar aos 21 minutos com Schiaffino.

“Depois que o Uruguai empatou a situação já estava mesmo delineada, a seleção de cabeça baixa e eles dominando o jogo. A surpresa tomou conta. Faltou preparo psicológico”, reflete Guimarães.

Aos 34 minutos, a consagração da Celeste. Julio Pérez passou pela marcação brasileira e tocou para Ghiggia, que devolveu a pelota ao colega e saiu em velocidade. Ghiggia, então, receberia nas costas de seu marcador, Bigode. O uruguaio correu, chutou forte no canto esquerdo de Barbosa e imortalizou a peleja.

Festa azul em campo e silêncio nas arquibancadas. Os 200 mil torcedores não acreditavam no que presenciavam. Durante muito tempo Barbosa levou a culpa pelo fatídico gol. Porém, Guimarães, não culpa o goleiro.

“A verdade é a seguinte, psicologicamente, o Brasil estava preparado para ganhar e quando tomou o empate houve o impacto que tomou conta da seleção, que já estava amedrontada. O segundo gol foi reflexo. Ninguém estava esperando”.

Ao perceber que a situação já estava mesmo delineada, com os jogadores do Brasil de cabeça baixa e o Uruguai dominando o jogo, Guimarães decidiu ir embora. Mas o que o fez sair mais cedo do estádio não foi a surpresa com o placar, mas escapar da multidão que sairia do Maracanã ao mesmo tempo.

“Como o jogo terminava às 18h, e eu precisava pegar o trem às 18h30min, saí e peguei o bonde abarrotado, quase virando, para ir para a Estação Leopoldina, que hoje está desativada”.

“A verdade é a seguinte, psicologicamente, o Brasil estava preparado para ganhar e quando tomou o empate houve o impacto que tomou conta da seleção”, atesta José de Oliveira Guimarães, hoje, aos 88 anos de idade. Foto Arquivo Pessoal

Guimarães relata que, após a partida, o clima era de velório. O feito uruguaio foi tão impressionante que, com o tempo, recebeu a alcunha de Maracanazo (Maracanaço, em português).

“Pós-jogo foi aquela comoção, ninguém esperava. Foi vendida a partida (como se a vitória fosse certa), patrocinada pela CBD e a imprensa”.

O tempo passou, o jovem Guimarães cursou Contabilidade, passou em um concurso para ingresso no Banco do Brasil e, após perambular por algumas cidades do país, em 1960, fincou raízes em Santa Maria.

Hoje, aos 88 anos, guarda com saudade as lembranças daquele jogo imortal e as glórias que viriam pouco tempo depois.

“De qualquer forma, o nosso orgulho de Terra de Futebol começou a ser resgatado oito anos depois, na Suécia”. Mas essa, é uma outra história.

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Um Comentário

  1. Muito boa a reportagem.
    Um belo registro de quem foi testemunha ocular da história. Parabéns ao Maiquel.

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