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A realidade do trabalho na Era Digital – por Michael Almeida Di Giacomo

O articulista reflete acerca dos novos modos de labor. E alguns dos efeitos

Há pouco tempo, coisa de vinte ou trinta anos, quando alguém queria relacionar algum fato presente às transformações e inovações que estavam por surgir, era comum ouvirmos da pessoa que “o futuro é logo ali”.

A máxima referida passou a não fazer mais sentido – teve perda de objeto, pois a geração dos “Millennials” – oriunda das décadas de 1980/95 – resta por viver intensamente as mudanças e avanços permitidos a partir da massificação do acesso à internet e, em especial, às plataformas digitais de comunicação.

Essa é a realidade na vida da geração “Z” – os nascidos entre 2000 e 2010 – em que os avanços tecnológicos, que parecem surgir em sucessivas dimensões, restam por se tornar uma ferramenta comum no dia a dia de todos e todas.

Na década seguinte, antes ainda de pronunciar a palavra “papai” ou “mamãe, as crianças já têm contato com um smartphone ou um tablet no seu breve despertar rumo às relações interpessoais. O que nos faz constatar que as inovações tecnológicas são parte da sua própria evolução natural, uma característica única das pessoas nascidas nesse período.

É possível perceber que os jovens da geração “Z” desenvolveram um pensamento mais lógico, autodidata e vivem de forma mais pragmática. Isso faz com que muitos desenvolvam habilidades diversas, oriundas basicamente da sua capacidade de comunicação e espontaneidade.

Os ditos “nativos digitais” – mesmo em menor número em relação aos nativos de períodos anteriores –  restam por influenciar as relações de consumo e, por consequência, com o surgimento de novas profissões, também as relações de trabalho.

É nessa “Revolução Digital” que se tem formatado um novo modelo laboral, a romper com as características forjadas pelas gerações “Baby Bommers” – nascidos no pós-guerra – e geração “X” – nascidos entre 1965/1984. 

Hoje, em muitas profissões, não é necessário que os trabalhadores estejam no mesmo ambiente para produzir, nem que tenham de realizar tarefas de forma simultânea para encontrar o resultado final de um produto ou serviço.

O modo de trabalho on-line, fora do local originário da contratação, que ganhou expressão no decorrer da pandemia da Covid-19, já apontava esse caminho ainda na metade da década passada.

Neste contexto, tem-se o surgimento dos que se chama “gig economy” ou “gig workers”, que são as pessoas que realizam contratos com empresas para trabalhos independentes, temporários, geralmente pelas plataformas on-line; tais como o motorista de carro por aplicativos ou prestadores de serviços para startups, entre tantas outras atividades.

Para se ter uma noção do número de pessoas a se dedicar a esse modelo de labor, conforme pesquisa publicada pela CNN Businnes, em 2017, a “gig economy” já representava 37% da força de trabalho nos Estados Unidos.

E o grande desafio do nosso tempo, em termos de dignidade das condições de trabalho da pessoa humana, é justamente proteger esse novo modo laboral da precarização em sede de condições materiais disponibilizadas e da remuneração auferida.

O problema não é de fácil resolução, uma vez que essas novas categorias de trabalhadores, em sua maioria, e às vezes por opção própria, não formam um sindicato ou associação do segmento do qual fazem parte.

Esse foi o caso ocorrido no armazém da Amazon, na cidade de Bessemer, Alabama, EUA, pois, mesmo que a empresa atue basicamente no modo digital, a distribuição de produtos acaba por exigir um espaço material, o que é uma exceção a facilitar o processo de sindicalização. 

No entanto, 55% dos trabalhadores da unidade decidiram, com resultado final em 9 de abril, pela não criação de um sindicato. O que, segundo o Sindicato do Varejo, Atacado e Lojas de Departamentos dos EUA, se deu muito pela feroz campanha contra a sindicalização promovida pela Amazon.  Havia, por parte da gigante digital, o receio de enfrentar uma enorme onda de funcionários a buscar a sindicalização em outros postos no país.

Bem, há uma máxima que diz, “pobre não tem sindicato”.

A frase, aliada ao fato de que esses trabalhadores não têm representantes diretos nos parlamentos, lhes deixa em franca desvantagem contra os gigantes do e-commerce e das empresas tradicionais que adotam o referido modelo de contratação.

Eu usei o exemplo da unidade da Amazon por ser mais recente, somente um breve recorte.  Mas, também é possível aferir a realidade brasileira e constatar que a cada dia é mais latente a precarização das condições de trabalho das pessoas.

Isso ocorre muito pela própria incapacidade do governo federal em encontrar um rumo para nossa economia e, com isso, passa a fomentar que centenas de milhares de pessoas acabem por engrossar as fileiras do mercado informal. 

Outro motivo é justamente pelo aprofundamento do fosso existente em um país com milhares de analfabetos funcionais, os quais passam a reproduzir esse analfabetismo no mundo digital.

A realidade posta é que o aumento das desigualdades sociais, aliada a precarização do trabalho humano, nos aponta um retrocesso em termos de garantias sociais. Esse é um fato que faz com que o coletivo social remonte aos primórdios das relações laborais.

Temos ainda a consolidação dos mecanismos de Inteligência Artificial – com aptidões não humanas e que, em muitos aspectos, podem superar habilidades humanas, tais como a conectividade e a capacidade de atualização.

A referida conjuntura resta a culminar com um enorme contingente de trabalhadores “segregados”, com pouca ou nenhuma qualificação para integrar – no curto prazo – os postos de trabalho oriundos das novas profissões que surgem a todo instante.

E nós estamos a vivenciar “tudo isso ao mesmo tempo agora”, sem conseguir responder de modo adequado ao contexto de que muitas formas de trabalho convencionais estão em processo de extinção, a afetar diretamente a vida das pessoas que, em um tempo não muito distante, estarão à margem dessa nova realidade.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestre em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

Observação do Editor: a imagem que ilustra este artigo, é uma reprodução da internet, sem autoria determinada. Originalmente, você a encontra clicando AQUI

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6 Comentários

  1. Chutes catastrofistas sobre um futuro incerto (ninguém sabe o que vai acontecer) são fáceis, principalmente para influenciar decisões politicas com base em ideologias furadas. Pode acontecer uma ejeção de massa coronal gigantesca do sol e a humanidade voltar para a idade media, a tecnologia de que todos dependem poderia virar lixo. Não é pouco provável. Ninguém comenta porque não sabe, não saber e sintoma de alguma coisa.
    Solução para esta bagaça? Debate sério, o combinado não custa caro. Mas com políticos semi-analfabetos e picaretas fica difícil. Com dogmas ideológicos fica difícil. Com as democracias liberais em franca decadência fica difícil.

  2. Las Vegas foi construída pela Mafia com dinheiro dos sindicatos, principalmente dos caminhoneiros. Outro exemplo. Vide ‘O Irlandes’, filme recente.
    Causídicos são burocratas, sempre tem uma justificativa teórica para não mudar algo que obviamente não funciona. CLT é a reunião da legislação já existente na década de 30 do século passado. Tem muito a ver com a Segunda Revolução Industrial. Segundo os espertos estamos na quarta. Quais os problemas? Com este tanto de ‘direitos’ a conta não fecha. Pessoas são empurradas para a informalidade. Empresários fazem a conta, vale ou não vale a pena economicamente começar um novo empreendimento? Alternativa a isto não é o auxilio estatal, a cobra não pode engolir o próprio rabo para sobreviver. Não existe moto perpetuo econômico. Não adianta querer ‘socar’ o futuro no passado. O mundo não é um exercício de, na falta de melhor palavra, retorica (que é algo sofisticado; tem analfabeto(a) funcional por ai falando em gestão e liderança, coisa que nunca praticou e nem estudou).

  3. Não é questão de ser contra os ‘direitos trabalhistas’. Quem já teve carteira assinada no Brasil tem ‘O Capital’ tatuado na pele. Existe filme da época em que os trabalhadores ganharam alguma folga na França. Tocaram-se quase todos para o litoral. Imagem é meio truncada, preto e branco (deve estar no Youtube). Mais de 100 anos depois temos ainda gente amarrada no pe da mesa na Asia, escravos em navios pesqueiros por lá e provavelmente escravos bolivianos trabalhando em alguma facção de roupas clandestina em SP. Há quem defenda a globalização com unhas e dentes. ‘E bom!”, para alguém deve ser mesmo.

  4. Elon Musk, num exercício de futurologia, defende a criação de uma renda mínima. Ele é um tecnocrata, físico/engenheiro/economista. Problema, segundo ele, é que não existe tarefa humana que muito em breve não poderá ser feita por um robô com inteligência artificial. Projeções um tanto que otimistas de um lado e catastrofistas por outro. Vide carro autônomo, ainda não decolou. Problema não é a tecnologia, problema é o ser humano que, como dizem por ai, é um problema intratável.

  5. ‘Waiting for Superman’ é um documentário sobre educação nos EUA, saiu em 2010. Um dos temas é o colapso do sistema publico de educação publica em alguns lugares dos EUA. Sindicato dos professores de lá faz o CPERS parece um grupo Lobinho. Solução? Criar ‘charter schools’, um tipo de OSCIP. Documentário aborda a luta dos pobres para colocar os filhos nestas escolas.
    Foxcomm é uma empresa de Taiwann. Praticamente uma cidade, empregados no inicio dos 2000 moravam na fabrica (dois beliches por quarto), comiam na fabrica e tinha o lazer na fábrica. Levando em conta que a alternativa não era a CLT brasileira, 14 subiram no telhado e cometeram suicídio. Detalhe, hoje em dia é muito difícil fazer qualquer registro de imagem dentro de qualquer manufatura na Asia.

  6. Millenials, geração ‘Z’ ou ‘X’ são rótulos que vem do marketing, logo são generalizações. Se vem do marketing trata-se de gente com capacidade para consumir, o que, vamos combinar, é um grupo restrito (‘reaça’ ‘mandando a real’ para alguém de esquerda é engraçado).
    Brasil é um pais atrasado, logo as mudanças irão demorar por aqui. Ou seja, não resolvemos os problemas antigos e logo teremos mais uns.
    Decadas atrás trabalhei com um sujeito que planejava morar na Alemanha, já tinha um irmão que já estava por la, policial. Segundo ele os salários são determinados para garantir um determinado padrão de vida. Assim quando alguém fosse escolher uma profissão já teria ideia do viria pela frente. Voltando para o passado recente, um funcionário do Facebook (sede na Califórnia) pediu para mudar de estado já que trabalhava a distancia por conta da pandemia e não se notou baixa de produtividade. Proposta aceita. Pediu para manter o mesmo salário. Proposta não aceita, o estado para onde iria se transferir tinha custo de vida muito menor. Foi do mesmo jeito. Qualidade de vida valia a diferença.

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