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“Orçamento Secreto” do governo parece uma operação militar da Guerra Fria – por Carlos Wagner

A matéria do Estadão sobre o tema é recheada de fatos, documentos e nomes

Qual é a história dos tratores comprados com o dinheiro do Orçamento Secreto, no governo Bolsonaro? (Foto Reprodução)

É incrível a história denunciada pelo jornal Estadão no fim de semana (09/04) sobre a existência de um “Orçamento Secreto” de R$ 3 bilhões destinado a garantir as emendas dos parlamentares que apoiam o governo no Congresso. E que R$ 271 milhões desse dinheiro foram gastos para comprar tratores, retroescavadeiras e outros equipamentos agrícolas. Foram 115 tratores, sendo que só 12 deles ao preço normal. O restante, ao preço de R$ 15 milhões cada um, valor muito acima do mercado. A supervalorização dos tratores cunhou o termo “Tratoraço” como sinônimo de “Orçamento Secreto”.

Esse fato me fez lembrar que tenho escrito e dito que, para nós jornalistas entendermos como funciona entre as quatro paredes o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), é necessário estudarmos a ascensão dos nazistas na Alemanha nos anos 30 e a Guerra Fria que se instalou no mundo logo depois que se calaram os canhões da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), conflito que deixou um rastro de 80 milhões de mortos. A Guerra Fria foi uma disputa ideológica pelos corações e mentes da humanidade travada entre o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o socialismo, comandado pela União Soviética, que se estendeu de 1947 até 1991.

O esteio da Guerra Fria era que o equilíbrio do poder bélico das duas superpotências garantia a estabilidade mundial. Uma das maneiras de manter esse equilíbrio era camuflar os gastos dos governos em armas como se fossem outras despesas dos seus orçamentos. Por exemplo, o dinheiro usado para reaparelhar uma unidade militar entrava no orçamento como se fosse uma verba destinada para a compra de sementes agrícolas ou outra coisa qualquer que não tivesse nenhuma ligação com a área militar.

Claro, o Brasil se perfilava ao lado dos Estados Unidos, que incentivaram e apoiaram o golpe militar de 1964 que derrubou o presidente eleito João Goulart, o Jango, do antigo PTB, gaúcho de São Borja. Há filmes, documentários, livros e reportagens de jornais da época que relatam as peripécias que os governos das superpotências e seus aliados faziam para esconder os seus gastos militares.

Bolsonaro era criança na época. Nasceu em 1955, entrou na academia militar em 1977 e tornou-se tenente do Exército, onde permaneceu até 1988, quando foi para a reserva com o posto de capitão depois de se envolver em atos de insubordinação – há matérias na internet. Nas três décadas seguintes, ele foi parlamentar (vereador na cidade do Rio e deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro).

Durante toda a sua vida parlamentar ele defendeu as bandeiras políticas da Guerra Fria. Elegeu-se presidente da República, em 2018, empunhando e pregando contra os comunistas. No seu governo há um grupo conhecido como os Generais do Bolsonaro, que somam mais de 6 mil militares da ativa, reserva e reformados de várias patentes espalhados pela máquina administrativa federal.

Nem mesmo durante o governo militar, que começou em 1964 e terminou em 1985, havia tantos militares na administração federal. Por que há hoje? O presidente Bolsonaro vive nos tempos da Guerra Fria, que acabou quando o bloco de países que formavam a União Soviética se desfez em 1991. Tudo que é organizado pelo governo brasileiro tem o ranço da Guerra Fria.

No começo de 2021, uma notícia ocupou as manchetes dos noticiários. O governo federal havia gasto R$ 15 milhões em compras de víveres, sendo que R$ 1,5 milhão em latas de leite condensado, vinhos finos, bombons, picanha e chicletes destinados às Forças Armadas. Na ocasião, irritado, Bolsonaro justificou o gasto militar dizendo que o leite condensado era para “enfiar no rabo” dos jornalistas.

Na ocasião fiz o post “A milionária compra de chicletes e leite condensado é uma casca de banana?”. No texto, alertava os colegas repórteres que a história dos chicletes e outras guloseimas podia ser justificativa para o gasto de dinheiro em outras áreas, tal qual durante a Guerra Fria. A história dessas compras ainda não foi esclarecida.

A matéria do Estadão sobre o “Orçamento Secreto” é recheada de fatos, documentos e nomes. Aqui é o seguinte. Na época da Guerra Fria uma história dessas passava batida pela imprensa porque o acesso a documentos era muito difícil. Na maioria dos países da América do Sul, incluindo o Brasil, os governos eram militares e a imprensa estava sob uma severa censura. Hoje, um repórter aperta um botão no seu terminal na redação e tem acesso a tudo.

Vivemos uma era em que não existem segredos. Existem reportagens mal apuradas. Dentro dessa realidade, como o governo acreditou que uma operação da envergadura do “Orçamento Secreto” não viraria manchete nos noticiários? Alguém tem que avisar o presidente da República que a Guerra Fria acabou e que o Brasil é uma democracia, onde um dos esteios é a liberdade de imprensa.

No início da semana (11/05) Bolsonaro acrescentou um desaforo novo contra os jornalistas: “canalhas”. O fato é o seguinte: “Orçamento Secreto” é uma operação muito parecida com o Mensalão, o escândalo que aconteceu no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) em que foi descoberto a existência de um esquema para a compra de apoio de parlamentares no Congresso.

Hoje, o governo Bolsonaro está no meio do fogo cruzado da CPI da Covid, que está esclarecendo a responsabilidade do seu governo nas 410 mil mortes de brasileiros na pandemia da Covid-19, e o caso do “Orçamento Secreto”, que tem potencial para crescer.

Arrematando a nossa conversa. Fui didático no assunto por entender que é necessário dar um contexto da história para ajudar os jovens repórteres que estão na correria da cobertura diária nas redações. Pela sobrecarga de trabalho – fazem texto, áudio e imagens -, eles não têm tempo de se contextualizar. E hoje eles são os esteios da mídia tradicional.

Ninguém sabe os rumos que as coisas tomarão na política, econômica e outros setores do país nos próximos meses. Dentro de um ambiente desses é fundamental que o repórter esteja muito seguro do que escreve, porque a única arma que o leitor tem para sobreviver nesse ambiente é a informação precisa e escrita de maneira simples e correta nos noticiários.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Orçamento aprovado pelo Congresso não é ‘secreto’, é uma lei. Seria crime de responsabilidade. Compra de tratores foi feita com licitação ou dispensaram? Quem comprou? Um parlamentar é limitado a indicar o destino das próprias emendas ou pode indicar o destino de outras verbas do orçamento? Como saiu a Travessia Urbana de SM? Uma reportagem tentando fazer colar uma ‘narrativa’ não tem o condão de fazer uma banana virar abacaxi.
    De qualquer maneira, sem susto, o governo Cavalão vai terminar. Mas a capacidade cognitiva de alguns vai continuar a mesma. Kuakuakuakuakua!

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