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Pazuello vai usar como álibi na CPI da Covid o argumento: “um manda, outro obedece” – por Carlos Wagner

Em setembro do ano passado, depois de levar um esculacho público do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por ter fechado um protocolo de intenção de compra de 46 milhões de vacinas do laboratório chinês Sinovac, que opera no Brasil em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, o então ministro da Saúde, general da ativa do Exército Eduardo Pazuello, disse uma frase que desde então tem sido repetida pela imprensa como sinônimo de submissão: “um manda, outro obedece”. Pazuello assumiu o ministério em maio de 2020 substituindo o médico Nelson Teich, que apenas um mês antes havia ocupado o lugar do seu colega Luiz Henrique Mandetta, demitido por Bolsonaro por seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate à pandemia da Covid-19. Em relação ao vírus, Bolsonaro seguiu a cartilha do então presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicano), um negacionista em relação ao poder de transmissão e letalidade do vírus. O negacionismo de Bolsonaro foi transformado em política de governo pelo ministro Pazuello, que foi demitido no último mês de março e substituído pelo médico Marcelo Queiroga.

Pazuello foi demitido porque tornou-se símbolo de incompetência por seguir as ordens do presidente Bolsonaro e transformar as ações do governo na área de combate à pandemia em um desastre atrás do outro, como foi a falta de oxigênio hospitalar no início do ano para os pacientes de Covid nos hospitais de Manaus (AM) e do interior do Pará. Há documentos, depoimentos e muitas outras provas que mostram os erros cometidos na questão do oxigênio hospitalar, que resultou na morte por asfixia de dezenas de pessoas. Para nós jornalistas sempre esteve claro que o general Pazuello seguia as ordens do presidente. Isso foi repetido nos conteúdos de dezenas de reportagens que podem serem encontradas na internet. Na próxima semana, quando o general for depor na CPI da Covid, os senadores vão perguntar sobre a história do “um manda, outro obedece”. Se ele confirmar que era para valer mesmo, significa que o presidente Bolsonaro não só sabia de tudo que acontecia como também orientava o trabalho do seu ministro.

O que Pazuello responderá sobre a história do “um manda, outro obedece” só vamos saber na próxima semana. Ele será o terceiro ex-ministro da Saúde a depor. O primeiro será Mandetta, o segundo, Teich, depois o general e por último o atual ocupante do cargo, o médico Queiroga. Para as Forças Armadas, a presença de Pazuello na CPI é um constrangimento, porque a política sanitária do governo tem uma grande parte na culpa pela morte de 400 mil brasileiros causada pelo vírus. Para Bolsonaro, o seu ex-ministro é um risco que poderá comprometer a sua reeleição. E quanto a nós jornalistas vai ser um exercício de paciência e muita cautela ouvir com atenção e entender as entrelinhas das falas do general. Uma coisa é certa, ele poderá enrolar os senadores ou mesmo se negar a responder. Mas não poderá mentir. Pelos conteúdos que estão vindo a público contidos nos textos escritos pelos governistas com o objetivo de atrapalhar a CPI fica claro que o presidente e seus ministros e assessores ainda não se deram conta do que significam as acusações que vão enfrentar. O governo está sendo acusado de ter praticado uma política sanitária baseada no negacionismo do presidente da República, que resultou nas 400 mil mortes de brasileiros e todo o caos que se instalou na saúde pública e privada. Isso não é pouca coisa.

Esse é um momento raro na história do Brasil que esperamos que nunca mais se repita. Isso nós jornalistas, principalmente os jovens que estão na correria da cobertura do dia a dia nas redações, temos que ter muito claro em nossas mentes. Não é mais uma CPI. Trata-se do esclarecimento de acontecimentos que resultaram no caos sanitário em que os brasileiros estão mergulhados. A situação poderia ser diferente? Muita gente, inclusive do governo, acredita que sim, se o vírus tivesse sido levado a sério desde o início. Não foi. O presidente Bolsonaro, seguindo o seu herói e colega americano Trump, resolveu desafiar o vírus e com isso disputar com a Covid-19 o espaço nas manchetes dos jornais. Por conta disso, o presidente do Brasil é citado em vários países por ter praticado uma política genocida em relação ao vírus. A CPI da Covid começou um novo capítulo na história da pandemia no Brasil. Como esse capítulo terminará ninguém sabe. O que é certo é que o depoimento do general Pazuello terá um lugar de destaque. Podem apostar.

O AUTOR
Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

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