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Quem cuida de um órfão com deficiência mental grave? – por Carlos Wagner

Problema parece “um grão de areia. Mas a praia é formada de grãos de areia”

A questão dos órfãos com deficiência mental precisa ganhar espaço na imprensa (Foto Reprodução)

O problema nunca ganhou maior espaço em jornais do que uma notícia de “pé de página”. Muito menos no momento, com o país assolado pela pandemia da Covid-19, que já fez mais de 400 mil vítimas. Mas o problema existe. Não se sabe com exatidão o número. Eu mesmo deparei com muitos casos durante o exercício da minha profissão de repórter. São os pais que têm filhos com deficiência mental grave e cuidam deles.

Lembrei do assunto quando li, na semana passada, na Zero Hora e em outros jornais da Região Metropolitana de Porto Alegre, uma notícia sobre a prisão, em Canoas, de uma mulher de 39 anos que durante sete meses manteve em cárcere privado e condições desumanas a irmã cadeirante, de 33 anos, portadora de uma doença degenerativa.

Assim a situação da cadeirante foi descrita pelo delegado Mário Souza, diretor da 2ª Delegacia Regional de Canoas, ao site g1.globo.com.br/rs, em 30/04/2021, às 17h20min: “Ela parecia estar mumificada, aquela imagem de uma múmia que a gente tem. Só o rosto lembrava um ser humano. O corpo destruído, e a pessoa viva. Ela não está mais lúcida, não consegue falar. Certamente, em toda a minha carreira policial, foi a situação mais grave, mais terrível, mais desumana que já vi”. A mulher morreu no sábado (01/05), de parada cardíaca, no Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG).

A vítima recebia uma pequena pensão, e a polícia acredita que a irmã a mantinha em cativeiro por causa do dinheiro. Como esse quadro foi construído está sendo investigado. Pelo menos em três oportunidades, como repórter, acabei envolvido na cobertura de casos de pessoas com problemas mentais graves que viviam com os pais e que, com a morte deles, foram morar na casa de parentes.

Claro, não recordo os nomes. Mas lembro das histórias. Uma delas ocorreu na década de 1980 em um vilarejo no Vale do Rio Pardo. Um dos filhos de um casal de agricultores nasceu com problema mental sério e foi cuidado pelos pais por 50 anos. Com a morte do casal, ele foi parar na casa de um parente que o maltratava e o mantinha em um casebre sem luz, água e com apenas um colchão de palha de milho imundo em um canto.

O homem foi resgatado pelas autoridades e colocado em uma instituição. Acabei me interessando pelo assunto e, ao longo da minha carreira, sempre mantive os olhos abertos para esses episódios. Logo no início dos anos 2000, eu estava de plantão no jornal e acabei participando da cobertura da descoberta de um asilo clandestino em Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Entre os moradores, encontrei uma mulher, na época com os seus 40 e poucos anos, portadora da síndrome de Down e outros problemas mentais, morado num lugar insalubre e fedorento, onde as famílias deixavam os seus velhos para morrer. Ela era a filha mais velha de um casal que havia falecido, e uma das irmãs a colocou ali.

Encontrei a irmã na cidade e fui conversar com ela. Era comerciária, mãe de dois filhos, casada com um mecânico. A nossa conversa foi curta. Disse-me que ela e o marido trabalhavam o dia inteiro. E que os filhos estudavam pela manhã e, à tarde, ajudavam o pai na oficina. Portanto, não tinham como cuidar da irmã. E que a colocou no asilo clandestino por ser o único lugar que a pensão deixada pelos pais conseguia pagar. Eu já tinha encontrado um caso semelhante em Cruz Alta, cidade agroindustrial do Rio Grande do Sul.

O drama dos filhos com deficiência mental grave que perderam os pais é um grão de areia em uma praia no meio do megadrama que é a pandemia no Brasil. Mas a praia é formada de grãos de areia. Daí que lembro a meus colegas, principalmente os jovens que estão na correria das redações, que o momento que vivemos é único na história da humanidade desde a gripe espanhola (1918 a 1920), a qual se estima ter matado 50 milhões de pessoas ao redor do mundo.

A história da Covid-19 está sendo construída. E, quando ela for contada, qualquer informação disponível será importante para o pesquisador. O que para nós hoje é um grão de areia na praia pode ser uma pista importante para um historiador no futuro. A regra, quando se está fazendo a cobertura de um acontecimento que irá virar um elo na história da humanidade, é documentar tudo. Por menor que seja.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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