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Caneta de Bolsonaro é mais poderosa que a espada do comandante do Exército – por Carlos Wagner

Não punição de Pazuello, regime militar e a diferença para hoje: imprensa livre

O Presidente Jair Bolsonaro forma o “seu exército” dando canetaço. O último foi a “portaria fura teto” (Foto Reprodução)

Ninguém sabe melhor como as coisas funcionam entre as quatro paredes do Exército do que o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Nos quartéis, ele foi tenente e, após se envolver com problemas de disciplina, foi preso e depois reformado como capitão. Nos últimos 30 anos, construiu uma vida política ligada às famílias dos militares.

Logo que assumiu o governo, em 2019, o presidente pisou macio com as Forças Armadas. Com o andar do tempo, descobriu o poder da caneta. É sobre esse assunto que quero conversar com os meus colegas, principalmente os jovens repórteres nas redações que estão na correria da cobertura do dia a dia.

A última canetada do presidente aconteceu no mês passado. Ele assinou a “portaria fura teto”. Em resumo, ela beneficia os militares que fazem parte do seu governo e que agora podem receber os seus soldos e mais o pagamento que ganham pelo cargo que exercem na administração civil federal, mesmo que a soma fique acima do teto constitucional, que é de R$ 39 mil e uns trocados, um bom dinheiro.

A portaria beneficia em torno de mil funcionários. Entre eles generais e militares de outras patentes que ocupam cargos na administração federal. Por exemplo: o ministro da Defesa, general Braga Neto, embolsa R$ 62 mil, o ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno, R$ 63 mil, e o chefe da Casa Civil, general Luiz Ramos, R$ 66 mil.

Importante: a maioria dos militares ocupa cargos de chefia, o que significa um bom salário que agora será acrescido dos seus soldos do Exército. Uns dias depois da assinatura da “fura teto”, o general-de-divisão da ativa do Exército e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello subiu no palanque eleitoral do presidente da República.

O regulamento do Exército proíbe que militares da ativa participem de campanhas eleitorais. Nós jornalistas escrevemos que Pazuello seria punido e criaria um embaraço para o presidente da República. Lideranças civis e importantes setores das Forças Armadas também apostavam na punição do ex-ministro da Saúde.

O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, decidiu não punir Pazuello – há matérias disponíveis na internet. Publicamos várias hipóteses para o fato dele não ser sido punido, uma delas a de evitar tumultuar ainda mais o já conturbado cotidiano dos brasileiros devido à pandemia da Covid-19.

Conversa fiada. O comandante do Exército perdeu os anéis para conservar os dedos, porque caso decidisse pela punição, seria humilhado e demitido pelo presidente da República, que é o comandante-em-chefe das Forças Armadas, como diz a Constituição. Hoje o Exército, a Força Aérea, a Marinha, a Polícia Federal (PF) e as polícias militares do Brasil estão sob ataque dos bolsonaristas, que procuram em suas fileiras seus simpatizantes. E os atraem para o seu lado com empregos no governo federal.

Essa estratégia foi imensamente fortalecida pela “portaria fura teto”. Estima-se que existam na máquina administrativa federal 6 mil militares da ativa, reserva e reformados ocupando os cargos mais bem remunerados – ministros e chefes de departamentos.

Meus colegas, justamente aqui vamos lembrar uma coisa. É do jogo que um partido, ao assumir um governo, seja federal, estadual ou municipal, coloque os seus quadros no comando da máquina administrativa. O que está acontecendo?

A proposta de governo dos bolsonaristas têm como cerne a corrosão das instituições, tipo o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF), um golpe militar para manter no poder o atual presidente e outras coisas absurdas formuladas pelos apoiadores de Bolsonaro, que estão organizados em vários grupos, entre eles: nazistas, terraplanistas, ocultistas, neoliberais, oportunistas de todos os calibres e deputados do Centrão.

Tudo que citei faz parte de processos no STF e na Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, a CPI da Covid-19, que investiga a morte de 460 mil brasileiros pelo vírus. O que vou citar a seguir não é opinião ou qualquer outra especulação. São fatos que já publicamos.

Não há clareza sobre qual é o projeto bolsonarista para o Brasil. Entre as poucas certezas que se tem pode-se alinhar a de que existe a intenção de uma reformulação nos quadros de comando das Forças Armadas para que passem a agir conforme a interpretação da Constituição dada pelo presidente da República.

Aos poucos os bolsonaristas estão colocando em postos-chave pessoas de confiança deles. É dentro desse quadro que devemos analisar a decisão do comandante do Exército de não punir Pazuello. Aqui temos que ver o seguinte. Não é a primeira vez que oficiais e graduados deixam de ser punidos. Isso aconteceu muitas vezes durante o governo militar (1964 a 1985).

Qual é a diferença para os dias atuais? Na época não existia liberdade de imprensa. Portanto, a explicação que os generais dessem para opinião pública, por mais mentirosa que fosse, era publicada como verdadeira. Um exemplo: o caso da morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, nas dependências do quartel-general do então II Exército, em São Paulo – há matérias na internet.

Hoje há liberdade de imprensa e o caso de Pazuello é o assunto do dia. Se tivesse sido punido, seria assunto de pé de página. O fato de ter saído impune garantiu a ele os espaços nobres nos grandes jornais e nos noticiários nacionais e regionais. Os conteúdos jornalísticos produzidos pelos colegas está bem diversificado, fundamentado e relevante para o leitor entender o significado do episódio. Fui consultado por colegas estrangeiros sobre o assunto.

Como repórter, vi na história uma oportunidade de melhor entender o projeto dos bolsonaristas para o Brasil, que até agora é um amontoado de ideias confusas, exóticas e perigosas. Daí a importância de nós repórteres vasculharmos as entranhas dos fatos em busca do seu real significado. É por aí, colegas.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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