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As lambanças de Bolsonaro trouxeram relevância e lucros para a imprensa tradicional – por Carlos Wagner

‘Para desespero de (Jair) Bolsonaro e (Donald) Trump, o jornalismo sobreviveu’

A “boca de conflito” do Presidente brasileiro Jair Bolsonaro tem provocado grandes confusões (Foto Reprodução)

Os números estão aí à disposição a quem interessar. O número de assinantes aumentou ou se manteve estável nos jornais e seus sites. Os grandes anunciantes pararam de desaparecer e alguns voltaram a investir. Esse é o atual quadro das grandes empresas de comunicação do Brasil.

Lembramos que, em 2019, quando assumiu o atual presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), a situação do setor era muito séria. Os assinantes desapareciam às dezenas diariamente. Os anunciantes migravam para outras plataformas de notícias em busca de menor preço para os seus anúncios e de maior visibilidade.

Lembro, e está registrado em reportagens publicadas, que logo que assumiu, Bolsonaro disse que daria o tiro de misericórdia na imprensa tradicional. Repetiu o que vinha falando o seu ídolo, o então presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicano), que inaugurou o sistema de se comunicar com o país através das suas redes sociais e de chutar as canelas da imprensa tradicional americana.

Na época, os jornais dos Estados Unidos reagiram às agressões e tiveram bons lucros. Trump perdeu a reeleição para o atual presidente, Joe Biden (democrata), e importantes jornais dos Estados Unidos tiveram uma queda no número de acessos aos seus sites.

No Brasil, o mandato de Bolsonaro está no meio e ainda tem muita água para rolar por debaixo da ponte. O último episódio que causou visualizações recordes nos sites dos jornais foi a tentativa de golpe militar. Na semana passada, o Estadão, um dos jornais mais tradicionais do país, deu uma matéria exclusiva denunciando que o ministro da Defesa, general da reserva Braga Netto, havia ameaçado os parlamentares que, caso não fosse ressuscitado o voto no papel, não teríamos as eleições de 2022.

A tese do voto impresso é do presidente Bolsonaro. Considerada, até por muitos dos seus seguidores, como uma alucinação, porque as urnas eletrônicas brasileiras já operam há mais de três décadas sem problemas. Desde que assumiu o governo, em 2019, a administração Bolsonaro tem pulado de uma polêmica a outra e deixado em segundo plano os problemas nacionais.

O caso mais absurdo é o negacionismo do presidente em relação ao poder de contágio e de letalidade da Covid, doença que já causou mais de 540 mil mortes do país. A gravidade da omissão governamental com a pandemia resultou na Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19, a CPI da Covid, que apura as responsabilidades do governo no combate ao vírus. Em especial a falta de oxigênio hospitalar em Manaus (AM) e cidades do interior do Pará que causou a morte por asfixia de muitos pacientes internos nos hospitais.

A cobertura que a imprensa brasileira faz da pandemia é um trabalho jornalístico de alto nível, que ganhou o respeito dos leitores. Os conteúdos jornalísticos dos noticiários são precisos. E colocam por terra as versões fantasiosas sobre os fatos disparadas pela “máquina de fake news” do governo federal.

Mas, o que acontecerá com a imprensa tradicional do Brasil quando o mandato de Bolsonaro e a pandemia terminarem? Em um primeiro momento deverá acontecer uma diminuição do número de acessos aos sites, como aconteceu nos Estados Unidos.

Tenho lido e conversado muito com estudiosos no assunto sobre o que vai acontecer. Um deles me chamou a atenção para o seguinte. Por conta da pandemia muita gente que não era um consumidor assíduo de notícias se interessou pelos noticiários. Ele continuará interessado? Daí vai depender de como os CEO (diretores-presidentes) das empresas vão tocar os negócios.

Lembro o seguinte. Até 2019 a solução que os CEO apresentaram para solucionar a falta de dinheiro foi a demissão em massa de jornalistas, a união de várias redações em uma única e a mistura de assuntos de entretenimento (lazer, recreação e outros) com o jornalismo.

O pilar de sustentação desse modelo de empresa de comunicação é um repórter jovem, mal pago e com uma carga de trabalho imensa – ele faz texto, áudio, vídeo e fotos. Esse modelo de redação funciona em um ambiente enlouquecido como o atual pelas lambanças do presidente da República, que geram uma imensa, diversificada e interessante fartura de notícias. Não funciona em um ambiente normal em que a redação precisa garimpar assuntos de interesse do leitor.

Por quê? Para garimpar, a redação precisa ter uma estrutura de investigação jornalística, repórteres especializados (economia, crime organizado e pandemias) e também uma boa equipe de comentaristas. Os especialistas duvidam que as empresas de comunicação irão investir para preservar os ganhos de assinantes e visualizações que tiveram durante a pandemia.

A imprensa do interior do Brasil é um capítulo à parte nessa história. Os jornais, rádios, TVs e sites que souberam aproveitar a demanda por notícias locais durante a pandemia e investiram na sua estrutura, reforçando o número de repórteres, ampliaram o seu mercado. Aqueles, que foram a grande maioria, que se limitaram a copiar as notícias dos sites dos grandes jornais, deixaram passar uma boa oportunidade de se tornar relevantes para os seus leitores e anunciantes.

Antes de terminar a nossa conversa. Lembro que tenho escrito que a minha geração de repórteres, nascida nos anos 70, se não conseguisse um emprego em um grande jornal enfrentava sérios problemas para continuar na profissão.

Hoje não é mais assim, graças aos avanços da tecnologia. Um jovem sai da faculdade de jornalismo e monta o seu próprio negócio, vendendo as suas matérias para os jornais e outras publicações. Ou simplesmente cria um site ou uma rádio web e vai tocar a vida.

Hoje o repórter tem opção de continuar ativo no mercado dependendo apenas de si. Falei com vários jovens que montaram os seus negócios e a maioria se saiu bem na pandemia. Um deles me falou que vendeu matéria para jornais e sites de fora do país. Para o desespero de Bolsonaro e Trump, o jornalismo sobreviveu.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Sim e a imprensa da Coreia do Sul vende para a população que o pais asiatico é o melhor do mundo e o resto do planeta está numa m. maior. Aqui, pais livre, cada um acredita no que quiser.

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