Artigos

Até quando a ameaça de golpe militar vai ser uma barganha na política no Brasil? – por Carlos Wagner

“Pelo que sei, os dinossauros só ressuscitaram em Jurassic Park, de Spielberg”

O ministro Braga Netto (E) é acusado de ter blefado contra os parlamentares a respeito realização das eleições de 2022 (Foto Reprodução)

As Forças Armadas do Brasil não têm condições materiais, políticas e muito menos apoio popular para dar um golpe de Estado em 2022, como fizeram em 1964. Nesses últimos 57 anos, o país se tornou grande demais para ser colocado de joelhos pelos militares ou qualquer outro grupo armado.

Mas então? Por que a história do golpe assusta tanto as redações dos jornais toda vez que o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica mandam recados para a população civil de que podem intervir? Sobre isso que vamos conversar.

Primeiro uma explicação para quem não é jornalista. Em qualquer canto do mundo onde exista uma redação de jornal é por ali que todos os acontecimentos do dia a dia da população desfilam e muitos deles vão parar nas páginas dos jornais.

A atual geração de repórteres brasileiros vive um dos momentos mais tensos no seu trabalho de fazer os noticiários diários. Por quê? Simples. Os brasileiros estão caminhando a passos muito lentos de volta à normalidade em suas vidas no meio de uma pandemia causada pela Covid-19, que já matou 535 mil pessoas e ainda mata mais de mil por dia no país.

Desde que a pandemia chegou ao Brasil, em 2020, trazida pelos viajantes que desembarcaram nos aeroportos, o desemprego, que já era grande, com mais 12 milhões de desempregados na ocasião, se agravou e hoje somam quase 20 milhões com o desaparecimento de milhares de pequenos negócios. Um quadro exato do que aconteceu no ano passado está sendo montado pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19, a CPI da Covid.

A CPI está mostrando que a desgraça causada pela pandemia, como a falta de oxigênio hospitalar em Manaus (AM) e em cidades do interior do Pará, que matou centenas de pacientes por asfixia nos hospitais, e outros absurdos que aconteceram têm as digitais do ex-ministro da Saúde e general da ativa do Exército Eduardo Pazuello, que transformou o negacionismo de Bolsonaro em relação ao poder de contágio e letalidade da Covid em política de governo.

Agora voltando a contar a história. No meio de toda essa confusão causada pela Covid, os repórteres precisaram pisar no freio na sua correria do dia a dia do principal assunto, que são os danos causados pelo vírus, para dar atenção à ameaça de golpe militar, porque ela vem da autoridade máxima do país, o presidente da República.

Claro que a história vai parar nas manchetes e a notícia que importa será empurrada para um canto da página do noticiário dos jornais (papel e site), rádios, TVs (abertas e assinatura) e outras plataformas de comunicação. Hoje, os jovens repórteres são a grande maioria nas redações e vão precisar consultar o “tio Google” para saber exatamente o que foi o golpe militar de 1964.

Na semana passada, recebi uma ligação de um colega que conheci na redação em 2014. Ele perguntou: “Vô, vai ter golpe?” Respondi para ele: “Imagina alguém entrando na redação correndo e gritando que há um dinossauro vivo caminhando pelas avenidas da cidade?” Acrescentei: “É mais ou menos isso”.

Mas uma explicação que considero importante. Eu tenho 70 anos de idade, trabalhei em redação de 1979 a 2014 e o meu apelido entre os jovens repórteres era Vô. Voltando à história da ameaça de golpe militar. Todo repórter da minha geração tem uma história de horror para contar sobre o período que os militares governaram o Brasil.

Colegas perderam os seus empregos. Foram presos, torturados, mortos e muitos expulsos do país. Há livros, documentários, processos nos arquivos da Justiça e uma imensidão de informações sobre o que aconteceu. Disse no início da nossa conversa que o Brasil é um país grande demais para se curvar à tentativa de tomada do poder pela força.

Imagine uma coluna de tanques na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, o centro financeiro do Brasil? Vão causar um engarrafamento no trânsito e virar atração turística. É o tal do dinossauro que falei.

Imagine em Sorriso, importante cidade agrícola do interior do Mato Grosso povoada por gaúchos nos anos 70 e hoje um dos pilares do agronegócio, uma esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB) de caças Tucano dando voos rasantes. Os agricultores vão pensar que é uma demonstração da Esquadrilha da Fumaça ou aviões agrícolas.

Arrematando a nossa conversa. O presidente Bolsonaro e os generais da ativa e da reserva que o apoiam no delírio da história do golpe militar estão blefando. Se tentarem qualquer coisa vão acabar presos. A única coisa concreta que eles têm na mão é que, sempre que fazem uma ameaça de golpe, conseguem os espaços nobres nos noticiários.

E acredito que esse blefe vai começar a perder espaço nos noticiários ao natural. É uma questão de tempo. Conversei sobre o blefe do golpe com um colega americano, que conheci nos anos 80 na cobertura de conflitos agrários. Lembramos que existe entre nós jornalistas o que chamamos de “memória”, que são aqueles colegas que viveram na época da Ditadura Militar.

Sempre que alguém insinua tomar o poder pela força, toca uma campainha de alerta na nossa cabeça e por conta disso acabamos contribuindo de maneira involuntária para espalhar o blefe. Ele me lembrou que nos Estados Unidos a Guerra do Vietnã (1965 a 1973) deixou uma “memória” forte entre os velhos repórteres.

Lembro que muitas vezes usei nos textos uma citação de jornalistas americanos sobre o conflito. Ela diz que quando os caixões com os mortos na guerra começaram a aparecer no noticiário nobre das TVs as pessoas começam a se conscientizar do absurdo da situação.

Nos dias atuais, no Brasil, a Covid mata mais de mil pessoas por dia. Os caixões com as vítimas da pandemia estão nos noticiários desde 2020. O que o presidente Bolsonaro e os seus generais, da ativa e reserva, precisam explicar é como chegamos a essa situação.

O resto será decidido nas eleições de 2022. Pelo que sei, os dinossauros só ressuscitaram no filme Jurassic Park, do diretor Steven Spielberg.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

Leia também

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Um Comentário

  1. Uma explicação para quem é jornalista. Não têm mais a credibilidade de antanho. História de golpe, recorrente, é factóide.
    Quando o ‘golpe’ vai deixar de ser assunto? Quando os dinossauros da decada de 70 morrerem. Mourão deu entrevista certa vez. Os pais falam porque viveram. Os filhos falam porque presenciaram o perrengue dos pais. Os netos já não dão a menor importancia, Na terceira geração o assunto acaba.
    Não vai ter golpe. Até porque manda quem está no Congresso, não quem esta no Planalto. Uma nova Constituição vem aí. É preciso mudar para que tudo fique a mesma coisa. Gatopardiamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo