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Voz das ruas – por Orlando Fonseca

O antídoto contra a tentativa de golpe “que se vislumbra nos bastidores”

Nossa democracia vive dos clichês, como esse aí do título. Mas o que fazer, se em três décadas vamos somando dois impeachments e rumores de um terceiro? Embora o que conte mesmo seja a voz das urnas, no Brasil, a voz das ruas tem roncado grosso nos destinos políticos nacionais.

Em 92, tivemos o movimento dos “caras pintadas”, que tirou um governo que, em dois anos, acumulou uma volume estupendo de corrupção – isso depois de promover um plano econômico que congelou minguados recursos da classe média na poupança.

Em 2015, a primeira presidenta (o termo existe no dicionário, desde o século XIX) da nossa claudicante república foi defenestrada, sem que se pudesse apurar nada mais grave do que as tais “pedaladas fiscais”.

Tudo começou com as Jornadas de Junho de 2013, com os protestos, em São Paulo, contra o preço da passagem dos coletivos urbanos. E descambou. O STF, porém, confirmou depois que não houve qualquer crime praticado, e inclusive restituiu os direitos políticos da primeira mulher a dirigir o país.

No outro lado, muitos que votaram a favor de seu impedimento, em “nome de Deus, em nome da família, em nome da moralidade na política”, foram pegos com a mão na botija.

Agora o povo está nas ruas outra vez, em função do que estamos observando, perplexos, com os desmandos de um extremista – eleito democraticamente, diga-se de passagem – e sua entourage, com uma gestão da crise gerada pela pandemia que só produz mais estragos do que soluções.

A bem da verdade, não vimos um projeto para o país, nem na campanha nem nos primeiros dias de sua posse em janeiro de 2019. A falta de um planejamento adequado e uma proposta para fazer o país se desenvolver não apareceu, e a administração federal acabou atropelada pelo Coronavírus.

Em momentos como esse é que os grandes líderes costumam demonstrar a sua força. No entanto, em nosso país tem acontecido exatamente o contrário. A crise demonstrou a fragilidade de um gestor sem experiência e sem interesse de aprender, acompanhado de negacionistas, preconceituosos, praticando de modo insensato a mais descarada necropolítica que já se viu nas grandes nações.

Não é à toa que as manifestações também têm ocorrido em vários grandes centros culturais europeus, pois, no fundo, trata-se de um desprezo pela vida humana, sem falar no descuido interesseiro do meio ambiente – que já foi um modelo de riqueza, uma reserva natural do Planeta.  

Um presidente que se especializa em diatribes, bizarrices e afoitezas – em vez de ações consequentes para debelar a crise, melhorar a economia, diminuir o desemprego, amparar os desassistidos pela paralisia do comércio e da indústria – passa a pôr em xeque instituições fundamentais para a vida republicana.

No caso atual, o desgoverno tem comprometido militares que ocupam postos de comando – ou que ocupavam – no desastre de seu governo. Basta ver o que nos tem revelado a CPI Covid no Senado, com as propinas que marcaram a aquisição de vacinas. Os efeitos colaterais vão deixar sequelas profundas em nossa realidade.    

Esses movimentos têm marchas e contramarchas. Conhecemos vitórias, mas amargamos derrotas no passado, como o foi a das Diretas Já, no estertor na ditadura. Da mesma forma, no momento atual, podemos vislumbrar nos bastidores as peças se movendo para garantir o mandato atual, através de um golpe de Estado.

Isso porque, há uma unanimidade entre os institutos de pesquisa de opinião: pela via do voto, não há a menor chance de um segundo mandato para o atual hóspede do Planalto.

Este vai tentar de tudo para, não conseguindo lograr vitória em seus subterfúgios políticos, emplacar o voto impresso, desacreditar o STF, negociar com o Centrão, tirar os concorrentes na marra, potencializar a usina de fake news desde a central do gabinete do ódio.

A menos que cresça o barulho democrático, que a vociferação das ruas realmente meta medo nas intenções antidemocráticas e nada republicanas.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Nota do Editor: a foto (de Bruno Silva) é da manifestação #3J, realizada no sábado, em Santa Maria. Ela pode ser encontrada, originalmente, no álbum disponível na página da Sedufsm no Facebook (AQUI)

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Um Comentário

  1. Dilma, a humilde e capaz, ‘primeira mulher a dirigir o pais’, teve um governo de incompetencia sem par. Sem falar que arregimentou tantos inimigos que nem comprar o Centrão para evitar o impeachment conseguiu. Foi impichada e quem não gostou não era para gostar mesmo.
    Manifestações não são insignificantes, mas estão longe de ser gigantescas. São mais para marcar posição do que outra coisa.
    Golpe de Estado? Kuakuakuakuakua! Autor é bastante ‘criativo’. Institutos de pesquisa de opinião são mais desacreditados que o STF. Não vai acontecer. Militares não vão fazer nada do que institucionalmente é determinado por motivo simples: não existe milagre. Na democracia o povo aprende levando na cabeça. Simples assim.
    Frente Democratica Populista fazendo ‘barulho democratico’ (lembrando que para eles democracia é eles mandando e os outros obedecendo)? O mesmo pessoal que mandou grana suada dos brasileiros para Venezuela, Cuba? O pessoal do Mensação e do Petrolão? Cuja única ‘salvação’ é o Molusco com L.? Kuakuakuakua! Só dando risada!
    Resumo da ópera é simples: polarizam com o Cavalão, única chance de ter alguma chance eleitoral. Estão perdendo espaço e sabem disto. Antipetismo ainda é alto (em caso de eleição ressurge fácil). Não tem proposta nenhuma, o plano é ser ‘anti-Cavalão’ e ‘depois a gente vê’, ‘depois a gente cria um monte de soviets para discutir’. Basicamente querem um cheque em branco. Perdem espaço até para Cirão da Massa que aos trancos e barrancos consegue vender uma proposta (sem fazer juizo de merito da mesma). Ou seja, existe uma diferença enorme entre ‘somos anti-Cavalão’ e ‘temos este problema e aquele outro e podemos resolver assim, assado, cozido e frito’.
    No frigir dos ovos é tudo ‘mais do mesmo’, CF88 está em cima do telhado e as jornadas de 2013 podem se repetir, mas não pelo motivo que alguns estão querendo.

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