Crônicas

Ketchup e Maionese – por Tiago Dantas Germano

Maionese e eu éramos vizinhos. Na infância, gostávamos de caçar vagalumes no terreno baldio aos fundos da casa dele, a única do bairro que ainda não tinha erguido um muro alto ao seu redor. Naquela época, era comum que faltasse energia em horário de pico. Dezenas de chuveiros elétricos chiavam ao mesmo tempo e em algum ponto da rua um poste estourava, deixando toda a região às escuras. Maionese e eu saíamos a caçar, as sacolas plásticas iluminadas como lampiões de supermercado. Depois nos reuníamos à mesa para avaliar o nosso espólio. Uma vela crepitava no balcão da cozinha e queimávamos as asas dos vagalumes com cera derretida, nos divertindo com aquela banal perversidade.

Num dia de poucos vagalumes, em que a mãe de Maionese já estava nas últimas no hospital e sua tia o deixava quase todo o tempo sozinho, faltaram velas e resolvemos juntar toda a cera derretida no balcão para tentar fabricar uma. Ligamos o fogão e jogamos os fósseis dos nossos vagalumes numa panela de pressão. A panela explodiu e toda a cera grudou no teto da cozinha.

Naquela noite, a mãe do Maionese morreu.

Por alguma razão, parou de faltar energia e Maionese e eu nos distanciamos. Ele parou de frequentar a escola e, no recreio, quando eu pedia uma pizza na cantina e ia comê-la num canto do pátio, com o bolso cheio de sachês de molho, já era cada vez mais raro que alguém aparecesse perguntando: “E aí, Ketchup, cadê o Maionese?”

Eu terminei a escola e, na faculdade de Direito, ninguém se lembrava mais do meu apelido apesar das pizzas, única coisa que dava tempo de comer entre as refeições, encaixadas no intervalo das aulas do curso e o estágio que arranjei na Defensoria Pública.

Maionese, porém, continuava Maionese e guardava carros no estacionamento da faculdade. Continuava morando na mesma casa, a única do bairro que, agora, além dos muros altos, não tinha cerca elétrica nem porteiro eletrônico, e era motivo constante de reclamações entre os novos vizinhos, preocupados com a segurança e o aspecto da rua.

Ninguém ali sabia exatamente quem era o Maionese nem se lembrava de sua tia, que morreu dez anos depois de sua mãe, no dia em que Maionese completou 18 anos e comemorou o aniversário na frente de uma cova rasa. Ninguém ali sabia que Maionese sobrevivia guardando carros e que por isso quase nunca estava na casa, repleta de cães e gatos que ele trazia da rua.

Quando eu me formei e finalmente consegui um cargo na Defensoria, retomei o contato com o Maionese. “E aí, Dr. Ketchup?”, ele me disse na audiência com um sorriso quase sem dentes, dois deles perdidos quando cuspiu na cara do policial que o prendeu em flagrante, roubando o aparelho de som de um automóvel estacionado na frente da Faculdade de Direito. Era o meu primeiro caso e eu não consegui evitar que Maionese fosse parar na cadeia. Ele não se importou. Só pediu que eu não deixasse de alimentar os cães e gatos que por algum tempo seriam meus únicos vizinhos.

Maionese contraiu HIV na cadeia. Uma agulha contaminada com a qual tatuara o nome de sua mãe em um coração cravado no peito. Quando saiu, voltou a guardar carros e me agradeceu pela ajuda. Prometeu nunca mais roubar nada, mas precisava do dinheiro para a ração dos animais. Eu prometi que todo mês deixaria um grande pacote de ração à sua porta. Raramente via Maionese nessas manhãs em que, de terno e gravata, tentava me desvencilhar dos gatos que me cercavam no jardim, ávidos pelo pacote de comida que acabava de chegar.

Da última vez que vi o Maionese, eu estava em alguma confraternização do trabalho. Tinha acabado de conhecer uma garota na festa, uma menina recém-formada em Direito, recém-aprovada na OAB, recém-deslumbrada com uma profissão da qual eu já estava saturado e que só me possibilitava prazeres como aquele: estar na companhia de jovens que ainda idealizavam cargos como o meu, que ainda acreditavam num conceito inalcançável de justiça.

Maionese se aproximou de nós dois na saída, abriu o sorriso ainda sem dentes e me disse: “E aí, Dr. Ketchup?” Eu apertei sua mão e perguntei como ia o apurado da noite. A menina recuou, estranhando a nossa aproximação. Eu a apresentei ao Maionese, mas ela se recusou a apertar sua mão. Maionese disse que tinha conseguido o suficiente para não precisar do pacote de ração daquele mês. Não sei em que ponto da conversa a menina começou a segurar a bolsa que levava a tiracolo com uma certa firmeza que me incomodou, e que me fez ter a certeza de que eu devia aquilo ao Maionese.

“Quer carona pra casa?”, perguntei. A menina me puxou pela manga do terno e cochichou no meu ouvido: “Desculpa, mas se ele for no carro eu não vou não”.

Eu não hesitei:

“Desculpa você, mas o Maionese eu conheço há mais de vinte anos. Você eu conheci há menos de vinte minutos.”

No carro, Maionese perguntou se podia mexer no meu som. Disse que nunca tinha visto um daqueles, com controle remoto e tudo. Enquanto ele se divertia apertando os botões feito uma criança, reparei no seu aspecto. Maionese estava cada vez mais parecido com a sua mãe dias antes de ser internada no hospital. Já não dava pra distinguir direito o nome dela no coração que saltava pela camisa suja e sem botões, as costelas de seu peito saltando feito o esqueleto roído de um peixe.

Estacionei na frente de sua casa e Maionese me convidou a entrar. “Tudo bem”, eu disse. “Só deixa eu guardar o carro aqui na minha garagem”. Maionese me abriu a porta e pediu que eu não reparasse na bagunça nem na algazarra dos cães e dos gatos, alguns dos quais eu já conhecia. A casa não estava muito diferente das últimas vezes que a visitei, exceto pela sujeira feita pelos animais, arruinando todas as tentativas notáveis de Maionese de dar alguma dignidade ao ambiente.

Maionese me chamou para a cozinha, segundo ele o lugar mais arejado da casa. Notei que ele já não era mais capaz de sentir o cheiro de urina e de fezes que também impregnava aquele cômodo, apesar da porta dos fundos e das janelas todas abertas. Ele me ofereceu café, que educadamente recusei, e suco, que devo confessar que só aceitei porque ele tirou da geladeira e abriu diante de mim, cravando o canudinho na embalagem.

Maionese tossia e seu peito fazia tanto barulho quanto a geladeira, que pontuava nossa conversa com os estertores de um moribundo.

Em algum momento os gatos passaram a subir na mesa, os cães começaram a se enroscar em minhas pernas, e o mau cheiro se tornou insuportável. Eu ergui a cabeça como um afogado tentando sobreviver e então olhei para o teto, e não pude acreditar quando reconheci a cera grudada ali, a marca da explosão ainda visível, e algo como dezenas de pontinhos se destacando em meio ao branco mofado da laje, acusando a nossa antiga travessura.

Maionese sorriu e se lembrou daquela noite. Coincidência ou não, no meio da conversa, ouvimos o barulho de um poste estourando. Os cães correram aflitos. Os gatos se esconderam embaixo da mesa.

Maionese se desculpou porque não havia velas. Varamos a madrugada iluminados por uma constelação de vagalumes mortos no teto.

A crônica
Ketchup e Maionese, de Tiago Dantas Germano, de Picuí/PB, conquistou o 1º lugar na categoria Crônicas no 42º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2019. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Sajjad Saju / Pixabay.

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