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O cantor sertanejo Sérgio Reis e seus conspiradores de pajama – por Carlos Wagner

Artista (politico?) terá que explicar para a Polícia Federal o que disse no vídeo

Cantor sertanejo Sérgio Reis, de 81 anos, trocou a canção pela bravata política (foto Reprodução)

Duas semanas, um pouco mais, um pouco menos, quando começaram a circular pelas redes sociais os vídeos do cantor sertanejo Sérgio Reis, 81 anos, e seus amigos pregando tirar os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) na porrada dos seus cargos e fechar as estradas no 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, a primeira coisa que me chamou a atenção foi que todos eles tinham cabelos brancos e rostos enrugados pelo tempo.

O pensamento que me veio à mente foi simples: ou estão bêbedos, ou ficaram loucos, ou sabem de alguma coisa na disputa política brasileira que nenhum jornalista sabe. Concluí que fosse lá o que fosse o que os fez pensar que tinham poder de chutar os ministros do STF e trancar as estradas, o certo é que os vídeos iriam “dar rolo” porque os brasileiros estão com os nervos à flor da pele por conta da pandemia causada pela Covid-19 e as lambanças do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).

Uma das confusões de Bolsonaro é justamente contra os ministros do STF. Sérgio Reis e seus amigos são apoiadores do presidente da República e o que estavam propondo nos vídeos era “passar um trator por cima do STF”.

Não deu outra. Sérgio Reis e os seus amigos, a pedido da subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo, foram incluídos, pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, em uma lista de cantores, políticos, blogueiros e empresários envolvidos com o planejamento de atos criminosos e violentos no Dia da Independência. E sexta-feira (20/08) a Polícia Federal (PF) foi atrás deles – há matéria na internet.

A minha desconfiança de que a conversa de Sérgio Reis com os seus amigos era uma bravata nasceu de um alerta que recebi de um colega repórter de redação nos anos 80. Ele me disse: “Wagner, cuidado com os conspiradores de pijama”. Na ocasião, a Ditadura Militar (1964 a 1985) estava chegando ao fim e o país caminhava a passos firmes e largos rumo à democratização. E havia muitos militares da reserva e reformados que municiavam as redações com avaliações catastróficas do futuro do Brasil dirigido pelos civis.

Na época, eu trabalhava na cobertura de conflitos agrários (sem-terras/fazendeiros/índios/garimpeiros) e estava muito ligado em tudo que acontecia. Principalmente entre os militares que estavam indo para casa, que na época os repórteres chamavam de “generais de pijama”. Claro, os velhos militares não tinham tropas à sua disposição. Mas sabiam como as coisas funcionavam dentro das quatro paredes das Forças Armadas e se valiam disso para se tornarem fontes dos jornalistas e, dessa maneira, espalharem as suas ideias conspiratórias pelo meios de comunicação.

Sérgio Reis não tem segredos dos bolsonaristas que possam interessar aos colegas. Mas ele tem o nome dele e o seu currículo que o tornaram um ídolo nos sertões do Brasil. Portanto, sua bravata pode encorajar pessoas desavisadas a fazerem bobagens perigosas pelo interior do país, como irem para as “rádios cachaça” pregar a violência.

Para quem não é jornalista, “rádio cachaça” é o apelido dado a uma emissora por ser a única de uma pequena cidade. Hoje não são mais as únicas porque existe a internet. Mas continuam com uma grande audiência. Lembro-me que no final dos anos 80 existia um conflito de terra entre fazendeiros e agricultores sem-terra na região de Carazinho, interior do Rio Grande do Sul.

As emissoras de rádio locais estavam sob o poder dos fazendeiros, que as usaram para insuflar a opinião pública contra os sem-terra com tanta insistência que um caminhoneiro acabou jogando o caminhão contra um bloqueio de estrada realizado pelos agricultores, causando mortes e feridos. Eu fiz a cobertura do episódio, uma das vítimas fatais foi a sem-terra Roseli Celeste da Silva.

O cantor Sérgio Reis vai aprender da pior maneira o que outros seguidores de Bolsonaro já aprenderam. Bolsonaristas também vão para a cadeia, como foi o caso do ex-deputado e presidente do PTB Roberto Jefferson. Falei sobre o assunto no post que publiquei em 17/08: “O puxão de orelhas dado pela filha de Roberto Jefferson em Bolsonaro passou batido pela imprensa”.

O que acontecerá nas próximas semanas com Sérgio Reis? Vai ter que explicar para a PF o que disse no vídeo. Vai ter que tomar uma decisão que poderá influenciar o seu legado na música. Se aceitar ser transformado em mártir pelos bolsonaristas vai acabar sendo preso, porque terá que defender atos de violência em público.

Por outro lado, se parar de falar bravatas, poderá seguir com a sua vida. A Constituição assegura aos brasileiros o direito de ter as suas preferências partidárias. Só não pode sair por aí chutando porta. Sou um velho repórter estradeiro que já viu muitas coisas no mundo.

O fato de Sérgio Reis ter ganhado fama cantando músicas com apelo popular como O Menino da Porteira não significa que ele acredita no que diz a canção. Isso ninguém pode cobrar dele. Conversei com uns colegas do interior do Brasil sobre a história do vídeo. E sugeri que o caso fosse focado no desrespeito à lei por ser um fato concreto. O resto vai ser julgado pela história.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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