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A carta – por Orlando Fonseca

Se fosse o titular, certamente começaria com o famoso – e já anacrônico – “escrevo-te estas mal traçadas linhas”. E o destinatário desta singela missiva seria o povo brasileiro. Mas não era o titular, pois um regra três fora chamado às pressas, e o já manjado escriba respondeu de imediato: atendê-lo-ei de pronto. Conhecido por suas bem traçadas linhas – afinal diz-se poeta – veio correndo já com uma minuta da carta embaixo do braço. Nós, o povo sofrido destes tristes trópicos, ficamos com um pé atrás toda vez que este cidadão resolve escrever algo. Pois, já vimos quando ele veio a público com outra carta na manga: a tal ponte para o futuro, de penosa lembrança. E a Pátria-Mãe tão distraída não vira que, às escondidas, era assim tão subtraída. Uma temeridade chamá-lo de novo, mas acontece que, agora, não havendo outra saída e não confiando em moirão, o atual primeiro mandatário se acercou do antigo vice. Vice, nesse caso, versa (por vezes em redondilha maior). Apresentou ao titular um decálogo, ou melhor, um diálogo com a Nação, em dez pontos. O que tem de subentendido aí é uma grandeza.

Já havia sido assim com a tal Ponte para o Futuro, redigida em 2015. A metáfora usada pelo poeta queria dizer o quê? A tal ponte saía de onde e ligava o quê? Ao anunciar que levaria ao Futuro, para onde apontava mesmo? Como vimos, e sentimos no bolso, era tudo em vão, mais um esculacho no povo, que sabe, desde sempre que “o futuro a Deus pertence” para afirmar que ele não existe – o futuro, claro. A ponte do Temer não passou de um truque cenográfico, um viaduto passando por cima da agenda governamental para um compromisso que só atendeu interesses escusos. E o pior é que a tal ponte nos levou à conclusão de que, como ninguém sabe por onde se chega ao futuro, a ponte partiu mesmo para o passado.

Na carta atual, o que vemos é um rol de falácias para apaziguar bovinos. Parte do pressuposto de uma divisão que só existe na cabeça presidencial. Numa república democrática, o poder é exercido pelo tripé: executivo, legislativo e judiciário. Ao que me consta, o Congresso está fazendo a parte dele (ao contrário do que aconteceu em passado recente, muito conhecido do missivista de plantão, com as famosas pautas-bombas), dentro daquela conhecida normalidade, está legislando (que o faça defendendo interesses particulares é o que se tem nas decisões colegiadas e democráticas). Já a Suprema Corte, conhecida por sua sigla STF, está cuidando da Constituição, e tomando as decisões que entende ser a devida (pode-se lamentar, mas não desobedecer). A verdade, no caso, é que, contrariado em seus interesses, o chefe do executivo está em litígio com os demais poderes, ou seja: divisão só mesmo em sua cabeça.

Já no primeiro ponto desdiz o que deixou muito claro em sua declaração perante milhares de apoiadores – o que foi repetido em todas as reportagens. Além do mais, abre divergência sem fundamento com um Ministro, porque este está dando curso a investigações que podem lhe comprometer (ah, bom). Mais adiante declara que, na vida pública, as pessoas que exercem o poder não têm o direito de “esticar a corda”. Se não for uma expressão de humildade, não é possível aceitar que, no cumprimento do dever, um ministro tome decisões que, ao fim e ao cabo, venham “prejudicar a vida dos brasileiros e sua economia”. Quem precisa recolher a verborragia solta e tomar algumas decisões é o presidente, para que a vida dos brasileiros possa melhorar, e que não haja mais abalos na economia. Quando vejo a assinatura, antecipada de uma tríade (Deus, Pátria, Família) interessante, fico mais uma vez com um pé atrás, pois, quanto aos dois primeiros nada a opor, mas o último item, convenhamos, o que o COAF, a PF e o STF têm encontrado de movimentação atípica, bem, vou deixar para o Temer completar, foi ele que colocou na carta. E ainda deverá acrescentar: É verdade este bilete.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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Um Comentário

  1. Carta não li porque não tem a menor importancia.
    Normalizar o Congresso votando interesses no minimo ‘não muito transparentes’ é absurdo. Por isto tivemos as jornadas de 2013.
    Não foi feita reforma tributaria, não foi feita reforma administrativa. Tudo passa a conta gotas e ‘quem quer rir tem que fazer rir’. No Parlamento não há conflito. Vide impeachment de Dilma, a humilde e capaz, Molusco com L. se instalou num hotel em BSB para comprar votos e quase ninguém quis vender, o trem já tinha saido da estação.
    STF para ‘defender o establishment’ desrespeitou as regras do próprio. OAB aparelhada e silente. Midia tradicional apoiando. Forçaram a mão desnecessariamente por conta de blefes e ficou muito evidente.
    Antigamente as unicas intervenções do Judiciario no Congresso era tentativa de legislar violando o artigo 60 da CF. Resolvia-se com MS. O controle vinha depois. Agora minorias correm a todo tempo para o Tribunal e conseguem decisões de ministros indicados por presidentes de conduta no minimo discutivel. Sem falar na Lava Toga que foi para as Calendas.

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