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Chuí, a fronteira do Brasil com o Uruguai e os atentados de 11 de setembro – por Carlos Wagner

Uma semana antes do 11 de setembro de 2001, entrevistei o então prefeito do Chuí, na fronteira do Brasil com o Uruguai, Mohamad Jomaa, que me procurou para se defender das acusações de que lavava dinheiro para Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda, e de que pertencia à Máfia Árabe – como era conhecida uma quadrilha que fazia contrabando de armas, cigarros e produtos agrícolas. Publiquei a matéria no dia 3 de setembro, um “pingue pongue” como chamamos nas redações as reportagens que transcrevem as perguntas feitas pelos repórteres e respostas dos entrevistados. No dia seguinte ao 11 de setembro, quando os aviões foram jogados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, Mohamad foi procurado pela imprensa de todo o Brasil e de vários cantos do mundo para contar a sua versão da ligação dele com Bin Laden. Foi coincidência eu ter sido procurado por Mohamad dias antes dos atentados?

Para responder à pergunta vamos voltar no tempo. Essa história começou em 17 de março de 1992, em Buenos Aires, capital da Argentina. Naquele dia, um atentado suicida na Embaixada de Israel matou 29 pessoas e feriu 242. Dois anos depois, em 18 de julho de 1994, também em Buenos Aires, 400 quilos de explosivos destruíram a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), matando 85 pessoas e ferindo 300. Trabalhei nos dois casos e na ocasião a investigação da polícia argentina apontou o envolvimento do Hezbollah, uma organização definida pela Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos, e pelo Mossad, serviço secreto de Israel, como terrorista, com ramificações em vários cantos do mundo, principalmente no Líbano e na Palestina. Na América do Sul, os agentes da CIA afirmavam que havia um grupo do Hezbollah funcionando na Tríplice Fronteira, um ponto geográfico que reúne as fronteiras de três países e onde se encontram as cidades de Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina).

No final dos anos 90, as autoridades brasileiras não admitiam que existissem no território nacional terroristas ligados ao Hezbollah ou a qualquer outra organização do ramo. Li vários relatórios do serviço de inteligência da Polícia Federal (PF) que falavam sobre o assunto, especialmente em Foz do Iguaçu, cidade do oeste do Paraná. Os agentes relatavam que mensalmente as famílias árabes que viviam na região enviavam para os seus parentes no Oriente Médio e outros cantos do país dinheiro para ajudar a manutenção do Hezbollah. Informavam que dois ou três simpatizantes da organização tinham sido detidos em Foz por tentar extorquir dinheiro de comerciantes árabes. Foi no meio dessa discussão sobre a existência ou não de terroristas ligados às organizações fundamentalistas e paramilitares árabes no Brasil que recebi como pauta a incumbência de fazer uma matéria definitiva sobre o assunto. Para quem não é jornalista. Esse tipo de pauta tira o sono do repórter porque ninguém tem escrito na testa que é terrorista e nenhum agente de serviço de inteligência de respeito fala com repórter, pelo menos enquanto está na ativa.

Tracei um plano para fazer matéria. Um alerta para quem não é jornalista. Todo repórter calejado tem um plano. Na maioria das vezes não funciona porque a reportagem tem vida própria e se o repórter tiver sensibilidade de seguir o rumo que os fatos colocam a sua frente, ele tem uma boa chance de fazer uma boa matéria. O meu foco era Foz. Mas também viajei pelas cidades das fronteiras do Brasil com o Uruguai e com a Bolívia. Tive mais sorte que juízo. Descobri que existia um personagem na Tríplice Fronteira que os serviços de inteligência chamavam de “terrorista adormecido”. Quem eram eles? Pessoas doutrinadas e treinadas no uso de armas e explosivos pelas organizações terroristas que migraram das regiões de conflito para as comunidades árabes nas fronteiras do Brasil. E ali vivam como pessoas comuns, geralmente trabalhando no comércio. Mas eram observadas de perto pelos serviços de inteligência por terem capacidade técnica e compromissos religiosos para agir se fossem acionadas. Também descobri que o preconceito contra as comunidades árabes era enorme a ponto de contaminar uma apuração, caso o repórter se descuidasse. Levei quase um ano trabalhando nessa matéria. Tive sorte de ter encontrado lideranças das comunidades árabes que me ajudaram a separar o joio do trigo. E também de cruzar com agentes dos serviços de inteligência altamente profissionais.

Como mencionei: “tive sorte”. Na primeira semana de setembro de 2001 recebi uma ligação do prefeito do Chuí, Mohamad Jomaa, que queria falar pessoalmente comigo com muita urgência. Ele havia me ajudado muito durante a matéria sobre terroristas na fronteira. Conversamos no dia seguinte à ligação. Ele estava aflito porque descobriu que existia na PF uma investigação que apurava se ele lavava dinheiro para o terrorista Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda e inimigo número um dos Estados Unidos, e se pertencia à Máfia Árabe da fronteira com o Uruguai. A origem dessa investigação tinha sido a denúncia de uma de suas ex-mulheres, que afirmava que Mohamad havia nascido no Líbano e não em São Paulo, como constava nos seus documentos. O que preocupava Mohamad não era a história da Máfia. Tinha provas de que não pertencia à organização. Mas a acusação de que era ligado a Bin Laden. Lembro-me que falou que isso poderia ser uma sentença de morte para ele. Publiquei a matéria no dia 3 de setembro de 2001. Entrevista: “Tenho como provar que sou inocente”.

Os atentados de 11 de setembro atropelaram a minha apuração sobre existência ou não de terroristas no Brasil. Nas semanas seguintes aos atentados várias prisões foram feitas na Tríplice Fronteira. Um dos diretores da CIA visitou a região e deu entrevistas, eu estava lá. E o envio de dinheiro por famílias da comunidade árabe para os seus parentes passou por um “pente fino”. Não me tornei referência na profissão por ter sido o repórter que fez a matéria definitiva sobre a presença ou não de terroristas no território nacional em 2001. Mas como o jornalista que entrevistou o prefeito Mohamad garantindo que não fazia lavagem de dinheiro para Bin Laden na fronteira do Brasil com o Uruguai. Foi sorte? No dia 1º de maio de 2011 tropas de elite do Exército dos Estados Unidos, na Operação Neptuno, mataram Bin Laden. Nos atentados de 11 de setembro morreram 2.996 pessoas e ali aconteceu uma virada na história dos serviços de inteligência ao redor do mundo.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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