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Doutor Queiroga, da Saúde, no seu dia de monstro, assustou pais dos adolescentes – por Carlos Wagner

O ministro não quer ser o 4º (da Saúde) a ser mandado embora por Bolsonaro

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, pisou na jaca (Foto Reprodução)

No início da tarde de quinta-feira (16/09), logo depois do término da aula da minha filha de 15 anos, estava aguardando ela ser vacinada com a Pfizer em um dos postos de saúde na Vila Cruzeiro, em Porto Alegre (RS).

Nos noticiários crescia o alarido sobre uma nota técnica do Ministério da Saúde a respeito do cancelamento da vacinação da turma de 12 aos 17 anos. Expliquei aos pais na fila da vacina que podiam ficar tranquilos porque eu havia escutado na Rádio Gaúcha uma entrevista de Fernando Ritter, diretor de Vigilância em Saúde de Porto Alegre, afirmado que a vacinação continuaria.

A filha foi vacinada por volta das 14h. A caminho de casa, passamos em um drive-in e ela comprou um hambúrguer. Minutos depois estava com meu outro filho no carro, rumando para o centro da cidade para pegar uma nova carteira de identidade.

Foi quando ouvi no rádio do carro uma entrevista com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Ele chutava o pau da barraca, colocando em dúvida a segurança dos adolescentes que tomaram a vacina da Pfizer.

Também dizia que alguns tinham sido imunizados com outras vacinas, que não estão autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e que estava sendo investigada a morte de um adolescente. Portanto, em vista da confusão, ele estava cancelando a vacinação para os adolescentes – há matéria na internet.

A fala do ministro jogou no colo dos pais duas bombas. A primeira a de que os filhos vacinados correriam risco com a Pfizer. A outra foi que a segunda dose estava suspensa. Sou um repórter de 70 anos, experiente nas lidas reporteiras, e logo que escutei a entrevista sentenciei que ele estava tentando preservar o seu emprego.

Sempre descrevi o ministro da Saúde, o cardiologista Queiroga, como um “equilibrista”. Em 31 de maio, escrevi sobre o assunto no post “Doutor Marcelo Queiroga é o ministro equilibrista no governo Bolsonaro”. Ele se mantém no cargo caminhando no fio da navalha. Representa o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), um negacionista em relação ao poder de contaminação e letalidade da Covid-19 e que mantém o seu prestígio junto aos seus apoiadores criando conflitos, como a tentativa que fez no Dia da Independência de reinstalar o regime militar no Brasil.

Do outro lado, uma população assustada com a possibilidade de ser a próxima vítima do vírus. E a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, CPI da Covid, que está periciando a administração do governo na emergência sanitária, como a morte de 580 mil brasileiros.

Até quinta-feira (16/09), com alguns pequenos escorregões, Queiroga vinha conseguindo se equilibrar no fio da navalha. O caso das vacinas dos adolescentes não foi só um escorregão para o lado do negacionismo do governo, como ficou claro pelos pronunciamentos dos médicos, cientistas e outros entendidos no assunto sobre a vacinação dos adolescentes.

O ministro da Saúde foi mais longe. Ele foi cruel com as famílias dos adolescentes, espalhando fake news para beneficiar o presidente da República.

Bolsonaro já demitiu três ministros da Saúde. Doutor Queiroga não quer ser o quarto. Por isso enfiou o “pé na jaca”, um dito popular que descreve uma situação de excesso. O que acontecerá com ele só o tempo dirá, como os editores falavam nos tempos das redações com máquina de escrever. O relato que vou fazer daqui para frente é uma reflexão sobre o que testemunhei na quinta-feira.

Trabalhei em redação de 1979 até 2014 e desde então estou tocando o meu blog, fazendo palestras em faculdades e conversando com colegas pelo interior do Brasil sobre o que é certo e errado na minha carreira.

Nessa história da vacina dos adolescentes eu estava no outro lado do balcão. Entre a minha casa, na zona sul da cidade, e a escola da minha filha há um atalho pelo meio da Vila Cruzeiro que percorro todos os dias. Ali a maioria dos moradores são trabalhadores de baixa renda.

No tempo que fiquei na fila da vacina conversei com muita gente. Pessoas da vila e outros como eu que atalham por ali para levar os seus filhos nas escolas particulares. Uma linha comum unia a todos nós: a preocupação com a história da vacina. O poder da fake news sobre vacinas entre as pessoas é devastador. Entrei na conversa como a pessoa que tinha as explicações certas para as dúvidas das pessoas da fila.

Em certa altura da conversei percebi que se me calasse e só ouvisse a conversa deles, para mim teria mais útil porque estava tendo uma oportunidade de ver como as informações circulam entre a população. Quando estava na correria da redação não tinha tempo para ver como eram as coisas do outro lado do balcão.

As pessoas acreditam no conteúdo que as notícias trazem. Poucos têm noção entre o fato verdadeiro e a fake news. Ainda mais quando é dita por uma autoridade. Não por outro motivo que a fake news que o ministro da Saúde disse sobre as vacinas causou tanta confusão.

Como afirmam os meus colegas da imprensa esportiva: foi uma jogada de mestre. Bolsonaro passou uma bola picando para Queiroga perto do gol com o goleiro abatido. Era só chutar. Ele chutou e fez o gol.

Por conta do pronunciamento do ministro da Saúde os grupos de compartilhamento de informações dos pais de adolescentes estiveram muito ativos desde então, à procura de informações verdadeiras. A imprensa tradicional estava farta de boas matérias contando as reais intenções do ministro. É como sempre digo. É necessário se reafirmar a liberdade de imprensa em cada matéria que se publica.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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