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O fantasma da inflação volta a assombrar – por José Maria Pereira

Chegamos ao temido patamar da inflação de dois dígitos: 10,05% em 12 meses

O Plano Real (lançado no governo Itamar Franco) foi o mais bem sucedido plano de estabilização da história do país. A inflação que se aproximava de 50%, em junho de 1994, caiu para cerca de 0,5%, em dezembro do mesmo ano. Isso se transformou em capital político que permitiu ao então Ministro da Fazenda da época, Fernando Henrique Cardoso (FHC), lançar-se como candidato (que saiu vencedor) a Presidente da República.

Fato é que, desde o governo FHC, ninguém se arriscou a perder o capital político da estabilização. Nem Lula pareceu disposto a correr o risco da volta da inflação. Tanto é que o seu primeiro mandato, em termos de política econômica, é muito parecido com o de FHC. Preferiu manter o sistema de metas de inflação do governo anterior ao invés de optar pelo maior crescimento econômico. Motivo, inclusive, de desgaste junto as suas próprias bases eleitorais. Lula só “destravou” a economia no segundo mandato, após a obtenção de sucessivos superávits fiscais.

Depois do mais longo período de estabilidade da história da República (25 anos), a dupla Bolsonaro/Guedes pode colocar tudo a perder. Chegamos ao temido patamar da inflação de dois dígitos (10,05% em12 meses), segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que é uma prévia da inflação oficial do país, que se acelerou de 0,89% em agosto para 1,14% em setembro. Para o IBGE, “trata-se do maior resultado para o mês de setembro desde o início do Plano Real, em 1994, quando ficou em 1,63%”, além de ser a maior taxa da série histórica do indicador desde fevereiro de 2016, quando ficou em 1,42%.

Quem são os vilões da inflação? De acordo com o IBGE, a gasolina e a energia elétrica foram os itens que exerceram os maiores impactos individuais sobre o IPCA-15 de setembro, de 0,17 ponto percentual cada. O preço médio da gasolina subiu 2,85% entre agosto e setembro e acumulou alta de 33,37% no ano e de 39,05% nos últimos 12 meses. Já o preço médio da energia elétrica teve alta de 3,61% em setembro. No ano, a alta acumulada foi de 20,27%, enquanto nos últimos 12 meses o aumento acumulado foi de 25,26%.

Pode ser que você seja daqueles que odeia quando os economistas começam a falar de números – fica logo com dor de cabeça! Não lhe tiro a razão. Mas, no caso da inflação, você acaba sentindo no próprio bolso e não pode simplesmente fingir que o problema não lhe afeta.

Você certamente já ouviu falar que a inflação é um imposto que pune mais os pobres do que os ricos e achou que isso era discurso da esquerda. Talvez tenha ficado intrigado com as frequentes matérias do Jornal Nacional (JN) sobre o assunto, mas achou que esse era mais um capítulo da “guerra” Bolsonaro/Rede Globo. Pode ser inclusive que você nem seja de direita, nem eleitor de Bolsonaro e nem antipetista. Você simplesmente é um cético e acha que essa briga não lhe diz respeito. Mas você está enganado.

Se você ganha pouco, por exemplo, o peso da alimentação é proporcionalmente alto no seu orçamento, mas não para os ricos cujo peso dos alimentos, em relação à renda, é pequeno. Como isso acontece? Simples. Vamos dar um exemplo para demonstrar que você tem a sua inflação particular.

A “sua inflação” é calculada a partir de sua cesta de consumo. Imagine que você é um maníaco por organização, que ganha um salário-mínimo e gasta toda a sua renda com alimentação (deixando de lado outras despesas, para facilitar). No final do mês, junta as notas do supermercado e soma o quanto gastou com cada produto. A seguir, atribui pesos relativos a cada um (quanto maior o gasto, maior o peso). Pronto, você já tem o próprio índice de inflação.

No mês seguinte, você mantém os pesos do mês anterior e anota, numa planilha, os novos preços. Depois, basta dividir o índice do mês atual pelo do mês anterior para encontrar a variação (sua taxa de inflação). Claro, o exemplo é apenas didático. O cálculo dos índices oficiais de inflação (como o IPCA) é mais complexo, baseia-se numa amostra de orçamentos familiares, estatísticas e cálculo matemático. Mas a mecânica é essa.

Agora que você aprendeu a calcular a sua própria taxa de inflação, ainda continua achando que a economia não tem nada a ver com a vida real?

(*) José Maria Pereira é Doutor em Economia, professor aposentado do departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. O artigo acima foi publicado originalmente no site da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (AQUI) e reproduzido com a autorização do autor.

Nota do Editor: a imagem que ilustra este artigo é uma reprodução obtida em site econômico especializado (AQUI)

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Um Comentário

  1. Particularmente sou contra a empulhação. Um dos vilões da inflação é a energia eletrica. Causa, todos sabem, é a crise hidrica. O que Cavalão/Guedes poderiam fazer para combater o fenomeno climático (mandato ‘correu’ dois anos e meio’)? Talvez pegar um helicoptero e ficar guspindo em cima dos reservatórios. Gasolina vem do petróleo. Preço do barril saiu da casa dos 35 dolares em novembro para a casa dos 85 de hoje. Variação de 140% (por aí, se não errei nas contas). Cadeias de suprimento no planeta estão bagunçadas, muitos portos estão com filas. Um porto chines fechou em agosto por conta de um surto de Covid e bagunçou o coreto. Russia está com mais de 900 mortes por dia. Ou seja, não saimos do mato ainda. Brasil pode vacinar 100% da população, se os outros paises não fizerem o mesmo corremos o risco de surgir outra cepa e a vaca ir para o brejo de novo.
    Cavalão dificilmente se reelege. Tenho muito medo da noticia ruim. Resumo da ópera é simples, colocar qualquer coisa na conta do Cavalão/Guedes (que deve perdurar até depois da eleição) funciona com gente lesada que tem preferencia pela cor vermelha.

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