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Santa Maria: Qual cidade? Qual futuro? – por Leonardo da Rocha Botega

Uma avaliação do que pode esperar a cidade, depois da não vinda da ESA

Desde o anúncio de que a nova Escola de Sargentos das Armas do Exército (ESA) será sediada em Recife-PE, um conjunto de justificativas tem sido levantado para a não escolha de Santa Maria. Um mínimo olhar sobre alguns fatores que supostamente colocariam a cidade em vantagem em relação às demais concorrentes, permite que muitas pessoas vejam a não escolha como um ato que não condiz com uma “racionalidade técnica”. Por conta dessa questão dois argumentos se sobressaíram nas análises sobre a opção feita pelo governo federal: 1) a falta de empenho do governador do RS; 2) a opção eleitoreira do presidente da República.

Ambos os argumentos encontram indícios na realidade. Mesmo sendo opositor ao presidente, aparentemente a movimentação do governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), foi muito mais intensa do que a feita pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB).

Ao mesmo tempo, o próprio governador pernambucano e a bancada de deputados daquele Estado conseguiram transformar a vinda da nova ESA em uma pauta de todos os Estados do Nordeste. Tal ato veio ao encontro de outras iniciativas dos governadores da região, como o Consórcio do Nordeste, que desenvolve ações conjuntas no combate à Pandemia.

O segundo argumento também pode ser balizado com indícios reais. Nos dois turnos das eleições presidenciais de 2018, Jair Bolsonaro perdeu em Pernambuco. No segundo turno teve 33,5% dos votos contra 66,5% de Fernando Haddad. Nas eleições municipais de 2020, os dois candidatos à prefeitura de Recife que reivindicavam o bolsonarismo não chegaram nem perto de almejar uma vaga no segundo turno, somados obtiveram apenas 15% dos votos. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes apontam que a rejeição ao presidente (cada vez maior em todo o país) entre os pernambucanos é de 71%.

Em que pese os recortes da realidade que ancoram tais argumentos, que de forma alguma podem ser considerados irreais, ambos deixam de lado uma avaliação fundamental que se deve fazer: para onde caminha a cidade de Santa Maria? Que projeto de cidade tem sido buscado? Qual o horizonte futuro que se deseja para o município? A partir de tais perguntas podemos construir um diagnóstico de onde estamos e para onde vamos. Um diagnóstico que deve partir dos dados socioeconômicos e históricos do munícipio.

Segundo o IBGE, Santa Maria tem uma população estimada em 286 mil pessoas, sendo o 5º maior município do Estado e o 94º do Brasil. O salário médio mensal da cidade foi indicado pelo mesmo instituto em 2019 como sendo de 3,1 salários mínimos e a proporção de pessoas ocupadas em relação à população total do munícipio era de 29,2%.

Tais índices colocam a cidade em termos de Estado nas posições de 15ª no que tange os salários médios mensais e 105ª em termo de ocupação, para um total de 497 municípios. Em termos de país, de um total de 5570 municípios, Santa Maria ocupa respectivamente, a posição 123 em termos de rendimento e 558 em termos de ocupação.

Em termos de rendimento domiciliar, em 30,5% dos domicílios santa-marienses a renda per capita é de meio salário mínimo por pessoa. Já em relação ao PIB, Santa Maria possuía em 2018 um PIB de R$ 7.793.975,23 que distribuídos entre o total da população indica um PIB per capita de R$ 27.785,51. O que faz com que a cidade ocupe a posição de 319º (de 497) no RS e 1478º (de 5570) no Brasil em termos de PIB per capita. Dados bastante preocupantes em termos de desigualdade social.

Se pensarmos historicamente, podemos dividir a História Econômica do Município em três grandes ciclos. O primeiro ciclo iniciou em 1885 com a inauguração de primeira estação ferroviária e manteve seu vigor até a década de 1970. O segundo ciclo iniciou com fundação da Universidade Federal de Santa Maria em 1961 e se estendeu até a década de 1990. O terceiro ciclo, a partir da década de 1990, pode ser identificado como o ciclo de crise estrutural do município. Obviamente, tais ciclos não são estanques e se sobrepõem. A sobreposição dos dois primeiros com predomínio do segundo, por exemplo, gerou, entre 1950 e 1990, um crescimento populacional de 262% em termos de população total e de 410% em termos de população urbana.

Paralelamente a esses ciclos, sobretudo ao segundo ciclo, Santa Maria foi criando seus espaços de centro e periferia. Este último espaço marcado pelas ocupações irregulares espontâneas ou a partir da ação de movimentos sociais, constituindo uma verdadeira “cidade ilegal” dentro do espaço urbano santa-mariense. Entre 1960 e 1991 foram realizadas 16 ocupações no município, sendo a última, em 7 de dezembro de 1991, a maior ocupação urbana da História do Rio Grande do Sul, a da Fazenda Santa Marta.

Foi justamente no período desta última ocupação que Santa Maria passou a vivenciar seu terceiro ciclo, o de crise estrutural. Uma crise estrutural que tem o DNA do projeto neoliberal, hegemônico no país nos últimos 30 anos. A ideia de que o Estado deve se desresponsabilizar da economia atingiu profundamente um município que desde a sua fundação extraoficial em 1797 sempre foi impulsionado pela presença do Estado.

O primeiro ciclo ganhou vigor com a fundação da Viação Férrea do Rio Grande do Sul em 1920, posteriormente incorporada à Rede Ferroviária Federal em 1959. Já o segundo ciclo, conforme afirmamos, foi impulsionado pela primeira Universidade Federal, pública e gratuita, do interior do país.

A negação da presença do Estado como impulsionador da economia para um município com as características de Santa Maria é terrível. É inegável o peso do funcionalismo público no comércio local. Para uma cidade cuja pouca industrialização deve ser compensada (em tese) pelo setor de comércio e serviços, a perda de poder de compra por parte de um dos segmentos mais significativos da cidade tem efeitos danosos. Ao mesmo tempo, por falta de visão ou projeto, o grupo político que governou o munícipio ao longo do chamado “milagrinho brasileiro”, entre 2006 e 2010, sobretudo nos últimos dois anos daquele período, não soube aproveitar o momento.

Enquanto outros municípios menores, como Lages (SC) e Passo Fundo (RS) por exemplo, estavam quase finalizando as suas obras de travessia urbana, por aqui elas estavam apenas começando. Quem aproveitou o momento (e seu menor vigor posterior) foi a Universidade Federal de Santa Maria, que não somente ampliou o seu número de estudantes, como também os seus projetos junto a cidade. Dentro do ciclo de crise estrutural da cidade, é a Universidade Federal de Santa Maria, principal agente da presença do Estado no município, que ainda garante fôlego à economia local.

Por conta deste diagnóstico socioeconômico e histórico é que afirmo que qualquer projeção em relação ao futuro de Santa Maria, qualquer projeto de desenvolvimento do município, não pode se prender aos chavões do fetichismo anti-Estado que tem dominado os debates. Santa Maria necessita de um Estado impulsionador de políticas públicas de desenvolvimento. Tanto isso é verdade que até mesmo os grupos políticos que propagandeiam conceitos neoliberais não mediram esforços para lutar pela Nova Escola de Sargentos das Armas do Exército (ESA), um investimento estatal.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Nota do EditorA imagem (de Reprodução) que ilustra este artigo é a maquete da sede da ESA, que será, conforme REPORTAGEM do site, praticamente, uma cidade dentro da região metropolitana do Recife, na capital pernambucana.

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4 Comentários

  1. Esquerda vive da negação. Estão sempre defecando regras. Não pode falar isto. Não pode falar aquilo. Não pode criticar isto ou aquilo. Querem que adesão seja total e incondicional. ‘Coletivamente’. UFSM é a vaca sagrada da aldeia. ‘Calem a boca, sem os salarios dos servidores a urb estaria ainda mais na m.’. Pois bem, se perguntarem a alguém que manje de história vão ouvir algo sobre ‘ciclos’. Num certo tempo falar que a ferrovia (e a cooperativa e o Hugo Taylor) iria acabar era pedir para ser taxado de louco(a). Subsidios acabam ou se tornam insuficientes. Ensino superior está sendo repensado a nivel mundial. Curva demográfica. Proliferação de instituições. Novas tecnologias. Vai acabar? Pouco provavel. Vai ter a mesma relevancia economica para a aldeia no futuro? Não apostaria nisto. Recife ganhou, Tres Corações perdeu.

  2. Problemas de periferia existem em todos os municipios de porte medio e acima do Brasil. ‘Estado como impulsionador da economia’ é um conceito abstrato. Estado, na verdade, é uma burocracia dirigida por politicos que lograram conseguir um mandato. No caso brasileiro a burocracia é grande, ineficiente cara e ‘trabalha quem quiser trabalhar, tâmo de boas’. Difere da iniciativa privada (não na aldeia que é ‘sossegada’) onde se tem que matar um dragão e três leões por dia. Politicos ignorantes, incompetentes e que muitas vezes só se preocupam com os proprios interesses. ‘Impulsionar economia’? Que economia? Farinha pouca meu pirão primeiro. Conflitos serão resolvidos pelos politicos (que gostam de uma ‘beirada’) ou pela burocracia. O que poderia dar errado?

  3. Grupos politico-economicos da aldeia são razoavelmente evidentes. Militares (que só votam, ao menos a maioria que está na ativa). Profissionais liberais (médicos e advogados) que ocupam todo o espectro politico. Comércio (centro e direita). Construção civil (centro e direita). Servidores públicos (majoritariamente de esquerda). Igreja Católica (esquerda é mais atuante). Grupos atraves de seus representantes conversam e negociam entre si. Alguns se arvoram o titulo de ‘sociedade civil organizada’. Aldeia tem mentalidade de cidade pequena, é assim que a cidade é tocada. Como se ve, esta dando ‘certo’.

  4. Santa Maria tecnicamente tinha todos os atributos para sediar a ESA e era a favorita. Era a narrativa oficial. Segunda etapa, Santa Maria tecnicamente superior e só perderia para Ponta Grossa se houvesse interferencia politica. Detalhe: grande movimentação para fazer lobby tanto em Brasilia quanto em Cruz Alta. Resultado? Recife, a que tinha problemas de violencia e custo de vida. Comentar algo durante o processo de escolha era pedir para ganhar a pecha de ‘é contra’. Grande expectativa para uns, indiferente para muitos. Mostra que involuntaria ou voluntariamente é muito fácil despregar a população da realidade. Se foi má fé ou erro crasso de avaliação não é possivel saber.

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