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Julgamento dos réus da boate Kiss interessa a pais de adolescentes ao redor do mundo – por Carlos Wagner

O articulista, a lembrança de Luiz Roese e a ausência dos delegados no júri

Tragédia da boate Kiss, na madrugada de 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria teria como ser evitada? (Foto Reprodução)

Antes de existirem os aplicativos de transporte, a grande preocupação dos pais de adolescentes que saíam à noite era deixá-los nas portas das casas noturnas, que julgavam ser um lugar seguro. O incêndio da boate Kiss mostrou que estavam deixando os filhos em prédios que eram verdadeiras ratoeiras.

Esse é um dos motivos de ser do interesse de todos que têm filhos adolescentes o julgamento dos réus da tragédia da Kiss. A boate funcionava no centro de Santa Maria, cidade universitária no interior do Rio Grande do Sul. Estava lotada na madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando pegou fogo durante um show da banda Gurizada Fandangueira.

Morreram asfixiadas pela fumaça e pisoteadas 242 pessoas e 680 ficaram feridas. A grande maioria das vítimas era estudantes universitários. Um inquérito policial de 13 mil páginas responsabilizou pela tragédia 28 pessoas.

Quatro delas vão a julgamento no próximo dia 1º de dezembro. São elas: os sócios da boate Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffmann. E os integrantes da banda Gurizada Fandangueira Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha.

A estratégia dos advogados de defesa foi empurrar o caso para o mais longe possível do centro dos acontecimentos. Conseguiram transferir o julgamento de Santa Maria para Porto Alegre.

A história do julgamento já começou mal. No início do mês (02/11), o repórter Humberto Trezzi publicou uma reportagem no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS), com o título “Júri da Kiss não vai ouvir delegados que investigaram o incêndio da boate”.

Os delegados da Polícia Civil Marcelo Arigony e Sandro Meinerz ouviram mais de 300 pessoas e escreveram um inquérito policial de 13 mil páginas. A ausência deles no tribunal retira a visão da sequência dos fatos que levaram à tragédia. Os motivos pelos quais os delegados não serão ouvidos são relatados com detalhes na matéria de Trezzi, disponível na internet.

O fato é o seguinte. O prédio da Kiss era uma ratoeira. Os bombeiros, a prefeitura de Santa Maria e o Ministério Público Estadual (MPE) tiveram a oportunidade de fechar o estabelecimento e não o fizeram. Por quê? Devido a uma sequência de acontecimentos e principalmente pela crença de que nada iria acontecer.

A tragédia acabou com esse tipo de crença por parte das autoridades no Brasil e em vários países. Essa é uma das conclusões a que cheguei depois de ter ficado mais de 30 dias consecutivos em Santa Maria remexendo o caso Kiss.

Na noite do incêndio, eu não estava lá. Estava em férias. A redação cancelou as minhas férias e me integrou a uma grande força-tarefa de repórteres, editores, fotógrafos e motoristas que participaram da cobertura. Considero-me um repórter experiente. Digo que para entender onde estavam as digitais dos responsáveis não foi fácil. Daí a importância dos delegados serem ouvidos.

Nos dias seguintes ao incêndio houve uma onda de mobilização das autoridades em várias partes do mundo, principalmente no Brasil, para averiguar de perto como as casas de diversão dos adolescentes estavam funcionando.

Sendo generoso, eu diria que essa preocupação durou um ano. Depois caiu no esquecimento e tudo voltou a ser como era antes. Lembro de um colega repórter, Luiz Roese, o Tigrinho, que desde a fatídica madrugada até setembro de 2019, quando faleceu aos 45 anos, dedicou a sua vida a acompanhar o andamento do caso Kiss.

Ele acompanhava as andanças dos parentes das vítimas atrás de justiça. Graças a ele que o assunto não desapareceu por completo das páginas dos jornais. Era o cara para quem a gente ligava e sempre era lembrado da nossa responsabilidade com o caso.

Tenho dito nas minhas palestras para estudantes de jornalismo que a memória das redações é curta. Assim que um fato sai das manchetes e baixa para o pé da página, ele desaparece. No máximo é lembrando na data do aniversário.

Nos dias atuais, a memória das redações ficou bem mais curta graças às demissões em massa de jornalistas e a falta de dinheiro das empresas de comunicação para investir em reportagens que incluam despesas com viagens. Vejam bem. Estamos a duas semanas do julgamento. E apenas os jornais e noticiários do Rio Grande do Sul vêm tratando do assunto.

As grandes redes nacionais de TV, rádio e jornais estão dando uma ou outra matéria. Nada em profundidade. Por quê? Certamente não é porque o assunto não tenha interesse público, principalmente dos pais de adolescentes. É porque não há dinheiro e vão investir apenas na cobertura do julgamento.

Arrematando a nossa conversa. O fato é o seguinte. Várias famílias ao redor do mundo têm filhos adolescentes que nos fins de semana lotam as casas de espetáculo. O caso Kiss despertou nos pais a curiosidade de saber quem são as autoridades responsáveis pela fiscalização desses estabelecimentos.

Nos países democráticos, como é o caso do Brasil, sempre haverá um jornalista para apontar o dedo e lembrar as autoridades das suas responsabilidades. Saí da redação em 2014. Mas não deixei de acompanhar o caso Kiss. Por quê? Creio que seja porque esse tipo de cobertura nunca mais desaparece da cabeça do repórter.

Vez ou outra o nosso sono é interrompido pela preocupação em saber como anda o caso. Se houver a condenação dos quatro réus, o caso Kiss não se encerra. Ainda há muita informação preciosa nas 13 mil páginas do inquérito policial esperando para ser descoberta e virar história na mão de um repórter. Podem apostar, colegas.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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3 Comentários

  1. … 27 de janeiro de 2014
    … Depois do tempo passado…. um ano ….ainda falta muito
    O sofrimento ainda é visível
    A luta ainda é um traço característico
    Uma parte (grande-imensa) do amor que havia nos corações dos pais amigos parentes conhecidos… ainda pulsa e pulsará pela eternidade….
    E a força desta emoção/razão pode e deve mover forças construtivas
    E assim remover obstáculos que somente não são intransponíveis, porque nada pode sê-lo frente a determinação de pessoas com vontade firme e objetivos puros…
    Olho as novas leis… leio atentamente…
    E não vejo … a inserção do poder público….
    A responsabilidade…parece que não lhes cabe nas novas leis, como não lhes está sendo exigida na interpretação das antigas…
    Cabível a chamada destes órgãos a agir…e a responsabilidade por eventuais falhas ou omissões….
    O Ministério Público fez um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC)… pelo barulho… em relação aos habitantes externos, mas, em sua consecução esqueceu dos milhares de frequentadores internos da boate… mas nada constou no atual inquérito…nem no processo… as centenas de vítimas
    E nada consta nas novas leis…
    O Ministério Público do Trabalho e os fiscais do trabalho…. sabiam da precariedade do labor prestado nestes locais.. garçons, porteiros, seguranças, atendentes…
    E nenhuma portaria… nenhuma determinação neste sentido foi exarada….
    A empresa que fabrica a espuma utilizada para vedação acústica e que se mostrou letal…vende este material extremamente tóxico e.. até hoje, a ANVISA nada fez para que em letras garrafais seja feita a advertência de que este material quando incinerado emite fumaça tóxica potencialmente letal….
    Não foi feita ..ainda, uma campanha de esclarecimento para os servidores públicos – principalmente para os destes órgãos – de que de suas atitudes omissivas ou comissivas podem resultar tragédias…e alertar para suas responsabilidades profissionais éticas e morais por tais fatos….
    Nada disso está nas leis…
    E esta é a minha angústia… a nossa ansiedade… a nossa luta e esperança…
    Falta muito…
    O que aconteceu não foi uma tragédia… porque estas costumam ser fortuitas e esta foi resultado de nossa falhas humanas…
    O que aconteceu não foi uma tragédia…porque estas marcam somente pela dor e a fatalidade…e esta será um marco de pessoas construindo de suas vidas (todas que possam estar juntas num só indivíduo) um mundo mais humano…
    O que aconteceu não foi uma tragédia… porque estas costumam ir para os livros de história e esta ficará lavrada em nosso corações e mentes…
    O que aconteceu não foi uma tragédia…porque tragédias não mudam o mundo …mas o riso, a juventude, e a vontade de viver de todos que lá pereceram…e que permanece conosco…fará manter, em todos os dias, para sempre.. um brilho em nosso olhos…uma luz diferente ..de uma luta titânica… de vozes que não se calam e não esmorecem nunca.. porque são feitas de material indestrutível…do legado que nos deixaram…desse imenso amor que lhes movia e que carregaremos junto ao nosso peito pela eternidade…
    Prossigamos…com amor.

  2. Em 27 de janeiro de 2013….

    Há tempo de emoção e tempo de razão…. mas talvez isso sirva a todos…. em todos os lugares…
    É tempo de chorar
    É tempo de abraçar os amigos
    De rezar com força, engolindo as lágrimas…
    ….. A indignação nesta hora, ainda cede ao lamento, a solidariedade, ao abraço..
    Amanhã (que também é hoje)
    …curadas as feridas (como se fosse possível)…
    De cada um de nós vem a pergunta… a cobrança…
    Não somente da falta de segurança …da ambição desenfreada… da imprudência…
    É tempo de tragédia…
    É tempo de responsabilidades…
    Eu quero saber do Poder Público…e de suas responsabilidades..
    Da responsabilidade do Ministério Público do Trabalho, do Ministério Público, dos Procuradores do Trabalho, do Comandante dos Bombeiros, do Prefeito e seus fiscais… e .. de todos os que trabalham nestes órgãos..
    Em cada edifício …exigem escadas interligadas …para evitar acidentes …extintores …luzes de emergência.. e para isso são cobradas taxas e responsabilidades.. de cada um dos cidadãos… de todos nós.. e isso cria em nós a ilusão de que os lugares em que há grande afluência de público, também serão rigorosamente fiscalizados… os funcionários serão treinados para emergências …haverá portas de saída de emergência …devidamente sinalizadas …luzes de emergência.. com funcionamento certificado… e autoridades públicas ciosas de suas responsabilidades…
    E, é destas pessoas que dependem vidas… e é destas pessoas que se exige algo mais, um pouco de humanidade (não apenas responsabilidade)… mas, isso, não somente dos que fazem mal seu trabalho e de cujo resultado resultam vítimas… mas de todos que, tendo condições de ver.. de influir.. calam… e nessa hora…
    Choro mais uma vez também pela minha responsabilidade…
    Eu passei por ali e disse… que absurdo… onde estarão as portas de emergência (pensei erroneamente no beco que existe atrás, no meio da quadra)… como será a segurança… e mais não pensei… nem disse….
    Agora me disseram…
    Se alguma responsabilidade me cabe nesta hora.(e também cabe).. além de chorar, de rezar, de abraçar…
    É trazer à luz… todos os verdadeiros responsáveis… e dessa vez não vou me omitir.. nem mesmo em verificar uma simples intuição… que para muitos deveria ser uma certeza..
    Em mim… tem uma parte que chora …e vai chorar por muito tempo… mas, a outra parte vai buscar algo mais…
    Nós devemos isso a todas as vítimas…

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