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A luz da Justiça no eterno 27 – por Leonardo da Rocha Botega

"A justiça não irá repor o pedaço perdido. A justiça fechará um ciclo”

“Para quem perdeu um pedaço de si na Kiss, todo dia é 27”. Esta é uma das frases mais marcantes do livro “Todo dia a mesma noite”, escrito pela jornalista Daniela Arbex.

A História de Santa Maria pode ser determinada a partir de muitos acontecimentos, a inauguração da Estação Ferroviária, a inauguração da Universidade Federal da Santa Maria e, desde janeiro de 2013, o assassinato coletivo ocorrido na Boate Kiss. Desde então, por onde passamos, basta dizer de onde viemos que a referência é sempre a mesma: “o local onde ocorreu o incêndio aquele”.

Um mar de tristeza sempre invade o nosso corpo quando ouvimos tal referência. Uma confusão de sentidos e significados emerge. Um constrangimento doloroso. Santa Maria para muitos é apenas um local onde se busca ganhar a vida e sobreviver. Mas para nós, professores e professoras, que lidamos diretamente com jovens e adolescentes é muito mais que isso.

É um local de busca de realização de sonhos. É a alegria da Calourada, são os olhos brilhantes dos primeiros dias de aula, é a emoção de pais, mães, avós e avôs no dia da formatura. É uma etapa da vida. É sinônimo de juventude. Um sinônimo que foi interrompido por volta das 2h30 daquele 27 de janeiro de 2013.

Para nós que perdemos alguns conhecidos, filhas e filhos de amigos e amigas, aquele sinônimo se esvaziou. Porém, para os país, as mães e os familiares das vítimas, e também para os sobreviventes, aquele sinônimo foi preenchido com a perda, com a dor, com a depressão, com os quartos vazios, com o choro e com a sensação de injustiça.

Passada a comoção dos primeiros meses, as ideias de que “a cidade não pode parar”, “temos que virar a página”, “o luto não pode virar para sempre”, os insultos (muitos destes vindos de supostos religiosos), o desprezo das autoridades e as tentativas de intimidação, fizeram aumentar a ainda mais esse preenchimento.

Porém, por trás deste terrível preenchimento havia uma outra face. A face humana da vida que a todo momento demonstrava que, para além dos burocratas do dinheiro e do poder, para além dos vendilhões de templo que, como diz o Emicida, “falam de Deus e agem como Satanás”, existem os solidários e os empáticos.

Aqueles que sempre estavam dispostos ao abraço afetuoso da Ligiane, do Flávio, da Gabi, do Sérgio, da Cida, da Lívia e de tantas outras pessoas que não deixaram apagar a busca por justiça. Sem rancores, sem ódios, lutando com aquilo que tinham de melhor: o amor. A Tenda da Vigília se tornou um espaço que semanalmente nos diz que não existe luta sem afeto. Tampouco, existe justiça sem abraços.

O momento da justiça chegou. A luz na madrugada escura do eterno 27 se acendeu. Não haverá página virada! Não haverá esquecimento! Ninguém esquece os seus eternos amores. Os canalhas seguiram sendo os canalhas de sempre. Os afetuosos seguiram cada vez mais distribuindo afetos.

A justiça não irá substituir a dor. A justiça não irá repor o pedaço perdido. A justiça fechara um ciclo. A justiça permitirá que pais, mães, familiares e sobreviventes tenham um pouco mais de alívio sabendo que, apesar dos quartos vazios, o amor e os abraços ainda valem a pena.          

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Nota do Editor. A foto da caminhada de familiares e amigos das vítimas da Kiss, acontecida na noite de sábado, 27 de novembro, é de Bruno Silva (Sedufsm)

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