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Olyr Zavaschi, o jornalista que inventou as letrinhas verdes – por Carlos Wagner

Em tom de brincadeira, costumo afirmar nas minhas palestras que nasci duas vezes. A primeira em 21 de setembro de 1950, em um hospital em Santa Cruz do Sul (RS), quando Iloni Maria Wagner, então uma menina de 16 anos que falava misturando o alemão com o português, às 5h30min, entrou em trabalho de parto e tornou-se minha mãe. A segunda vez que nasci foi em algum dos 120 dias transcorridos entre março e junho de 1988, quando Olyr Zavaschi, 46 anos na época, me apresentou uma tela de computador cheia de letrinhas verdes que substituiriam os caracteres pretos das máquinas de escrever até ali usadas para datilografar as matérias nas laudas da Zero Hora. Ou, como se falava na época: bater a matéria. Tem pouca coisa escrita a respeito da migração das máquinas de escrever para os computadores nas redações.

Não foi só uma troca de equipamento. Foi uma mudança radical na maneira do jornalista lidar com as informações na hora de redigir a matéria. Até então o nosso cotidiano era ouvir o barulho ensurdecedor e cadenciado das máquinas de escrever, o som estridente das campainhas dos telefones, sentir o cheiro da fumaça do cigarro e ouvir os gritos dos editores apressando os repórteres para entregar a texto, o famoso “bafo na nuca”. Em um estalar de dedos desapareceram os gritos, o som das máquinas, a fumaça do cigarro e o office boy que arrancava a lauda das mãos do repórter e corria até a mesa do editor. E surgiu uma redação cheirando a novo, com um teclado silencioso e uma tela com letras verdes no lugar da lauda. Até o banheiro era novo. Naquele tempo, o pessoal da redação era dividido em três faixas de idade: os jovens, conhecidos como focas por estarem iniciando na profissão, a turma da meia-idade e os velhos. A maioria se incluía nos dois últimos grupos. Os focas fizeram a travessia para os computadores sem maiores dramas, os de meia-idade e os velhos reclamaram. Mas logo acabaram se adaptando à nova situação. Na época, 1988, eu estava com 38 anos, já avançado na meia-idade e com pé na velhice para os padrões daquele período – nos anos 80, a expectativa de vida do homem brasileiro era de 62 anos, e hoje (2022) é de 74. Não só consegui fazer a transição entre a máquina de escrever e o teclado com uma tela de letras verdes como aumentei a qualidade do meu trabalho e, consequentemente, a longevidade na carreira de repórter, graças à competência do Olyr e sua equipe, formada pela Bete Duarte e a Eunice Jacques (falecida em 1997), que nos conduziram para a era da informatização.

Lembrei da história da substituição da máquina de escrever pelo computador por conta do lançamento do livro Olyr Zavaschi – O legado de um homem cordial, escrito pelo colega Mario de Santi, no final do ano passado. Com elegância e precisão, Santi narra em 255 páginas a vida do Olyr com a sua companheira, a psiquiatra Maria Lucrécia, e os filhos Guilherme, Leonardo e Letícia. Olyr nasceu em 1941, no município de Encantado, hoje uma cidade agroindustrial do Vale do Taquari, no interior gaúcho. Em uma família com sete filhos, um dos seus irmãos foi Teori Zavascki, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), morto em um acidente aéreo em 2017. Olyr formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e acabou se apaixonando pelo jornalismo. Ele faleceu em 2011. Não só li o livro de Santi como refleti sobre o que tinha lido. A minha geração de repórter passou pela substituição da máquina de escrever pelo computador, a popularização da internet, a massificação do uso do celular e a decadência econômica e editorial das grandes empresas de comunicação no Brasil. Até agora, o bom jornalismo tem sobrevivido graças ao sacrifício pessoal de colegas. Mas o que vem aí pela frente? O tiro de misericórdia na nossa profissão? Ou um renascimento do velho e bom jornalismo? O que sabemos é que será uma luta encarniçada pela sobrevivência profissional, porque pela primeira vez na história estamos enfrentando grupos organizados que têm como objetivo exterminar o que hoje chamamos de jornalismo e substituí-lo por uma versão única da verdade. Como já aconteceu na Alemanha, nos anos 30, durante a ascensão do nazismo. Tenho dito nas minhas palestras que, nos tempos atuais, precisamos estudar como foram solucionados os problemas enfrentados pela nossa profissão ao logo dos anos. Dentro dessa visão é importante que se vasculhe o passado para saber como Olyr conseguiu conduzir uma operação de grande envergadura, que foi substituição da máquina de escrever nas redações.

Lembro-me de algumas conversas que tive com o Olyr na redação. Nos anos 80, os conflitos agrários explodiam por todos os rincões do Brasil. Estive em todos eles. E a maior dificuldade que se enfrentava não eram os pistoleiros de aluguel pagos para espantar jornalistas. Mas as comunicações. Muitas vezes havia um único telefone disponível para mais de 30 repórteres. Durante a cobertura, não tínhamos como saber o estava acontecendo no restante do país, porque estávamos em lugares isolados, sem acesso às informações. Era uma barra trabalhar. Comi o pão que o diabo amassou naquelas coberturas dos conflitos agrários. Simpatizei com a ideia de trocar a máquina de escrever pelo computador quando o Olyr me falou que a minha vida seria facilitada. Aliás, ele não falava. Desfilava uma série de argumentos durante a conversa que te fazia dizer: “Por que não pensei nisso antes?” Tenho dito que os professores das faculdades de jornalismo prestariam um grande serviço para a continuidade da nossa profissão se vasculhassem o trabalho de pessoas como Olyr Zavaschi. Até hoje a evolução da tecnologia só tem me ajudado no exercício da reportagem. Cada redação cultiva as suas manias. Na Zero Hora, descobri que o elogio máximo que se podia fazer para um colega era acrescentar antes do nome a palavra “seu”. Não sei quem inventou. Mas sempre o usei para mostrar respeito pelo trabalho de um colega. Arremato a nossa conversa dizendo o seguinte: “Seu Olyr, obrigado por ter sinalizado o caminho para mim. Sou um velho repórter estradeiro que descobriu lá em 1988 que a idade não é barreira para se aprender algo novo. Mas falta de interesse, é”.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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