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O dia das mulheres – por Elen Biguelini

Data de luta, mais que de celebrações, na reflexão da articulista

Em 8 de março todo o mundo celebra o dia das mulheres. Mas esta data não é de festa e sim de luta. O dia foi escolhido como reconhecimento internacional da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres e tem duas possíveis datas marcantes iniciais.

Mais conhecido é o incêndio que vitimou 100 mulheres em uma fabrica de camisas de Nova York, que aconteceu em 25 de março de 1911.

Outro acontecimento que pode ter gerado a escolha da data foi uma manifestação de mulheres russas, em 1917. Nesta, 90 mil mulheres pediram paz e comida para seus filhos, durante a primeira guerra mundial. Embora no calendário russo a data desta manifestação tenha sido 23 de fevereiro, no calendário gregoriano ocidental, é 8 de março.

A data é, no entanto, uma junção destes acontecimentos com muitos outros.

Não se pode falar de 8M (8 de março) sem lembrar desde as precursoras do movimento feminista, Mary Wollstonecraft, que inspirada na obra de Rousseau e no tratado revolucionário francês escreveu “Reinvindicação dos Direitos da Mulher” e de sua contemporânea Olympe de Gouges, a francesa que foi guilhotinada na revolução francesa e que escreveu em resposta aos “Direitos dos Homens” desta mesma revolução os “Direitos das Mulheres”, nos quais reivindicava, inclusive, o direito a propriedade.

Mas é, claro, ao movimento sufragista que mais devemos esta data. Foi ele que iniciou a juntar um grande grupo de mulheres a reclamar seus direitos, primeiramente o de voto.

Os movimentos inglês e americano são os mais conhecidos, mas tivemos no Brasil também este movimento. Em especial cito Bertha Lutz, que era uma mulher da sociedade carioca e, devido a isso, tinha contato com ministros do governo brasileiro.

Foi por meio de alguns destes que o voto feminino foi alcançado no Brasil e, principalmente, dela. Cito também a feminista curitibana Mariana Coelho, que escreveu “A história do feminismo” em 1933, pouco antes do sufrágio feminino ser garantido pela constituição.

Mas a data da qual falamos hoje tem ainda mais base nos movimentos posteriores ao sufragismo, no movimento feminista em si, que reclamava direitos as mulheres trabalhadoras – daí sua relação com o incêndio da fábrica americana.

Muitas mulheres reclamaram seus direitos ao longo do final do século XIX e a década de 1930. Posteriormente, a década de 60 trouxe um novo ressurgir nestas manifestações e culminou, então na adoção desta data simbólica pela ONU em 1975.

Atualmente, muitas das reivindicações destas mulheres já foram atendidas, enquanto muitas outras permanecessem para ser batalhadas.

Em alguns locais as jovens mulheres ainda não têm acesso à educação – uma reivindicação que já existia em Mary Wollstonecraft, e que continua em Malala.

Empoderar meninas é empoderar famílias. Educar meninas é possibilitar o acesso delas a salários melhores e, por consequência, a melhor alimento para seus futuros filhos.

É importante, então, que em datas como estas nós não apenas celebremos com rosas e chocolates, mas também lembrando da posição social de subalternidade que algumas mulheres ainda se encontram, ou a disparidade salarial, ou a violência para com as mulheres – que é ainda parte de nosso cotidiano, infelizmente – ou da falta de objetos de higiene pessoal e menstrual, etc.

Lutar contra estas desigualdades é essencial, para que nossos filhos e filhas cresçam em um mundo no qual haja menos causas de luta no dia 8 de março e mais causas de celebração.

Leia mais em: https://forbes.com.br/forbes-mulher/2022/03/dia-internacional-da-mulher-as-verdadeiras-historias-por-tras-do-8-de-marco/

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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