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Viva a morte? – por Luciano Ribas

Talvez a opção de outubro, fala o articulista, seja entre a vida e…

Luciano Hang é um ser desprezível. Da pior espécie, pois tem muito dinheiro para amealhar puxa-sacos dispostos a aplaudir suas babaquices. E não falo de quem precisa trabalhar para ele e que, devido a essa necessidade, provavelmente sofra uma espécie de “treinamento” em idolatria. Não. Falo dos que, por exemplo, acharam lindo quando ele veio a Santa Maria agredir a nossa mais importante instituição – e verdadeiro sustento da cidade – a UFSM.

Esse senhor, metido em trajes verde-amarelos que sintetizam seu arremedo de patriotismo, andou sem capacete na garupa de uma moto, agarrado na cintura do genocida (também sem capacete), ambos estampando sorrisos de vilões de filmes de segunda linha da DC Comics.

A cena ocorreu em maio de 2021 e foi pateticamente permitida pela PRF, que é quem deveria garantir a aplicação das leis de trânsito nas rodovias federais. Passados pouco mais de doze meses da infração presidencial, dois agentes da mesma PRF pararam Genivaldo Jesus dos Santos por trafegar sem capacete, em Sergipe.

Paciente com esquizofrenia em tratamento, Genivaldo ficou nervoso, segundo relatos. Nos eventos que sucederam a abordagem, ele teve pés e mãos amarrados, sofreu agressões e, por fim, foi executado em uma câmara de gás improvisada. Em agonia, ele se debatia e gritava, enquanto seus executores empurravam firmemente a tampa da viatura e parte da substância letal vazava. Segundo o IML sergipano, “asfixia e insuficiência respiratória” mataram o homem de 38 anos, que era casado e tinha um filho de 7 e um enteado de 18.

No festival de absurdos do Bolsonistão, Genivaldo foi sumariamente assassinado por andar sem capacete, a mesma infração cometida pelo deus dos fascistas e por seu bobo da corte. Mais de uma vez, registre-se, reiteradamente debochando das leis, de quem as cumpre e da civilização.

Como nesse país já não há limites para “subir o sarrafo” da maldade, em uma rápida troca de cena o bufão Hang celebrou a chacina da Vila Cruzeiro. Para ele, “o Ibope aumenta o número de eleitores do Lula e o Bope diminui”, como se todos os mortos fossem bandidos e como se a morte fosse a solução para punir crimes – excetuando a sonegação, é claro, provavelmente pense ele.

Um dos mortos se chamava Douglas Costa Inácio Donato, serviu a Marinha e era um “filho de ouro”, segundo a mãe. Nada constava contra ele, até o momento em que escrevi esse texto. Outra vítima era Ricardo José Cruz Zacarias Junior, vendedor ambulante e mototaxista, contra quem também não constava nada. Na verdade, dos 22 mortos identificados, apenas 7 tinham passagem pela polícia, segundo matéria do G1 de 24 de maio.

Não sei em quem votariam, mas, como no Rio de Janeiro o genocida venceu em 2018 (com uma baita ajuda dos amigos milicianos), talvez tenham sido eleitores do mito. Se o foram, havia uma chance real de terem se dado conta da bobagem que fizeram: inflação de dois dígitos, gasolina a quase R$ 8,00, 660 mil mortos pela covid e tudo o mais que as três ou quatro pessoas que leem meus textos estão cansadas de saber são motivos reais para suspeitar que sim.

O que sei é que a frase do mesquinho Luciano Hang é reveladora do que essa gente pensa das pessoas pobres e da grande massa trabalhadora. Para eles, são todos bandidos e a violência e a morte definem como se deve lidar com a “escumalha”. Sem constrangimentos, matam de fome, matam a bala, matam a faca, matam asfixiados, matam de covid. Matam por prazer, quase gritando “¡viva la muerte!”, como faziam os falangistas espanhóis.

Inegavelmente, Bolsonaro e muitos de seus seguidores têm um fetiche por “la muerte” e corações de ferro, como o Tânatos mitológico. O que me leva a crer que, em outubro, mais do que o bem contra o mal, talvez nossa verdadeira decisão seja optar entre a vida e a morte.

(*) Luciano do Monte Ribas é designer gráfico, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutorando em Diseño pela Universidad de Palermo (UP/Buenos Aires). É um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema, além de já ter exercido diversas funções na iniciativa privada e na gestão pública. Ele escreve neste site aos domingos. 

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