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A fome emparedou o Brasil – por Valdeci Oliveira

“Quem se cala diante da fome alheia, concorda com a sua existência”

Há situações em que não devemos ter o receio – muito menos a preocupação – de parecermos aos outros como repetitivos. De tão graves, injustos e inaceitáveis que são, tais casos nos obrigam a vir a público e escancará-los tantas vezes quanto for necessário fazê-lo. A fome, num país em que o agronegócio bate recordes atrás de recordes de produção – e de exportação – é uma dessas situações.

Saiu nesta semana o mais recente e amplo levantamento sobre a insegurança alimentar da população brasileira. E quando falo em “população” não se trata de mera retórica, mas sim do sentido mais amplo que o termo pode ter.

Elaborado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), os números são de assustar, de indignar e revoltar qualquer pessoa que tenha um mínimo de consciência social e amor ao próximo. Não precisa ser ativista, militante de esquerda ou das pastorais sociais. Na verdade, basta se enquadrar como ser humano – ou animal racional, cientificamente falando.

Como uma tragédia anunciada, pois é o resultado da combinação de política econômica somada à inexistência de políticas públicas dignas de levarem esse nome, os dados nos mostram o descaso – que há tempos deixou de beirar o criminoso para ser totalmente engolido por este adjetivo – dos governos para com milhões de homens, mulheres, idosos e crianças.

Os pesquisadores, que trabalham de forma conjunta e atuam em diferentes universidades brasileiras, apontam que, no final de 2020, mais de 19 milhões de brasileiros e brasileiras (9 milhões mais do que dois anos antes), nossos irmãos, conviviam com a fome. Em 2022, aquilo que já era algo superlativo aumentou e chegou ao vergonhoso e injustificável patamar de 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer.

E se levarmos em conta o contingente classificado com insegurança alimentar leve (quando há preocupação ou incerteza se terá ou não acesso a comida no futuro) ou moderada (redução na quantidade do que é consumido), o total chega a 125,2 milhões (quase 60% da população). Ou seja, é como se o Brasil abrigasse em seu território as populações da França, Espanha, Uruguai e Paraguai, somadas, com alguma carência para se alimentar.

Nesta segunda edição do estudo, o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (II VIGISAN) analisou os dados coletados entre os meses de novembro do ano passado e abril último, em entrevistas feitas em 12,7 mil domicílios, tanto em áreas urbanas quanto rurais, de 577 municípios, localizados nos 26 estados e Distrito Federal.

Ou seja, a abrangência é para não deixar dúvidas junto aqueles que negam ou minimizam o problema e responsabilizam a pandemia, a guerra na Ucrânia e a crise mundial, pois esses três fatores – que são agravantes, claro – sequer existiam há três anos.

Os diferentes níveis que nos mostram os pratos e estômagos vazios foram medidos pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) – a mesma utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão oficial do governo Federal – e são os piores desde 2004, quando o país havia começado, um ano antes, a investir pesadamente em políticas de inclusão e distribuição de renda. Ou seja, em uma década o Brasil tinha conseguido sair do mapa da fome da ONU (2014), mas bastou muito pouco para iniciar seu retorno – seja na amplitude ou velocidade – com mais força ainda.

De fato, a sociedade brasileira, por mais que alguns segmentos olhem para o lado oposto do problema, está frente a frente a um dos piores momentos no embate contra a fome nas últimas três décadas. Ignorar isso é, no mínimo, ser cúmplice com essa verdadeira barbárie em termos de falta de acesso a alimentos suficientes para que se tenha a garantia de uma vida cidadã.

De acordo com os organizadores do levantamento, a tarefa realizada busca cumprir com o compromisso de “contribuir para o conhecimento e o debate cientificamente fundamentado da realidade social do país (…), cuja relevância é ainda maior em face da ausência de pesquisas oficiais com a frequência requerida para o monitoramento desta que é condição central de uma vida digna e saudável”.

O estudo está à disposição de toda a sociedade. Por isso, convido a todos e todas a acessarem o site https://olheparaafome.com.br/, a conferirem esse importante levantamento e a ajudarem a pressionar os gestores públicos – em todas as esferas – a enfrentarem com contundência um gargalo tão nocivo.

Peço ainda que a mobilização coletiva contra a fome multiplique os apelos para que os projetos voltados à geração de trabalho e renda que tramitam nos legislativos do Brasil – incluindo na Assembleia Legislativa gaúcha – sejam aprovados e, assim, amenizem a crise social instaurada no nosso território.

Mudando um pouco o ditado, lembro que quem se cala diante da fome alheia, concorda com a sua existência.

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria. É também o atual presidente da Assembleia Legislativa gaúcha.

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Um Comentário

  1. Fome é um problema. Só não é mote para aumentar a carga tributaria. Numeros? Há que se olhar com ‘grano salis’. Basta ver a origem dos numeros. Rede PENSSAN. ‘teve início com a instituição do Grupo Pró-Rede de Pesquisadores e Pesquisadoras em SAN,[…]realizado em dezembro de 2012, em Brasília’. Primeiro governo Dilma, a humilde e capaz. Principios? ‘ Pesquisa cidadã […]’. ‘Compromisso permanente com a redução das desigualdades e a promoção da equidade de gênero, étnico-racial e geracional.. Visa promover ainda: ‘diversidade metodológica’; ‘troca de saberes com organizações, movimentos e grupos sociais;’, ‘diversidade profissional, institucional, regional, de gênero, geracional, cultural e étnico-racial’. Resumo da opera: problema existe obvio; esquerda quer se apropriar do mesmo e direcionar a solução para que seja de acordo com a sua ideologia. São donos da ‘ONG’ que produz os numeros para ajudar na criação da ‘narrativa’. Vermelhinhos acham que são espertos, só não são muito inteligentes.

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