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Qual é a responsabilidade da corregedoria da PRF no caso Genivaldo? – por Carlos Wagner

Trabalho fundamental (e discreto) dos agentes da “polícia da polícia”

Uma pergunta: é a primeira vez que a Polícia Rodoviária Federal se envolve com tortura de presos? (Foto Reprodução)

Uma fórmula bem antiga, mas que funciona, é a imprensa dar visibilidade às corregedorias das polícias para evitar que aconteçam casos como o da absurda morte de Genivaldo de Jesus Santos, 38 anos, sufocado na “câmara de gás” em que foi transformada uma viatura da Polícia Rodoviária Federal (PRF), na BR-101, no trecho de Umbaúba, em Sergipe – há matérias na internet.

E a maneira como a imprensa pode dar visibilidade às corregedorias é com a cobrança permanente para que façam o seu trabalho punindo os policiais que agem fora da lei. A morte de Genivaldo aconteceu na semana passada, quarta-feira (25/04). Um dia antes, agentes da PRF participaram de uma força-tarefa no Rio de Janeiro (RJ) integrada também pela Polícia Civil e pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), o do filme Tropa de Elite, que resultou na morte de 25 pessoas na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha – há reportagens na internet.

Uma vasculhada no que temos publicado nos noticiários sobre o aumento da letalidade da ação dos policiais aponta o dedo na direção do presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), que sempre pregou que “bandido bom é bandido morto”. Bolsonaro é um político que vai passar pelo cargo como tantos outros já passaram. Ele não é o primeiro a fazer esse tipo de pregação.

O que temos de lembrar aos policiais é que eles continuarão exercendo a sua função depois que houver a troca de presidente da República. E que nas corporações existem as corregedorias, que têm a função de evitar os abusos administrativos e penais cometido pelos agentes.

Vasculhei os noticiários em busca de matérias que mencionassem o nome do inspetor Wendel Benevides Matos, corregedor-geral da PRF que vai investigar o caso da câmara de gás. Pode ter me escapado alguma coisa. Mas não encontrei citação ao nome dele nos noticiários.

Por quê? Por dois motivos. O primeiro é que a maioria dos jornalistas envolvidos na cobertura dos fatos do dia a dia desconhece a estrutura administrativa das polícias. A razão disso é que nos dias atuais há uma carência de repórteres nas redações e os escassos que restaram estão envolvidos com um monte de pautas diárias.

São raras as redações em que sobreviveram os repórteres especializados na cobertura policial. O segundo motivo é que as corregedorias trabalham de maneira muito discreta e evitam conversar com jornalistas. Fazer uma fonte entre as equipes das corregedorias não é uma tarefa fácil.

Nos tempos do som cadenciado das máquinas de escrever nas redações os agentes que trabalhavam nas corregedorias eram chamados de “polícia da polícia”. Não é só nos filmes policiais que eles não são bem-vistos pelos seus colegas. No mundo real, também.

Convivi com o pessoal de corregedoria em várias matérias investigativas que fiz, como sobre o envolvimento de policiais com o jogo do bicho. A vida deles não é fácil. Mas é interessante. Investigar a polícia é muito difícil porque o investigado sabe apagar as provas.

Defendo que é importante que se mostre aos leitores como as corporações apuram os crimes praticados por policiais. E o destino que tem essa apuração, além de reforçar os processos abertos pelo Ministério Público. Comecei a trabalhar em redação em 1979 e uma coisa que aprendi é que sempre que um policial novo ingressa numa corporação é importante ele saber pelos noticiários que existe uma corregedoria e que ela funciona.

Se bem me lembro, o auge dos rolos envolvendo agentes da PRF foi no final dos 90, quando foi descoberto um esquema de corrupção nas estradas federais em Foz do Iguaçu, importante cidade no oeste do Paraná, na chamada Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai.

Trabalhei no caso e lembro-me que os agentes disputavam a peso de ouro a oportunidade de trabalhar no plantão de fim de semana, para extorquir os contrabandistas de bugigangas do Paraguai. Nos anos seguintes houve uma significativa melhora nos salários dos agentes que contribuiu para uma melhor qualificação dos quadros da corporação.

A investigação vai dizer o que aconteceu em Umbaúba. Senti falta nas matérias a explicação sobre por que razão os agentes se irritaram com o fato de que Genivaldo estava pilotando uma moto sem capacete. Digo isso porque conheço a região. Passei várias vezes por lá trabalhando e fazendo turismo.

A última foi em 2008, quando fiz a reportagem Camicases do Asfalto, na qual acompanhei, durante duas semanas, na cabine de um caminhão truck – aqueles que têm dois eixos na traseira –, um caminhoneiro que a cada quatro horas tomava um “rebite” (droga da família das anfetaminas) para suportar as longas viagens sem dormir ou descansar.

Nos trechos urbanos da BR-101 nos estados do Nordeste é comum ver dezenas de motoqueiros circulando sem capacete, com várias pessoas na moto e outras irregularidades. Pela sucessão dos fatos mostrados pelo vídeo, a impressão é que o policial que disse os palavrões estava a fim de mostrar serviço.

Para quem? Temos que descobrir. E para isso é preciso saber o que aconteceu antes da abordagem. Os policiais estavam em uma patrulha de rotina? Ou havia uma operação de fiscalização na região? A investigação da corregedoria vai dar essas respostas. É claro. Elas serão cruzadas com as investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público.

Para arrematar a nossa conversa. Os repórteres precisam começar a bater nas portas das corregedorias das polícias em busca de respostas aos crimes cometidos pelos agentes. Não é uma tarefa fácil. Mas o simples fato de saberem que estamos batendo na porta já os faz se mexerem.

Fazendo investigação jornalística pelos rincões do Brasil, especialmente na fronteira com o Paraguai, várias vezes fui parado por policiais à noite em estradas solitárias sem a identificação de jornalista no veículo. É uma situação complicada, que pode acabar em tragédia se um agente estiver disposto a fazer lambança.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Internet é uma maravilha. Existem podcasts de moda, de mecanica de automoveis, dos aficionados de relogios, de policiais e….de ex-detentos. Descobre-se que um certo traficante tem um bonde pessoal com trinta integrantes, mas a fila de espera tem mais de 600 nomes. Que o crime organizado é organizado, funciona como empresa e não como coração de mãe onde sempre cabe mais um. Que há traficantes que trabalham em meio periodo, carteira assinada até durante o dia e trafico durante a noite. Não é informação irrelevante da era mesozoica, é atual. Nos EUA começaram com este mesmo papo, diminuiram orçamento das policias, muita gente boa foi para a iniciativa privada, apertaram as regras da atividade policial (o que tende a fazer com que muitos liguem o ‘dane-se’, para ser educado) e o resultado foi aumento nas estatisticas criminais. Um dos fatores que irão influenciar as eleições de novembro por lá. Resuno da opera é que as coisas não se resolvem no mundo do mimimi e sim no mundo real. Basicão.

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