O fator Olívio Dutra – por Leonardo da Rocha Botega
Avaliação, num olhar de esquerda, da volta do ex-governador à cena política
Desde a ruptura epistemológica com o positivismo e com as concepções heroicizantes da História, ocorrida ao longo dos séculos XIX e XX, sabemos que a História é uma construção coletiva. Porém, existem indivíduos que possuem um inigualável simbolismo ético e político. Indivíduos que, mesmo sendo fruto de uma época, são capazes de potencializar desejos de mudança e ativar sentimentos de esperança. Olívio Dutra é um destes indivíduos.
Aos 81 anos, com uma trajetória que se confunde com a História do Tempo Presente do Rio Grande do Sul, Olívio conseguiu se transformar na grande novidade política das eleições desse ano. O anúncio de sua candidatura ao senado na última semana não apenas surpreendeu muitas pessoas, como também criou um novo cenário político. Olívio é uma das poucas figuras que ainda conseguem entusiasmar um campo político cada vez mais burocratizado e profissionalizado. Capaz de trazer encantamento aos espaços desencantados.
Foi justamente esse sentimento que sua candidatura despertou em boa parte da população rio-grandense. Olívio despertou a militância e produziu a realização de um desejo manifesto por boa parte da população que antevia um cenário eleitoral catastrófico, protagonizado pelo embate entre a direita e a extrema-direita (entre um projeto de desmonte das políticas públicas que “come com talheres” e um projeto de desmonte das políticas públicas que “come com a mão”). A candidatura de Olívio Dutra produziu a unidade das esquerdas.
A unidade das esquerdas vinha sendo desejada e pressionada por inúmeras pessoas que não propriamente pertencem a um dos partidos políticos desse campo. A unidade das esquerdas era um desejo de milhares de trabalhadores e trabalhadoras que nos últimos oito anos sentem na pele a precarização da vida, a destruição dos serviços públicos e o desrespeito com os mínimos sociais. Pessoas que foram vítimas de um fetiche anti-Estado conduzido por governos que entregaram seus patrimônios aos “amigos” do capital privado, “amigos” que ampliaram seus lucros e se desresponsabilizaram pelas melhorias dos serviços.
A candidatura de Olívio Dutra chamou os dirigentes partidários na responsabilidade. Chamou com o imperativo de ser uma candidatura coletiva ou não ser nenhuma candidatura. Chamou a prioridade daquilo que unifica. A prioridade da grande política! A política dos princípios, a política da democracia, a política do “povo como sujeito e não como objeto”. A política que o fez ser atacado por aqueles que pensam o Estado como um grande balcão de negócios.
O Olívio se tornou o grande fator da eleição que se avizinha. Uma eleição que será dura e difícil. Uma eleição que colocará frente a frente o Brasil da solidariedade contra o Brasil da barbárie. Uma eleição que poderá interromper o ciclo de destruição dos direitos sociais no Brasil e no Rio Grande do Sul. Ciente desse desafio, Olívio Dutra, o galo missioneiro, retornou à cena política. Retornou e a transformou em uma cena coletiva. A transformou porque Olívio é coletivo! Um coletivo de esperanças!
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).
Nota do editor. A foto (de Divulgação) é do ex-governador Olívio Dutra, na convenção da federação PT/PC do B/PV, que formalizou a candidatura dele ao Senado no último domingo, 31 de julho.
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