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Outro agosto – por Orlando Fonseca

O cronista e os tempos que correm. E, sim, há uma pitada de esperança

Maus presságios. Em tempos pretéritos, eram as temidas indicações que os sinais do inverno traziam para o cotidiano da gente que vivia, especialmente, nesta região meridional do Brasil. O frio era cruel naquele tempo em que não era atrativo turístico. Não havia as comodidades que o mundo moderno trouxe para os enfrentamentos ao minuano, à geada ou à neve. Epidemias como as que temos vivido nestes tempos bicudos – Covid, varíola dos macacos, influenza, tuberculose – eram sentenças de morte.

Antes das vacinas, não havia escapatória, quando os males eram tratados com simpatias, ervas e compressas. Mas era um tempo também de superação, porque o matungo (cavalo velho) que resistisse ao mês terrível, dava a esperança de viver mais um ano.

E agora, neste 2022, quando se intensificam os números do clima das eleições presidenciais, aumenta o volume, aumenta o calor, e o agosto gelado fica só por conta da meteorologia. Não são as condições climáticas que tomam o imaginário de assalto, mas os números das pesquisas eleitorais.

Mês dos cães danados, agosto aparece assim, na retórica imortal de Moacyr Scliar. Já no jargão popular, era o mês do Cachorro louco. Graças à vacinação em massa, não se tem mais casos de raiva – a hidrofobia, que causava tanto temor em tempos idos.

Loucos ainda temos em escala endêmica, mas já não é coisa do reino animal, ainda que também não se possa dizer que se trate de coisa racional. Quando começam pra valer as propagandas políticas, mais se avultam os sintomas de irracionalidades entre os nossos conterrâneos.  

No terreno da política, a história nacional traz, pelo menos, dois acontecimentos trágicos: morte de Getúlio, renúncia de Jânio Quadros. Donos de gestos emblemáticos, um apontava para o passado, outro para o futuro. Malgrado os excessos de um longo período ditatorial, Vargas apresentava avanços importantes no país, que deixavam para trás a República Velha, avançando para um Brasil moderno e desenvolvido. Já o dono da Vassourinha, o presidente falastrão, abria espaço para uma convulsão social que desembocaria no golpe civil-militar de 1964. O agosto nacional já nos trouxe momentos decisivos e amargos, a ponto de nos colocarem em alerta, o tempo todo.

Entretanto, em vista do período eleitoral neste ano, passamos a vivenciar o começo da efetiva campanha eleitoral. O que torna este período definitivo não é a polarização, destacada pela mídia e pelos comentaristas políticos. Observo que essa se trata, tão somente, de uma polarização numérica, não de ideias ou projetos. Como se houvesse dois polos distintos do ponto de vista ideológico, comentaristas apontam os nomes que se destacam na disputa para acentuar uma diferença.

Haja vista a tentativa de se criar uma “terceira vista”, que não tem vingado até agora, temos na verdade uma disputa entre aquilo que se apresenta na atual administração do país, desde o impeachment de Dilma Rousseff, e o aceno de um plano de mudanças, diante da crise atual. O que está, realmente, em jogo é a democracia, e como se pode almejar/imaginar/planificar a república.

Quando o setembro vier, é o título de um filme de 1961, uma comédia, com alguma confusão, mas com um final feliz. Ah, e tinha a Gina Lollobrigida no auge de sua beleza. A trilha sonora é maravilhosa, mas não esqueçamos que, neste ano, aqui em nosso país, o sete prenuncia algo pra deixar o agosto corado. Deveríamos estar celebrando nossos 200 anos de Independência – sobretudo deveríamos celebrar a democracia.

Minha expectativa, com Beto Guedes, é que quando “entrar setembro e a boa nova andar nos campos”, depois de um longo e tenebroso inverno, desfile a primavera, com a conotação que o termo assumiu, nos últimos anos, ao redor do mundo. A juventude nas ruas clamando por democracia, e uma era de justiça e prosperidade avance pelas ruas e praças, em todas as cidades brasileiras.

Esperança, se não for pedir muito.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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3 Comentários

  1. Hipocrisia e falta de vergonha na cara à parte, o que se observa? Fora das bolhas o crescimento da indiferença (tanto faz, são todos iguais) e do cinismo politico (‘pelo bem da Nação e interesse comum, farinha pouca meu pirão primeiro’). Soluções? As de sempre, educação, conscientização, debate,etc. ou ‘campanhas de esclarecimento’ (jornalistas gostam, direta ou indiretamente pinga um no bolso). Ou seja, soluções resumem-se a ‘faz-se algo cosmetico e deixa-se como esta para ver como é que fica’. Indiferença disfarçada e cinismo moqueado.

  2. Molusquistas falam em ‘democracia’ e defendem o voto num partido que comprou, democraticamente, apoio no Congresso. Conspurcaram o que dizem defender com corrupção. Obvio que tem a propria auto justificação ideologica. Contradições são até engraçadas! ‘Meu codigo de ética diz que os principais problemas do Brasil são a fome e a desigualdade; já pensei muito no assunto quando fui fazer curso de meditação na Argentina!’. Autoritarios, os outros tem que resolver os problemas que eles acham importantes da maneira que acham conveniente e sofrer as consequencias dos evidentes erros. A casta iluminada deve ser protegida e puxar no cabo da enxada é com os outros. Afinal, cansa e dá trabalho. Negocio é falar no microfone e produzir texto, de preferencia no ar condicionado sentado numa cadeira confortavel. É assim que o mundo ‘melhora’.

  3. Como escrever, escrever, passar a vida escrevendo e não acrescentar nada de útil. Depois a superstição, suicidio de Gege foi uma decisão pessoal, não uma fatalidade. Renuncia de Janio idem. Universo não segue a folhinha. Convenções humanas, alás, as coisas têm a importância que se coloca nelas. Bicentenário da independencia, não somos ianques ou franceses, não ecoa pelo simples motivo de não vingar a ideia de nação no pais. É um conceito que deve ser decorado para passar de ano e esquecer no ano (ou na semana) seguinte. ‘Democracia’ idem, o que defendem é um status quo que benefica alguns grupos (politicos, servidores publicos, etc.), tem nada a ver com o conceito a ser decorado no colegio. Republica, outro conceito, no Brasil é ‘a coisa é publica mas quero 3% para mim, afinal defendo os pobres e oprimidos’.

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