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UFSM. Uma universidade em estado de exaustão: sindicato sugere que saúde mental se torne pauta

Sedufsm propõe que o tema, relacionado ao trabalho docente, seja discutido

O trabalho do professor apresenta uma boa parte de tempo que é “invisível” aos olhos dos outros (Arte Italo de Paula/Sedufsm)

Por Fritz Nunes / Da Assessoria de Imprensa da Sedufsm

O trabalho docente apresenta uma boa parte de tempo que é ‘invisível’ aos olhos dos outros. Quando a gente diz que dá aula na graduação, as pessoas tendem a pensar que seu tempo de trabalho é o momento que está em sala de aula. O tempo de preparo de aula, de leitura, planejamento, correções de avaliações e outras atividades fica implícito, mas é o maior investimento de tempo. O comentário é de Ana Luiza Ferrer, professora do departamento de Terapia Ocupacional da UFSM há 12 anos, também docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia e responsável pelo Grupo de Pesquisa ‘Terapia Ocupacional e Saúde coletiva’.

No mês atual, chamado de “janeiro branco”, que chama a atenção para a saúde mental, ao olharmos para o interior da universidade, percebemos que a realidade na instituição, relatada por muitos docentes, é preocupante. Apesar de cada educador/a ter contratualmente regime de trabalho que estabelece um número específico de horas a serem cumpridas, no dia a dia, o que se constata, é que no geral o professor ou professora acaba ocupando momentos importantes da vida pessoal para concluir seu trabalho.

E é esse acúmulo de funções e de trabalho que acaba por levar ao adoecimento, seja ele físico ou mental. Diante disso, a própria Sedufsm está propondo que o debate sobre essa temática seja ampliado, não apenas ouvindo a categoria, mas também buscando saídas por parte da gestão da instituição.

Problema trabalhista

Tatiana Dimov, professora da UFSM há 10 anos, atualmente também leciona na pós-graduação e é chefe do departamento de Terapia Ocupacional. Ela comenta que não é possível dar conta de tudo com a carga horária que possui. “A gente tem um problema trabalhista na UFSM”, sublinha ela. “Se você olha o portal de encargos tem muito docente fazendo mais do que as 40 horas semanais. Se olhar os meus últimos semestres, só na graduação estive quase 20 horas. Se você somar com as 20 horas estipuladas para a chefia, já deu, já não tem mais tempo pra preparar aula, para pós-graduação, para nada”, desabafa.

Questionada se as demandas de trabalho adentram a vida privada, a resposta é afirmativa sem o menor titubeio. “Avança de muitas formas. Quando eu mesma escolho, porque não vejo outra opção, acordar às 5 da manhã para adiantar serviço. Quando eu chego em casa exausta e não consigo nem ouvir o que as minhas filhas falam. Quando eu adoeço pelo trabalho. Tudo isso é avançar”, diz Tatiana.

No entanto, o que mais a incomoda é a onipresença da comunicação virtual. “Uma das coisas que mais me incomoda é o whatsapp, que é uma ferramenta que não só avança, mas que invade os outros espaços de trabalho também. Então, às vezes eu estou de férias, ou com os estagiários, ou esperando uma consulta médica, ou em sala de aula, e respondendo whatsapp”. Para piorar, na visão dela, é que além de tudo, é uma ferramenta que a instituição não está custeando. “Eu sou mãe, moro longe dos meus pais, eu gosto de ter redes sociais para falar com a minha família e amigos. Mas, isso vira um mecanismo para te transformar em uma trabalhadora 100% disponível”, reclama a professora.

Liane Weber, docente na UFSM desde 1998, possui regime de 40 horas com Dedicação Exclusiva. Lotada no departamento de Engenharia Rural, atuando na graduação dos cursos de Agronomia e Engenharia Florestal, ela acrescentou uma tarefa a mais no seu cotidiano desde dezembro de 2020: participar da diretoria da Sedufsm.

“Eu tenho Dedicação Exclusiva na UFSM para trabalhar ensino, pesquisa e extensão. Na nossa Instituição, não temos liberação de carga horária para as atividades sindicais e isso significa que, além das responsabilidades na universidade, temos que encaixar as atividades sindicais na nossa jornada de trabalho”.

Difícil separação

Para Liane, é muito difícil de separar as atividades profissionais da vida pessoal e, assim, acaba sendo normalizado que se avance no tempo que deveria ser destinado a outras tarefas. “Avança sempre, e não é de agora. A carga horária docente é complexa, com atividades de ensino, pesquisa e extensão e, portanto, difícil de separar da vida pessoal, principalmente porque trazemos trabalho para casa, tanto à noite como nos finais de semana”, cita ela.

“As demandas dos tempos atuais são para ontem. A toda hora temos uma demanda diferente que chega a qualquer horário pelos meios de comunicação, seja e-mail ou whatsapp. A maneira como as pessoas se relacionam socialmente hoje em dia, pelas redes sociais, requer que se esteja 100% do tempo atenta, o que é impossível sem adoecer”, analisa Liane.

A alta demanda de tarefas, somada à hiperconexão, acabam por gerar adoecimento, especialmente mental. E essas questões estão na pauta do sindicato e têm sido levantadas e questionadas através de várias ações, como quando se discutiu a questão dos encargos docentes e da necessidade de serem estabelecidos limites para a atividade das e dos educadores.

Conforme Liane, a Sedufsm tem batido na tecla de que não se pode normalizar uma realidade que é adoecedora. “A invisibilidade do adoecimento mental está atrelada ao preconceito sobre a loucura. As pessoas escolhem se calar e sofrer sozinhas por causa do medo de serem julgadas e rotuladas”, argumenta. Ela acrescenta que a diretoria do sindicato tem ouvido as pessoas, dado voz e discutido o tema a partir dos relatos da categoria. “Temos feito um trabalho incessante de não deixar de falar sobre o que incomoda. Porque falar sobre o que incomoda é o princípio da mudança”, defende a vice-presidenta da Sedufsm.

As aulas na graduação, na pós-graduação, orientação a estudantes, inserção em grupos de pesquisa, a participação em colegiados ou a ocupação de cargos de coordenação ou chefia, acabam por fazer com que parte significativa de docentes extrapole a sua carga horária contratual, gerando uma invasão do trabalho nos momentos que deveriam ser reservados ao descanso.

Os efeitos disso, conforme constatam estudiosas e estudiosos, é o adoecimento, tanto físico como mental. Há que se frisar ainda que nesse espectro dos efeitos adoecedores, é preciso fazer um recorte de gênero, tendo em vista que as mulheres são mais afetadas que os homens.

Adoecimento psíquico atinge 52% de docentes no mundo

Ana Cristina Barros da Cunha, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca dados mundiais que indicam prevalências entre 10% a 49% de adoecimento mental, decorrentes do trabalho docente. E o desfecho disso, segundo ela, leva ao estresse, que se agrava. E aí surge a Síndrome de Burnout, que representa um grave adoecimento psíquico pelo trabalho que, segundo cita ela, atinge até 52% de professores e professoras em âmbito mundial.

Ainda segundo a pesquisadora, transtornos mentais como ansiedade e depressão também são frequentes, sendo a depressão um dos transtornos mais relevantes, que pode atingir cerca de 15,9% a 28,9% das e dos docentes.

A professora de Psicologia da UFRJ explica que esse adoecimento mental é um fenômeno multicausal, que envolve fatores internos e externos aos docentes, e que envolvem desde condições desfavoráveis da vida pessoal e familiar, como a falta de apoio e dificuldades financeiras, até fatores laborais, como condições precárias de infraestrutura no trabalho, conflitos com colegas, falta de reconhecimento profissional, problemas de saúde mental estudantil.

Além disso, acrescenta Ana Cristina, a grande competitividade, a alta sobrecarga e o ritmo acelerado de trabalho são também causas desse adoecimento mental. O problema de saúde mental, frisa ela, atinge docentes de todos os níveis de educação, destacando-se o Ensino Superior por fatores diversos, como, por exemplo, a falta de recursos a partir do sucateamento das universidades públicas.

Patologia organizacional do trabalho

Breno Pereira é docente da UFSM há 26 anos. Atua na graduação e no mestrado do curso de Administração, também no mestrado e doutorado profissional em Gestão de Organizações Públicas, onde coordena o Programa de Pós-Graduação: PPGOP.

Segundo ele, nos últimos anos vem ocorrendo uma sobrecarga de trabalho administrativo na vida do segmento docente, o que, para ele, não é problema de uma gestão específica da UFSM.” É um processo silencioso que vem demandando mais tempo e conhecimento dos docentes ao longo dos anos. Nós, da gestão pública, chamamos da ‘burocracia do tecnocrata’. Muitas atividades que eram exercidas pelos técnico-administrativos, hoje, são trabalhos dos docentes”, constata Pereira.

O professor explica que o que tem acontecido é que docentes vêm acumulando atividades burocráticas que tomam cada vez mais tempo das suas atividades pedagógicas diárias. “Observa-se a cada dia, docentes solicitando desligamento dos programas de pós-graduação devido ao excesso de trabalho, tendo em vista a dificuldade em conciliar o trabalho e a vida particular”.

Pereira descreve ainda como algo comum, atualmente, verificar docentes adoecidos, de diversas formas, em seu ambiente de trabalho, tirando licenças ou até ficando distante das suas salas de trabalho, pois ‘estar na UFSM faz mal a alguns’. “Existe uma patologia organizacional ao trabalho docente que pouco é ressaltado nos corredores da instituição”, acredita ele.

Para o professor Breno Pereira, a UFSM precisa acender o alerta para as doenças mentais das e dos docentes e desenvolver políticas e práticas organizacionais que sejam capazes de amenizar tais sofrimentos que, hoje, segundo ele, é claramente perceptível na instituição.

Ana Luiza Ferrer, da Terapia Ocupacional, traz um elemento para agregar nesse debate relacionado à sobrecarga de trabalho. Além das tarefas de graduação, pós-graduação, grupos de pesquisa, coordenações de cursos ou chefias de departamento, a docente vislumbra uma medida interna que teria elevado o conjunto de tarefas docentes.

Para ela, a reforma administrativa que vem acontecendo na UFSM “tem sobrecarregado (e muito) o trabalho das/os docentes, sobretudo quem está ocupando cargo de coordenações e chefias”. Com a reforma, avalia a professora, estaria ocorrendo uma redução de recursos humanos administrativos, um aumento na burocratização das tarefas, com a informatização do trabalho, e uma diversificação de demandas, que envolvem mais cursos, o que implicaria em um envolvimento mais “robotizado e menos personalizado”.

Segundo Ana Luiza, o que se tem vivenciado é o desgaste de docentes que relatam o tempo gasto em responder tarefas administrativas de e-mails e processos na caixa postal dos cursos, que poderiam ser filtradas e, em sua maior parte, respondidas por um servidor administrativo. “Isso faz com que docentes que estão em cargos de gestão, diminuam suas participações em projetos e deixem de produzir da forma como gostariam e como a universidade exige”, critica ela.

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10 Comentários

  1. Resumo da opera. Padrão serviço publico. Falta gente. Estamos trabalhando demais e ganhando de menos. Quanto mais privilegios tem em relação ao trabalhador médio do pais, mais privilegios querem.

  2. Terapia ocupacional, psicologia, administração, sensoriamento remoto. Pessoal da medicina então está ‘caindo duro’ no meio dos corredores então.

  3. ‘[…] Muitas atividades que eram exercidas pelos técnico-administrativos, hoje, são trabalhos dos docentes.’ Antigamente lançavam notas e presença num diario de classe e depois um servidor digitava a coisa toda num computador para passar para um banco de dados. Com a alteração diminui a necessidade de servidores, é direto no computador. Trabalhos meniais estão abaixo da dignidade dos ‘doutores’.

  4. ‘[…] destaca dados mundiais que indicam prevalências entre 10% a 49% de adoecimento mental, decorrentes do trabalho docente.’ Sem fonte e não faz distinção entre docentes de niveis diferentes.

  5. ‘Para Liane, é muito difícil de separar as atividades profissionais da vida pessoal[…]’. Na iniciativa privada é mais fácil?

  6. ‘[…] ela acrescentou uma tarefa a mais no seu cotidiano desde dezembro de 2020: […]’. Ou seja, quer que o empregador arque com as consequencias de uma decisão propria. Dirigentes sindicais na iniciativa privada só tem carga horaria menor via convenção coletiva. O normal é cumprir horario igual aos outros.

  7. ‘[…] atualmente também leciona na pós-graduação e é chefe do departamento de Terapia Ocupacional.’ Chefia de departamento tem gratificação e ninguém é obrigado a assumir. Lecionar na pós também não é obrigatorio.

  8. LDB. ‘Art. 57. Nas instituições públicas de educação superior, o professor ficará obrigado ao mínimo de oito horas semanais de aulas.’ Em muitos ligares o minimo vira o maximo e disciplinas são oferecidas com mais de um docente como responsavel.

  9. Profissionais/ocupações que tem sindrome de burnout são bem mapeadas. Cuidadores não remunerados, gente que tem familiar com certas doenças. Membros de casais, geralmente a mulher. Atletas. Pessoal da saúde. Professores de ensino fundamental e médio.

  10. Kuakuakuakuakuakua! Burnout em professores da UFSM! Kuakuakuakuakuakua! Cidade com muito servidor publico é isto. Se forem para SP ou outra cidade industrial qualquer de tamanho médio ai sim é que vão ver o que é ‘se matar de trabalhar’.

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