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Pedágio sem cancela virou máquina de multas e politicagem do governo Lula – por Giuseppe Riesgo

“Na prática, (...) o gesto tem cheiro de política. E cheiro forte de ano eleitoral”

O governo federal decidiu dar um tempo nas multas do pedágio free flow. Suspendeu novas punições, prometeu rever mais de 3 milhões de autuações e abriu prazo para regularização das dívidas até novembro. Oficialmente, a justificativa é técnica: sistemas desintegrados, motoristas desinformados e falhas operacionais. Na prática, porém, o gesto tem cheiro de política. E cheiro forte de ano eleitoral.

O free flow nasceu com um discurso moderno. Sem cancelas, sem filas, cobrança automática e proporcional ao trecho percorrido. A ideia faz sentido. O problema é que, no Brasil, muitas vezes se implementa primeiro e se explica depois. Resultado: milhões de motoristas acabaram multados não por má-fé, mas por desconhecimento, confusão ou pela própria dificuldade de acessar os canais de pagamento.

Agora, depois da avalanche de críticas e da irritação crescente de quem recebeu multa sem sequer entender como deveria pagar o pedágio, o governo resolve flexibilizar. Não extingue a cobrança, claro. O dinheiro continua devido. Mas suspende as punições e oferece uma espécie de anistia temporária para quem regularizar os débitos. Coincidentemente, até depois das eleições.

É impossível ignorar o componente político dessa decisão. O cidadão comum já convive com combustível caro, impostos altos e sensação constante de punição. Em um cenário desses, transformar milhões de motoristas em infratores por causa de um sistema mal comunicado era um desastre anunciado. O governo percebeu isso e recuou antes que o desgaste virasse combustível eleitoral para a oposição.

E no Rio Grande do Sul a situação ganha contornos ainda mais revoltantes. O governo Eduardo Leite abraçou o modelo de pedágios automáticos como símbolo de modernidade e eficiência, mas ignorou o impacto prático sobre quem depende das rodovias para trabalhar, produzir e circular diariamente. O discurso tecnocrático veio antes da transparência e da orientação ao cidadão. Mais uma vez, o gaúcho foi tratado como alguém que precisa apenas pagar a conta e se adaptar depois.

O curioso é que o próprio governo e a ANTT passaram semanas dizendo que não havia suspensão de multas nem perdão algum. Depois vieram as exceções, os prazos e as flexibilizações. A mensagem transmitida ao cidadão é contraditória: o sistema segue valendo, mas a punição pode esperar; a dívida existe, mas a multa talvez não.

O episódio revela um velho vício brasileiro: a dificuldade de equilibrar inovação com realidade prática. Tecnologia sem comunicação vira armadilha. Modernização sem preparo vira confusão burocrática. E, no fim, quem paga a conta, literalmente, é o motorista.

(*) Giuseppe Riesgo é ex-secretário de Parcerias da Prefeitura de Porto Alegre e ex-deputado estadual pelo partido Novo. Ele escreve no site às quintas-feiras.

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5 Comentários

  1. Resumo da opera. Tudo, inclusive a critica, é eleitoreira. Confusão de praxe, no Brasil é assim mesmo, é o que a casa tem para oferecer. Para conseguir a carteira de motorista é necessario realizar uma prova que aborda a legislação de transito. Presume-se que todos saibam. Mas quase invariavelmente sempre que alguém leva uma multa vem o chororo. ‘Tinham que dar uma chance, passar um pito e educar, mimimi’. Todo mundo sempre quer um ‘jeitinho’.

  2. ‘O free flow nasceu com um discurso moderno. Sem cancelas, sem filas, cobrança automática e proporcional ao trecho percorrido.’ Quando tem cancela e fila reclamam, quando tem free flow reclamam. Eis a grande questão, na bunada não vai dinha?

  3. ‘Resultado: milhões de motoristas acabaram multados não por má-fé, mas por desconhecimento, confusão ou pela própria dificuldade de acessar os canais de pagamento.’ E sim por serem bocabertas. Geralmente existem placas e/ou mostradores eletronicos. Geralmente a mensagem no principio é ‘equipamento em teste’. Alas, se não prestam atenção nos sinais do pedagio não prestam nos outros também.

  4. ‘O governo federal decidiu dar um tempo nas multas do pedágio free flow.’ Medida obviamente eleitoreira.

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