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O neoliberalismo contra a democracia – por Leonardo da Rocha Botega

Os sujeitos que, em nome da liberdade de egocêntricos, rejeitam a democracia

Os debates sobre as relações entre democracia e neoliberalismo não são recentes. Desde fins da década de 1970 e início da década de 1980, quando tal paradigma se tornou hegemônico nos países de capitalismo central, sobretudo com a ascensão dos governos Reagan e Tatcher, este tem sido um tema recorrente entre intelectuais de diferentes perspectivas teóricas. Por conta disso, hoje podemos falar objetivamente da existência de uma historiografia já consolidada sobre o neoliberalismo.

Obviamente, a existência de uma historiografia consolidada não significa que haja um fechamento do tema, ainda mais em se tratando de uma temática relacionada ao campo denominado História do Tempo Presente.

Ao mesmo tempo, o próprio neoliberalismo não sido uma constante ao longo de suas mais de quatro décadas de predominância. De Reagan a Trump, de Tatcher a Johnson, as formas que assumiu nos Estados Unidos e na Inglaterra foram diversas. O mesmo se pode dizer em relação aos países da periferia como o Brasil.

A forma mais recente que o neoliberalismo assumiu foi a das políticas antidemocráticas. Uma forma que não é propriamente nova, uma vez que o primeiro experimento das ideias propagadas pelos chamados Chicago Boys foi justamente a Ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Foi no encalço da repressão que se seguiu a desregulamentação da economia.

Ao mesmo tempo, se buscarmos as raízes do pensamento de Hayek, Friedman, Misses, entre outros, vemos que a democracia nunca foi um valor fundamental para os neoliberais. Nunca o foi, sobretudo, pelo fato de que a democracia é um valor coletivo que pressupõe a existência de uma sociedade disposta a pactuar relações a partir de princípios de justiça social. Para Hayek, assim como para Tatcher, sociedade é uma “expressão improvisada”, uma “ilusão fatal” utilizada pelos “guerreiros da justiça social” para atacar os pilares daquilo que considera “civilização”: a moralidade tradicional e os mercados competitivos.

Portanto, como bem lembra a cientista política Wendy Brown, se quisermos entender a ascensão da política antidemocrática no ocidente temos que buscá-la nas próprias concepções e “ruinas” do neoliberalismo. As concepções estão lá, em escritos que, direta ou indiretamente, propõem a destruição das coletividades do social através da destruição de qualquer garantia social por parte do Estado. As “ruinas” estão aqui, nos experimentos de destruição do social.

São esses experimentos que geraram a desresponsabilização pelo coletivo, a hiperindividualização dos seres competitivos, a ausência das subjetividades sociais, os fracassos dos “perdedores” de um jogo vendido como perfeito e, sobretudo, os ressentimentos daqueles que vem qualquer medida ancorada na ideia de justiça social como uma “ditadura do politicamente correta”.

São estes os sujeitos que, em nome de uma liberdade de indivíduos egocêntricos, não aceitam a democracia real, ou seja, a democracia como construção social, coletiva, plural, com múltiplas vozes e lutas por garantias de direitos.

Estes sujeitos não são aberrações! São os frutos das ruinas de um neoliberalismo que, para usar uma expressão de Álvaro García Linera, é cada vez mais um zumbi que não logra mais nenhum entusiasmo, mas tem sido eficaz em mobilizar ódios e ressentimentos. Paulo Guedes e Bolsonaro são criadores e criaturas destas ruinas. São vendilhões de ideias zumbis para zumbis que esquecem os custos da vida neoliberal para atacar a democracia. São almas gêmeas na construção da barbárie.       

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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Um Comentário

  1. Reagan, Trump, Tatcher e Johnson foram todos eleitos e transmitiram o cargo a seus sucessores. Isto não é democratico?
    Guerreiros da justiça social, expressão ianque, não passa de um conjunto de criaturas da classe média alta mimada e bunda mole. Nos EUA gente que cursou ciencias sociais, ‘estudos feministas’, etc. e não conseguiu emprego depois. Obviamente não existe trabalho para muita gente com esta ‘qualificação’. No Brasil alunos destas disciplinas e servidores publicos de classe media alta.
    Politicamente correto é mais uma tentativa da esquerda tentar controlar o idioma, acreditam que assim farão ‘grandes transformações sociais’. Tentam usar a cultura e a midia tradicional para dar a impressão de que são ‘maioria’, utilizar pressão ‘moral’ para impor o que é ‘aceitável’, ‘admissivel’ e o que não é.
    Egocentrismo, odios, ressentimentos, aberrações: desqualificações, apelos emocionais (não racionais), papo para piá de gremio estudantil de segundo grau. Gente adulta tem mais o que fazer.
    Idéias zumbis? Sim. Mas não são as unicas. Marx, Gramsci, Escola de Frankfurt, teorias ‘criticas’. Para quem não notou o Muro de Berlin caiu e o fluxo de pessoas foi de lá para cá.

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