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Balneabilidade imprópria, quase um banho de coco – por Marta Tochetto

A balneabilidade estabelece o nível de qualidade das águas assegurando as condições necessárias para a recreação.

Nas últimas semanas não apenas o termo balneabilidade tem ganhado destaque na mídia, mas o significado e as implicações da ausência da mesma para a saúde humana. Os noticiários têm trazido fortemente este tema, em especial relacionado às praias de Santa Catarina. Não apenas a falta de qualidade das águas preocupa, mas a epidemia de diarreia e vômito que acomete milhares de pessoas em diversas cidades catarinenses. O cenário tem assustado e afastado os turistas. Os problemas relacionados à balneabilidade não são exclusivos do estado vizinho. É um problema nacional.
A beleza das praias de Santa Catarina com águas límpidas e mornas é o atrativo para muitos turistas do mundo inteiro, em especial nessa época do ano. A natureza exuberante conduz a escolha para desfrutarem férias, em especial os argentinos. Gaúchos também acolhem preferencialmente esses roteiros, tendo em vista que nossas praias são de águas escuras e frias.

A balneabilidade estabelece o nível de qualidade das águas assegurando as condições necessárias para a recreação de contato primário, direto e prolongado (natação, mergulho, esqui aquático, surfe ou simplesmente, banho) considerando o toque com a pele e a possibilidade de ingestão de quantidades apreciáveis. A medida da balneabilidade se dá pela densidade de bactérias fecais (Echerichia coli, coliformes fecais e enterococos). Esses organismos estão presentes nas fezes humanas e de animais de sangue quente. Cá entre nós, literalmente, a condição de balneabilidade imprópria é um banho de coco.

Águas impróprias são aquelas que ultrapassam os níveis quantitativos estabelecidos pela Resolução CONAMA 274/2000. Essa legislação estabelece os limites a partir dos quais, por meio de testes de laboratório, os órgãos competentes alertam e sinalizam os locais em que há riscos da ocorrência de doenças para os frequentadores. Ainda conferem condição imprópria às águas, a presença de óleo e graxas; resíduos sólidos e líquidos, inclusive esgoto sanitário; outras substâncias capazes de oferecer risco à saúde ou tornar desagradável a recreação; alterações de pH (águas doces); floração de algas e outros organismos; incidência anormal ou elevada de doenças transmissíveis por via hídrica, além de outros fatores que levam ao desaconselhamento do exercício de recreação de contato direto, por parte das autoridades responsáveis.

A expansão urbana desordenada estimulada pela especulação imobiliária é um dos fatores fundamentais e importantes para a falta de condições das águas recreacionais. Ligações clandestinas da rede de esgoto à pluvial (rede de águas das chuvas) agravam o problema, em especial em estações de alta incidência de chuvas e/ou ocorrência de enxurradas. Estes fatores são visivelmente os principais para a situação verificada em Santa Catarina. O crescimento imobiliário para atrair mais e mais turistas avançou exponencialmente enquanto, a infraestrutura de tratamento de esgoto e a fiscalização das ligações clandestinas ficaram praticamente estagnadas, mesmo em locais de alto poder aquisitivo.

Há uma máxima entre os profissionais da área de engenharia, saúde e ambiental que o poder público se interessa em realizar obras que tenham visibilidade. Ampliação de rede de esgoto e de água tratada ninguém vê – ficam enterradas portanto, não são interessantes para fotos e redes sociais. A liberação de construções de prédios cada vez mais altos e de condomínios sem o cuidado ambiental necessário e exigido levam ao avanço sobre morros, dunas e faixa de areia, situação bastante comum em zonas litorâneas.

Balneário Camboriú é o exemplo mais emblemático dessa situação. A Dubai brasileira com arranha-céus cada vez mais altos, que não apenas cobrem o sol para os frequentadores e moradores, mas que avançam sobre a faixa de areia empurrando o mar com nítido objetivo de ampliar ocupação de um espaço que é da natureza e não do homem. Estão brincando de ser deus. Infelizmente, as consequências do crescimento sem o devido planejamento e insustentável tem trazido consequências cada vez mais desastrosas – enchentes, deslizamentos. Situação mais sentida para os mais pobres e moradores da periferia que, além das perdas materiais conquistadas com o sacrifício de uma vida, tem roubada sua dignidade acirrando a desigualdade social que é gritante no país e sobremaneira, em locais turísticos. Em meio ao luxo e à ostentação, o lixo e o coco invadem as praias igualando as condições impróprias para ricos e pobres.

Enquanto, as autoridades, não apenas de Santa Catarina, não compreenderem que obras de infraestrutura (esgotamento sanitário, drenagem pluvial, tratamento de água, recolhimento de resíduos, coleta seletiva, dentre outras) são fundamentais para a liberação de novos empreendimentos imobiliários e, apenas se seduzirem estimulando a geração momentânea de empregos e o recolhimento de impostos, vamos achar que é normal quando chove mais forte, praias, casas e ruas serem invadidas por resíduos, rejeitos e esgoto.

O preço desses eventos que, se tornam cada vez mais frequentes com o agravamento da crise climática, é pago pela própria sociedade, em especial pelos mais vulneráveis, que a cada ocorrência tem na responsabilização da fúria da natureza a desculpa para inoperância do poder público e para a ganância de certas empresas que desconsideram que sustentabilidade também é a manutenção das condições mínimas e dignas para toda a população viver, trabalhar, se divertir e conquistar seus objetivos, independente do poder aquisitivo. Mais do que nunca, os movimentos e coletivos populares voltados às questões socioambientais necessitam organizar a sociedade para que a invisibilidade dessa situação aflore e a correção passe a ser uma exigência de todos e de todas.

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

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Um Comentário

  1. Do côcô à crise climatica. Vamos combinar uma coisa, Amazonia (e outros biomas) têm que ser preservados porque têm valor proprio, independentemente de mudanças climaticas. Vamos combinar que do ano passado para cá a quantia de esgoto lançado in natura no litoral catarinense não deu um salto, logo existem outros fatores. Quem chegasse em Floripa trinta anos atras e fosse até Jurere Internacional descobriria que era a unica praia com estação de tratamento de esgoto. O padrão das residencias era diferente também. Alas, tempos depois estourou um escandalo de concessão de licença ambiental, construiram um shopping numa area de mangue. Se lembro bem na Madre Benvenuta, no caminho da UDESC. Só lembrando que aqui é Brasil e ficar citando legislação fingindo que as coisas funcionam (passatempo preferido do pessoal do juridico) é perda de tempo. Alas, aquecimento global preve aumento do nivel dos mares. Que não é igual em todo o planeta por motivos pelos quais não vale a pena se alongar. Se perguntarem as ‘otoridades’ do litoral catarinense qual o nivel e quais as medidas que estão sendo estudadas para remediar os problemas, qual será a resposta? A de sempre, a genérica?

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