Pecados interiores – por Bianca Zasso
O caos que toma conta das metrópoles mundo afora tem feito muitas pessoas trocarem os altos prédios e o trânsito caótico pela vida silenciosa e tranquila da cidades do interior. Mas será que essa paz que parece imperar nos municípios menores existe de verdade? Nem tudo são flores e vizinhos prestativos. A vida no interior pode até ser mais calma, mas também tem os seus segredos inconfessáveis. O que se esconde embaixo de cada tapete de casas aparentemente impecáveis pode ser assustador.
O escritor americano Henry Bellamann trouxe para a literatura um pouco desse lado podre, tendo como pano de fundo a sociedade americana e seu “American way of life” interiorano e aparentemente perfeito. O livro Kings Row tornou-se um sucesso de vendas e logo ganhou as telas dos cinemas pelas mãos do diretor Sam Wood.
Em cada coração um pecado, título poético que o filme recebeu aqui no Brasil, foi lançado em 1942 e causou alvoroço entre o público e a crítica por abordar os primórdios da psiquiatria sob o olhar de Parris, um jovem estudante de medicina que decide ter aulas particulares com um misterioso médico de sua cidade natal.
Não bastasse a rigidez do método de ensino usado por seu professor, o rapaz ainda precisa lidar com Cassie, seu amor de infância e filha de seu mestre. A garota quase não tem contato com o mundo e sofre de constantes alucinações. Com os primeiros escritos de Freud ganhando o mundo, Parris decide ir para Viena estudar a mente humana e seus problemas até então desconhecidos.
Já seria um tema e tanto, mas o filme ganha um sabor extra e agridoce com o personagem de Ronald Reagan, Drake, um boêmio amigo de Parris que divide seus dias entre passeios de charrete com belas garotas e festas bancadas com a mesada que recebe de uma tia. Tudo muda quando o dinheiro acaba e, junto com ele, a farra de Drake. A busca por um emprego resulta em um homem trabalhador com uma nova paixão, a batalhadora Randy, interpretada com charme e talento por Ann Sheridan. Novos sonhos, esperança e o ar puro do campo. Mas o caminho reserva pedras pesadas.
Além do drama contundente, Em cada coração um pecado é um retrato do que o poder pode fazer com as pessoas e como o interior e sua aparente tranquilidade pode ser o esconderijo perfeito para preconceitos, vinganças e crimes. O conhecimento é usado como arma para se conseguir o que quer, seja um cargo melhor ou uma boa reputação. Quem nunca ouvir a história do médico que é tido como o melhor partido da cidadezinha? Ele é tido como bom marido porque sabe de coisas que mais ninguém sabe. E faz o que bem entende com esse conhecimento. Para o bem e para o mal.
Aquela poeira que mancha nossa história e que muitos tentam esconder embaixo do tapete está em cada cena de Em cada coração um pecado. Não estamos diante de nenhuma obra inovadora em sua forma, mas para o início dos anos 40, era preciso muita coragem para colocar o dedo na ferida, seja ela pequena ou que toma conta de um território inteiro. Sam Wood criou um filme inteligente e tocante tendo nas mãos um conteúdo que tinha tudo para ser piegas, caso fosse dirigido por uma mente mais focada no choro que no cérebro do espectador.
Antes de qualquer lágrima, Em cada coração um pecado nos faz pensar em como ainda julgamos pelas aparências e que as cidadezinhas do interior passam longe de serem o tão sonhado paraíso.
Em cada coração um pecado (Kings Row)
Ano: 1942
Direção: Sam Wood
Bom dia fiquei contente em ver a sua análise sobre o romance de Henry Bellaman e o filme dirigido por Sam Wood.Entre o romance e o filme,há diferença,por exemplo,o filme não trata da ninfomania, homossexualismo,das relações incestuosas entre Dr. Tower e a sua filha Cassie…E outras diferenças.Por último o grande amor de Parris no romance é Randy Monaghan,com a qual teve a sua primeira relação sexual.Enfim,parabéns pelo comentário sobre o filme .Só a título de curiosidade esse filme exibido em no cine de teatro de Cuiabá em 1946.
Um grande abraço