João Brasil: o marido que não comparece – por Marcelo Arigony
‘...Onde antes havia ausência, agora há presença - concreta, tórrida e perigosa’

Ela acordou sozinha. / O travesseiro ao lado ainda morno – morno o bastante pra fingir presença, mas não pra enganar. / Na mesa, um bilhete amassado: Volto tarde. / Sempre tarde.
Ela faz o que pode. / Conserta, paga, cuida dos filhos também. / Se falta luz, acende vela. / Se falta dinheiro, dá seus pulos. / E ainda ajeita o retrato do casal pendurado na parede, insistindo em acreditar.
Ele não comparece. Mas vem todos os dias. / Bate a porta, diz que é o dono da casa e cobra. / Quer tudo em dia: casa limpa, comida pronta, fidelidade. / Alega que é o dono – mas quem segura o teto é ela. / O amor virou expediente, a rotina sobrevivência.
Nesse intervalo outro aparece. / De início, discreto – traz coisas quentes e olhos que escutam./ Entra pela casa, pelos silêncios, pelas frestas. / Aos poucos, vai tomando conta – /ocupando aqueles espaços dela onde o marido nunca compareceu. / E ali, onde antes havia ausência, / agora há presença – concreta, tórrida e perigosa. / Porque desejo e poder exalam o mesmo cheiro.
Do lado de fora, o mesmo cenário: / fiscaliza-se como a Suíça, entrega-se como república de improviso. / O que deveria proteger, cobra; / o que deveria amparar, pune. / Rigorosíssima fiscalização sanitária, ambiental e tributária sobre quem empreende, mas nada de amparo, nada de presença. / Um poder que cobra como europeu – / e aparece como marido burocrático.
Enquanto ele se ocupa de papéis, reuniões, / o mundo real se ajeita como pode. / Na Cidade Maravilhosa, o paralelo dita as regras. / Nas comunidades vulneráveis a máfia local já preencheu os espaços. / O crime organiza, cobra, protege, pune. / Uma ordem torta – mas presente.
E o ausente ainda acredita que manda./ Na parede, o retrato do casal continua ali, / amarelando entre decretos e promessas, / sem corpo, sem entrega, sem presença.
E quando, um dia, ele tenta entrar, / descobre que já não há lugar pra ele – / a porta trancada, o rastro quente, o perfume no ar. / O outro está lá dentro, de camisa aberta e pau de fogo na mão. / E João Brasil, o marido que não comparece, / percebeu tarde demais: a cama não o reconhece.
(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.





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