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Limerência: quando a obsessão veste a fantasia do amor – por Marcelo Arigony

“A rejeição deixa de ser apenas frustração e passa a ser vivida como ameaça”

Limerência.

Provavelmente você nunca ouviu essa palavra. Eu também não tinha ouvido ainda.

Pois é: conhecemos dezenas de palavras para punir; pouquíssimas para prevenir.

Na psicologia, limerência é o nome dado a um estado de paixão intensa em que a pessoa deixa de enxergar o outro como ele realmente é e passa a amar uma versão idealizada, criada pela própria imaginação. A necessidade de ser correspondido torna-se quase obsessiva. A rejeição deixa de ser apenas uma frustração e passa a ser vivida como uma ameaça.

Quando terminei de ler essa definição, pensei imediatamente nos feminicídios.

Porque talvez ajude a compreender um dos primeiros degraus de uma escada que, quando ninguém interrompe, pode terminar da pior forma possível.

Há anos insistimos em discutir o último capítulo da história.

Eu continuo achando que deveríamos discutir o primeiro.

Nossa resposta quase sempre começa depois da agressão, da medida protetiva, da prisão e, às vezes, depois do caixão.

Sempre tarde.

Passa da hora de olhar para o que acontece muito antes de qualquer boletim de ocorrência: a obsessão, o sentimento de posse, a incapacidade de aceitar um término, a necessidade de controlar e a falsa ideia de que o outro deixou de ser uma pessoa para se tornar uma propriedade.

E aqui talvez esteja outro equívoco.

Tratamos o problema como se tivesse apenas um personagem.

Não tem.

Há mulheres vítimas de violência brutal e homens que precisam ser responsabilizados com todo o rigor da lei. Mas também existem famílias inteiras adoecidas por humilhações, manipulações, agressões verbais e uma convivência destrutiva que alcança todos, inclusive os filhos.

Nada disso justifica um tapa.

Muito menos um feminicídio.

Mas ignorar esse ambiente é continuar enxugando o chão enquanto a torneira permanece aberta.

E há outra reflexão que me inquieta.

Será que estamos comunicando esses crimes da melhor maneira?

Não defendo esconder feminicídios. Eles precisam ser investigados, julgados e conhecidos pela sociedade.

Mas será que precisam ser transformados em espetáculo?

Há muitos anos aprendemos que suicídios devem ser noticiados com responsabilidade para reduzir possíveis efeitos de imitação. Por que nunca discutimos seriamente se determinados formatos de cobertura dos feminicídios também merecem essa reflexão?

Não tenho essa resposta.

Tenho apenas uma convicção.

Continuaremos criando novas leis, aumentando penas e multiplicando campanhas enquanto insistirmos em agir apenas no último ato da tragédia.

A palavra nova é limerência, mas o que talvez esteja faltando é prevenção.

Porque o feminicídio raramente começa com uma arma.

Na maioria das vezes, ele começa quando a obsessão ainda consegue passar despercebida porque alguém resolveu chamá-la de amor.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil. Ele escreve no site às quartas-feiras.

https://marcelo.arigonyadvocacia.com

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Um Comentário

  1. Resumo da opera. RS tem 5,6 milhões de mulheres como habitantes. Teve algo como 40 feminicidios. O indice de feminicidios por 100 mil habitantes é 0,9 na Alemanha. Na França é 0,8. No RS é 0,77. E um problema importante? Sem duvida. E o mais importante? Duvido muito. Mas é um pais livre, podem promover (e se promover) o assunto o quanto quiser. Quem não gostar ‘troca de canal’.

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