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UFSM. Viva bem a idade que tem: evento promove espaço de diálogo acerca do envelhecimento ativo

Programação promoveu oficinas de estimulação cognitiva, arte e socialização

A oficina de pintura em pano de prato despertou a criatividade das idosas. A maioria desenhou flores, jardins e corações

Por Isadora Bortolotto (Com foto de Gabriele Mendes) / Da Agência de Notícias da UFSM

O auditório térreo do Colégio Politécnico da UFSM recebeu, na terça-feira (16), o evento “Viva bem a idade que tem”, promovido pelo projeto de ensino do Departamento de Terapia Ocupacional. A iniciativa reuniu idosos de diferentes grupos de convivência de Santa Maria para uma tarde de palestras e oficinas práticas voltadas à promoção do envelhecimento ativo e da saúde cognitiva.

O evento é organizado pela turma de Gerontologia I do curso de Terapia Ocupacional, em parceria com a disciplina de Práticas Extensionistas em Gerontologia. Com mais de uma década de história, ele acontece anualmente em locais diferentes da cidade. A coordenadora do projeto, professora Kayla Palma, do Departamento de Terapia Ocupacional e do Programa de Apoio à Idosos e seus Cuidadores (PACTO), conta que a proposta é que os alunos vivenciem o contato intergeracional antes mesmo de se formarem. “Com esse aumento da população idosa presente em todos os lugares, a gente vê a necessidade de fazer com que o pela animação das participantes esses alunos entendam a dimensão e a complexidade que é o processo de envelhecer”, explicou.

“45% dos casos de demência estão associados a fatores que podemos modificar”

A programação começou com palestras de duas terapeutas ocupacionais. A docente do Colégio Politécnico da UFSM e mestre em Gerontologia Biomédica Andreisi Carbone Anversa falou sobre saúde cognitiva e demência. Ela explicou que a cognição envolve habilidades como memória, raciocínio, atenção, planejamento e tomada de decisões, capacidades consideradas fundamentais para resolver desde tarefas simples do cotidiano até situações mais complexas.

Segundo Andreisi, embora o envelhecimento provoque mudanças naturais no funcionamento do cérebro, grande parte dos casos de demência pode ser evitada. Ela apresentou dados de um estudo internacional que aponta que 45% dos casos de demência no mundo estão associados a 14 fatores de risco modificáveis. No Brasil, esse percentual chega a quase 60%. “A genética é um dos fatores que interferem, mas o principal são os nossos hábitos de vida. Isso significa que existe uma parcela importante dos casos que nós podemos prevenir. Quando pensamos em prevenção, estamos falando de escolhas feitas ao longo de toda a vida”, afirmou.

Entre os fatores de risco, segundo a profissional, estão baixa escolaridade, depressão, sedentarismo, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, isolamento social, colesterol elevado e perdas auditiva e visual não tratadas.

A aposentadoria como recomeço

A terapeuta ocupacional e mestre em Gerontologia Priscila de Oliveira Reis abordou os impactos da aposentadoria e a necessidade de planejamento para essa nova etapa da vida. Segundo ela, o trabalho organiza grande parte da vida adulta e, por isso, deixar a rotina profissional exige uma reorganização emocional, social e até familiar. “A aposentadoria envolve três tipos de luto: a perda do status social, a crise de identidade e a transformação dos vínculos construídos no trabalho. A gente passa a maior parte da vida adulta trabalhando. Então, quando chega esse momento, muitas pessoas se perguntam: ‘Quem eu sou agora? Quais são os meus valores?’”, explicou.

Priscila destacou que esse processo não precisa ser encarado como um encerramento, mas como uma transição. Hoje, a expectativa de vida após a aposentadoria gira em torno de 30 anos. São muitos anos para viver apenas dentro de casa. Existe um mundo de possibilidades: voltar a estudar, participar de grupos, aprender algo novo, fazer trabalho voluntário ou simplesmente retomar sonhos que ficaram para trás”, afirmou.

Música, memórias e um olhar sobre a velhice

A tarde também teve música. O professor aposentado da UFSM João Francisco Silva Dias, o professor Juca, de 78 anos, foi a atração especial do evento. O convite surgiu depois de uma palestra que ele ministrou para estudantes de Terapia Ocupacional. “Quando contei um pouco da minha história, surgiu o convite para trazer a banda. Aceitei na hora. Tem gente aqui que foi minha aluna quando eu tinha 32 anos. É emocionante reencontrar essas pessoas e perceber o quanto os vínculos permanecem”, contou.

Juca lembrou ainda dos amigos que vivem hoje no Lar das Vovozinhas e falou sobre a importância de manter a autonomia durante o envelhecimento. “O que a terapia ocupacional e a fisioterapia fazem hoje é algo que eu sempre defendi: ajudar as pessoas a preservar a autonomia física e mental pelo maior tempo possível. Porque não adianta lutar apenas por longevidade. É preciso viver mais, mas viver com qualidade”, destacou.

O professor criou a tradicional banda “Old bikers”, da qual ele é vocalista, quatro anos antes de se aposentar, justamente para preparar a nova fase da vida. “Eu já estava me preparando. A aposentadoria não precisava ser um fim. Então comecei outro projeto. E continuo até hoje. Você não pode depender só da medicina. Precisa fazer a sua parte, se ajudar. Não existe uma velhice, existem velhices. Cada pessoa envelhece de uma forma. Mas uma coisa é certa: o ser humano não nasceu para ficar sozinho”.

Segundo ele, é preciso criar e manter vínculos, de convivência e de motivos para continuar vivendo com entusiasmo. “Hoje ainda temos muita gente vivendo uma velhice precoce. Pessoas com 50 anos, sem trabalho, mal alimentadas, sem atividade física. Por isso, discutir envelhecimento é falar de saúde, mas também de dignidade e de qualidade de vida para todos”, alertou.

Oficinas que estimulam a criatividade

Depois das palestras, as oficinas abordaram a memória com jogos e desafios cognitivos, ritmo e memória afetiva com música, coordenação motora, raciocínio lógico e estratégia, além de conversas e histórias para estimular linguagem e vínculos sociais.

Entre as atividades, a de arte chamou atenção. Com panos de prato em mãos e pincéis coloridos, as idosas pintaram ao som de cantoras clássicas da música popular brasileira, como Rita Lee, Elis Regina, e cantavam enquanto criavam. A atividade integra a oficina “Arte, criatividade e expressão”, que explora cognição e emoções por meio da criação artística.

Os participantes vieram de grupos como o SESC Maturidade Ativa, o Eterno Aprendiz (da Uningá), o Mestre Coração, o Cognito e o Corpo Mais, além do Lar das Vovozinhas e do Pianetas – duas instituições de longa permanência que trouxeram dez idosos cada. Para garantir novas conexões nas oficinas, os participantes foram distribuídos em grupos por cores, independentemente de qual grupo de convivência vieram.

“Sempre quis envelhecer assim”

Na plateia, Aracy Freitas Becker, de 79 anos, veio pelo grupo do SESC e resumiu bem o espírito do evento. Natural de São Borja, mora há oito anos em Santa Maria e frequenta grupos de convivência desde então. Costureira desde os 15 anos, ela ri quando fala das suas habilidades e se orgulha de tudo que construiu, mesmo depois de envelhecer. Avó e bisavó, Aracy cuida da família, faz fisioterapia e não para de aprender coisas novas. “Só não faço chover porque não aprendi a música”. “Eu sempre pedi para envelhecer assim. Estou tão bem, me sinto cada vez mais jovem”, finaliza.

O evento “Viva bem a idade que tem” integra o Programa PACTO (Programa de Apoio à Idosos e seus Cuidadores da Terapia Ocupacional) e o projeto Cognito, ambos vinculados ao Departamento de Terapia Ocupacional da UFSM.

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