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Educação Especial e o fantasma da suposta deficiência – por Demetrio Cherobini

Uma racionalização bizarra que camufla a responsabilidade da sociedade

É bastante comum professores não conseguirem ensinar, com o mesmo grau de homogeneidade, todo o grupo de alunos de uma mesma classe regular. Via de regra, uns estudantes aprendem mais, outros menos. Os docentes, então, se põem a buscar explicações para a relativa lentidão na aprendizagem de alguns. A resposta mais frequente a que chegam é a da “suposta deficiência” inerente aos estudantes.

A criação de suposições bizarras sobre a condição mental das crianças ocorre diariamente na escola. Tal atitude, feita com base na crença ultrapassada de que a humanidade se divide em “normais” e “não-normais”, induz a muitos preconceitos.

Os adultos, então, comentam: “o aluno Fulano não pode ser normal, ele tem que ter alguma coisa…”, mas com base em quais critérios? O que seria essa “normalidade”por meio da qual se julga e avalia a “falta de normalidade” do outro? É o comportamento geral? O desempenho médio? As escolhas da maioria?

Com base em opiniões não refletidas sobre uma imaginada e absoluta “normalidade”, as pessoas lançam os maiores disparates sobre o que pensam ser o “não-normal”, o “deficiente”, o “louco” etc. A vítima desse estigma, na escola, é o estudante que demora a aprender.

Ora, são inúmeros os fatores que incidem sobre a aprendizagem: psicológicos, sociais, culturais, econômicos, políticos, familiares e orgânicos. Todos podem ser responsáveis pela relativa lentidão na progressão escolar. As próprias condições subjetivas e de trabalho do professor incidem sobre os resultados atingidos pelos alunos.

Mas o senso comum se move sempre no sentido de negar a multiplicidade de determinantes e focar no que lhe é mais fácil e aparente. Daí, para alguém ventilar a hipótese da suposta deficiência basta um sopro. Raramente a ideologia dominante ensaia um voo analítico para além dessas coordenadas simplórias.

Por que isso ocorre? Penso que, na escola, a fonte imediata e não conscientizada dessa prática de diagnosticação vulgar está no cansaço, sobrecarga e estresse dos professores, que anseiam por uma tábua de salvação para lidar com o mal-estar advindo do não aprendizado dos seus alunos. Essa tábua é o laudo médico, que isenta os adultos de responsabilidade e faz com que esta recaia sobre o organismo do ser em crescimento.

É desse conflito que surge a insistência, quando não uma verdadeira “forçação de barra”, para se levar o aluno Fulano ao psiquiatra, a fim de se descobrir sua suposta deficiência. O motivo expresso parece razoável: é o de que assim ele poderá ir atrás dos devidos serviços capazes de suprir suas necessidades. Com o laudo, no entanto, o que comumente ocorre é apenas dispor-se de uma justificativa “científica” (será?) para que Fulano possa ser “passado” de ano sem dominar qualquer conteúdo escolar.

É esse o resultado frequente do ciclo perverso da diagnosticação, que se move entre o senso comum das instituições de ensino, a ingenuidade das famílias e a acriticidade conveniente da psiquiatria – infelizmente, a própria educação especial participa desse jogo quando cultiva a crença medonha na centralidade do diagnóstico.

Que ninguém se iluda, portanto. Nas condições materiais atuais, o efeito prático do laudo médico costuma ser este: permitir que Fulano chegue ao fim do ciclo escolar sem saber ler, escrever, interpretar, contar, somar, diminuir, multiplicar e dividir, sem ter noções básicas e claras de ciência, de arte, de história, de filosofia, de qualquer criação cultural mais requintada e elaborada. A suposta deficiência é uma das racionalizações bizarras usadas para camuflar a responsabilidade coletiva – isto é, da sociedade como um todo – pelo fracasso generalizado na educação.

(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel e Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSM e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.

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3 Comentários

  1. Nos Colégios Militares (e cursos militares em geral) e instituições privadas de ensino existe todo um aparato para cuidar dos ‘desgarrados’. Seção Tecnica de Ensino, Seção de Apoio Pedagógico, Seção de Apoio Pedagógico. Existem orientações de como fazer avaliações. Se um(a) aluno(a) não alcança os objetivos (nem sempre é nota, existem outras filosofias, ensino baseado em competencias por exemplo) é feita uma investigação para ver o que não esta funcionando e são feitas correções. Inclusive com aulas de reforço, individuais ou grupos reduzidos. É necessario mais pessoal e dá trabalho. Resumo da opera: dificuldade em determinados assuntos é caracteristica e não defeito; problema esta muito longe de ser novo e existem palhativos e/ou soluções. O resto é desculpa.

  2. Sistema de ensino esta ultrapassado. A linha de montagem fordiana na qual entram 20 crianças no primeiro ano e muitos anos depois saem advogados e medicos. Esta produção ‘em lote’. Inteligencia artificial promete mudar o cenario.

  3. Problema é sistematico. Docente explica a primeira vez um assunto. 10% entendem. Na media com a segunda explicação 80% captam a mensagem (nesta hora os que entenderam de primeira já estão distraidos). Faltam 10%. Uns correm atras, conversam com os colegas e recuperam depois, outros ‘deixam para lá’. Docente geralmente não tem como fazer algo por eles, tem assuntos a abordar numa carga horaria fechada.

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