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O último close – por Bianca Zasso

No último domingo, durante a cerimônia de entrega do Oscar 2012, um filme preto e branco e mudo foi consagrado como o melhor da última temporada. O Artista, dirigido por Michel Hazanavicius., levou para casa cinco estatuetas, incluindo melhor diretor. No seu discurso de agradecimento, Hazanavicius encheu de elogios a esposa e protagonista do filme, Bérénice Bejo, e saudou três vezes o nome do diretor Billy Wilder, um dos grandes nomes da direção da história do cinema. Num Oscar que se rendeu aos primórdios do cinema e a suas grandes figuras, nada melhor do que dar o pontapé inicial neste espaço falando de um clássico que ultrapassa as fronteiras do tempo.

Em 1950, ano em que Billy Wilder realizou Crepúsculo dos Deuses, matar um personagem no grand finale era uma estratégia utilizada por muitos roteiristas para dar impacto à trama. Mas Wilder nunca foi um cara comum e o filme começa com um cadáver boiando numa piscina e uma voz que anuncia que aquele corpo inerte pertence a ela. Nosso Machado de Assis já havia dado voz a um defunto no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas nos campos do cinema isso era novidade. Mas, prepare-se: este é apenas o começo de um filme cheio de momentos inesquecíveis.

O cadáver-narrador, Joe Gillis, interpretado por William Holden, é um aspirante a roteirista que se vê envolvido com a excêntrica Norma Desmond, uma atriz que vê sua carreira entrar em decadência com a chegada do cinema sonoro. Obcecada por voltar aos seus tempos de fama, Norma contrata Joe para revisar o roteiro de Salomé, filme que ela quer produzir para marcar seu retorno às telas.  Empolgado com a possibilidade de encher os bolsos com a fortuna de Norma, Joe passa a morar em sua mansão e torna-se seu amante.

Um dos pontos altos de Crepúsculo dos Deuses é o elenco. Além de Holden e Gloria Swanson, uma das grandes damas do cinema mudo, o filme conta com participações muito especiais de Erich Von Stroheim, diretor e ator de origem austríaca, o homem dos épicos Cecil B. DeMille e Buster Keaton, um dos maiores gênios da comédia.  Todos unidos em cenas ambientadas numa velha mansão de gosto duvidoso, permeadas por diálogos que mostram as agruras dos artistas do cinema mudo com a chegada do som. Seria ficção ou um retrato da realidade da época? Wilder conduz a trama, que é, acima de tudo, um ótimo suspense, com  muita segurança e bom humor.  Os chiliques de Norma Desmond, as armações de Joe Gillis e todo o clima da Hollywood dos anos 50 são apresentados com uma elegância única.

Billy Wilder integrou uma geração de diretores que deixaram a Europa durante o período de guerras para tentar a sorte em Hollywood. Junto com Otto Preminguer, Alfred Hitchcock e F.W. Murnau, entre outros, Wilder imprimiu em Hollywood um estilo que entraria para a história, com filmes que equilibravam o apelo popular com roteiros bem elaborados e inteligentes. Indicado a onze Oscars, Crepúsculo dos Deuses levou três prêmios e conquistou o público com sua trama onde os protagonistas são atores. Isso foi no início dos anos 50. Em 2012, a história parece se repetir. A história de O Artista talvez não consiga resistir ao tempo. Mas Billy Wilder tornou-se eterno, até o último close.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard)

Ano: 1950

Direção: Billy Wilder

Disponível em DVD

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