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Polícia e ladrão – por Luciano Ribas

Diferentemente das mulheres, nós, homens, costumamos brincar durante a vida toda. Talvez isso seja sinal de que não amadurecemos completamente nunca, talvez seja uma saudável manifestação de ludicidade, talvez não signifique nada. De qualquer forma, parece ser um fato real.

Claro, este “brincar” não precisa ser literal e pode se manifestar de maneiras correlatas, como o hábito de colecionar objetos especiais ou mesmo pequenas quinquilharias, nos jogos (eletrônicos ou não) que apreciamos ou no gosto por futebol ou pescarias, para citar apenas algumas atividades. Eu, por exemplo, coleciono livros, revistas, quadrinhos, bonecos de personagens, séries em DVD e blu-ray, memorabília de viagens e lugares, rolhas de vinho e garrafas “diferentes”, entre outras coisas.

Já meu tio Paulo Thomas, professor em São Pedro do Sul, sempre gostou de brincar conosco de polícia e ladrão. Aliás, nem sempre era exatamente “polícia e ladrão”, pois o que importava mesmo era dividir os primos em dois times e passar a tarde simulando tiroteios em volta da casa da Vó Dite, lá em Itaara.

Era um festival de “pá-pá-pás” entre polêmicas infindáveis, envolvendo diferentes opiniões sobre se os tiros fictícios haviam “acertado” ou não em alguma parte “letal” (os critérios para determinar isso eram, no mínimo, peculiares). “Matei”, “não matou nada”, “acertou só na perna”, eram as frases mais ouvidas naqueles verões que me provocam saudades infinitas. E o Paulo sempre junto, disputando de igual pra igual com todos nós, entrando no espírito como só uma pessoa especial sabe fazer. Grande tio Paulo…

Giro rápido, busco memórias mais recentes e menos agradáveis.

Há alguns dias, fui trocar uma lâmpada do meu carro numa conhecida auto-elétrica da cidade. Enquanto observava o procedimento, comecei a ouvir uma sirene e, em seguida, juntamente com todas as outras pessoas que estavam no estabelecimento naquele sábado pela manhã, pude observar a entrada ‘triunfal” de uma camioneta da guarda municipal novinha em folha. Dentro dela, duas pessoas bem conhecidas, das quais me reservo o direito de omitir os nomes – uma, porque mantenho uma relação de amizade, a outra porque tem a relevância de um inseto.

Sem usar os cintos de segurança, às gargalhadas, sirenes e luzes acionadas, entraram em regozijo e com grande espalhafato na oficina, só modificando um pouco a expressão quando me viram. Como, repito, sou amigo de um deles, me vi obrigado a comentar sobre o risco de alguém lhes fotografasse naquelas condições. Sou leal, mesmo com quem tem posições políticas bem diferentes das minhas.

Não fui a única testemunha, nem quero aqui dar proporções maiores do que o fato teve. Acho errado, porém, e o considero como manifestação de uma sensação de “tudo poder” que por vezes toma conta de membros de algumas administrações.

Também achou errado aquilo tudo o funcionário que trocava a lâmpada. Falando baixinho, talvez por receio de retaliações dos “poderosos” de plantão, ele comentou comigo: “que vergonha, brincando de polícia com o nosso dinheiro”.

Brincadeira sem graça, diga-se de passagem, muito diferente daquelas de polícia e ladrão que o tio Paulinho liderava há quase trinta anos. Brincadeira perigosa, também, porque brincar de polícia com meios “de verdade” pode resultar até mesmo em tragédias – e isso é ainda mais verdade quando as coisas são feitas às pressas para os dividendos possam ser aproveitados “a tempo”.

E, claro, sempre pode ter alguém vendo…

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2 Comentários

  1. Lembrei do grande Moreira da Silva “Eu atirei, ele atirou, e nós trocamos tanto tiro que até hoje ninguém sabe quem morreu … eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu!” … saberemos em Outubro.

  2. “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. (Lord Acton)
    Em notórios tempos de “fritura” do PT, principalmente no RS, é bom que muitos saibam que nem tudo são flores no coração do Rio grande.

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