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Um crime, três filmes – por Bianca Zasso

Muitas são as lendas que cercam os heróis do velho oeste. Outros tantos são os filmes que nos apresentam aventuras inspiradas em nomes como Doc Holliday e Wyatt Earp. Mas nenhum fora-da-lei foi tão comentado e retratado no cinema como Jesse James. Entre os filmes B que se valem apenas de seu nome de impacto para chamar público e encher a tela com tiroteios até tramas bem elaboradas e com clima bucólico, a morte de Jesse James talvez seja a mais cinematográfica que o oeste americano já viu. Ou, pelo menos, diz que viu.

A lenda afirma que Jesse James foi assassinado pelas costas, enquanto arrumava um quadro na parede, com um tiro disparado por seu suposto amigo Robert Ford. O acontecido foi rápido, não tendo durado mais que alguns minutos. Mas a sétima arte sabe como ninguém temperar um fato e acentuar o seu sabor por mais algum tempo. Como as produções são muitas e o tempo é curto, vou citar três filmes que são ótimas pedidas para quem quer conhecer alguns ângulos da vida de um dos homens mais temidos de todos os tempos.

O primeiro deles é a produção para a TV Os últimos dias de Frank e Jesse James, dirigido por William A. Graham. Seria apenas mais um filme sobre os roubos praticados por Jesse e sua trupe antes de seu assassinato. Porém, o diferencial está no elenco e também no tom despretensioso da trama. Na pele dos irmãos Frank e Jesse estão o “homem de preto” Johnny Cash e o ator-cantor-compositor Kris Kristoferson, ambos em atuações bem dosadas.

Mesmo com seu rosto inconfundível, Cash convence como o irmão com aspirações literárias de Jesse James, que cita Shakeaspeare entre um tiro e outro. Já Kristoferson dá um ar sedutor ao seu personagem, um Jesse que divide sua vida entre roubos e galanteios para com a mulher alheia. Além dos protagonistas de peso, Os últimos dias de Frank e Jesse James conta ainda com a participação especial do grande Willie Nelson, no papel de um general que depõe a favor da Frank no tribunal. Sua aparição na tela dura pouco mais de vinte minutos, mas prende a atenção do espectador.

No filme, é dado destaque para o fato de Robert Ford se valer de sua fama de “assassino de Jesse James” protagonizando peças de teatro que reproduziam a famosa cena da morte do fora-da-lei. As apresentações lotavam pequenos teatros e casas de shows, afinal, o mundo queria saber o que aconteceu “de verdade”.

A segunda produção é mais atual e traz uma aura mais melancólica. O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, tem Brad Pitt como protagonista e também produtor do filme, função essa que ele divide com o diretor Ridley Scott. Pitt dá vida a um Jesse melancólico, que demonstra fúria apenas quando precisa apertar o gatilho. Uma imagem bem diferente das primeiras que o cinema criou do fora-da-lei, onde a destreza e a rapidez causavam até vertigem.

No filme dirigido por Andrew Dominik, James é um homem cercado de uma paisagem bucólica e parece incorporar esse espírito em sua personalidade. A atuação de Pitt passa longe dos maneirismos que alguns jovens atores costumam se valer na hora de participarem de um faroeste, como a cara de mau ou o andar característico de quem usa botas e cinturões recheados de balas.  O ator está tranqüilo, confortável na pele de um dos nomes mais conhecidos da América.  Até sua beleza, que poderia incomodar ou se sobressair ao personagem, não causa estranhamento, já que as fotos do verdadeiro Jesse James mostram que aparência física não era um de seus fortes.

Brad Pitt levou o prêmio do Festival de Veneza por sua atuação, mas não há como negar a presença de Casey Affleck. No papel de Robert Ford, o ator encarna um homem invejoso, amargurado e que parece ter saído de órbita quando recebe a missão de acabar com o bandido mais procurado da sua época. A imagem dúbia de Jesse James incomoda e encanta Robert Ford, já que ele é temido e também admirado. Affleck criou um Robert Ford único e que, não fosse o charme e o poder do nome de seu opositor, seria a figura central do filme.

Outro olhar sobre a história de Jesse James é Cavalgada dos Proscritos, dirigido por Walter Hill, do clássico Ruas de Fogo. O foco da trama do longa é o bando encabeçado por Jesse, que aterrorizou o oeste americano com seus roubos e fugas. Composta por irmãos que não gostavam nada da lei, o filme incorporou a fraternidade como palavra de ordem e encheu seu elenco de atores que carregam o mesmo sangue nas veias.

Nos papéis de Jesse e Frank James, estão James e Stacy Keach. Já os irmãos Yongers, que comandavam o bando ao lado de James, ganharam vida pelos atores que carregam um sobrenome de peso: David, Keith e Robert Carradine tem carreiras distintas, mas sabem a importância do pai John Carradine para o western, já que o ator era um dos preferidos do diretor John Ford e esteve presente em uma dezenas de filmes que ajudaram a definir o gênero.

Ainda no elenco estão Dennis e Randy Quaid e Christopher e Nicholas Guest, completando a trupe. Lançado em 1980, ano em que filmes de faroestes não eram um bom investimento para os estúdios de cinema, Cavalgada dos Proscritos não foi um sucesso, mas se faz presente quando o assunto são bons westerns, já que é uma das visões mais abrangentes do bando que acompanhou Jesse James durante sua trajetória e ajudou a gravar seu nome na história dos Estados Unidos.

Aqui no Brasil, Cavalgada dos Proscritos foi exibido na TV à cabo sob o título de Cavalgada Infernal (título esse também utilizado no país para batizar um western spaghetti protagonizado por Lee Van Cleef) e chegou ao mercado dos DVDs como Uma longa jornada, algo mais próximo do título original, The Long Riders. Apesar de não ter arrebatado multidões, o filme rendeu a Walter Hill a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Um prêmio mais que merecido para um dos nomes mais talentosos dos anos 80.

O retrato de Jesse James por meio do cinema não para por aqui. Há outros milhares de filmes que se valeram da fama de mau do rapaz  para preencher a tela grande. O galã Tyrone Power, o eterno caubói bondoso Roy Rogers, o rei dos westerns B Audie Murphy e até o filho do homem, Jesse James Jr., ajudaram a dar um rosto para Jesse James no cinema. O que é verdade e o que é mentira em todas estas produções é o que menos importa. Em O homem que matou o facínora, o mestre John Ford já fazia apologia à publicação da lenda, caso esta fosse mais interessante que a realidade.

Os últimos dias de Frank e Jesse James (The last days of Frank and Jesse James)

Ano: 1986

Direção: William A. Graham

O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (The assassination of Jesse James by the coward Roberto Ford)

Ano: 2009

Direção: Andrew Dominik

Cavalgada dos Proscritos (The long riders)

Ano: 1980

Direção: Walter Hill

Disponíveis em DVD

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