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Ensino como armadura para a vida – por Liliana de Oliveira

Acabo de ler no caderno do jornal Folha de São Paulo que garotos de escolas públicas da periferia de São Paulo atualmente fazem ranking chamado de Top 10.  As listas que circulam na internet não se referem ao desempenho escolar. Para figurar na lista, a garota precisa ser eleita uma das mais vadias. Assim, os garotos fazem uma lista das dez mais vadias da escola.

Poderia ser apenas um exemplo isolado, na periferia de uma grande cidade. Mas todos nós que trabalhamos com educação sabemos que a educação sexual vinda da escola e de dentro de casa tem falhado. Crianças e jovens parecem saber pouco sobre sexo, menos ainda sobre igualdade de gênero e preconceito.

Fico pensando naquilo que fazemos como educadores. Fico pensando no fracasso de uma educação que não nos sensibiliza para aquilo que é fundamental, que é a compreensão e a aceitação do outro e de tudo aquilo que é diferente de nós. Fico pensando na responsabilidade que temos como educadores de seriamente nos propormos a discutir e refletir sobre a sexualidade humana dentro das instituições. Pais e professores, ao ignorar essas questões, estão criando adultos preconceituosos, machistas e mal informados.

Quando pensamos na escola, geralmente pensamos no ofício do professor que nada mais é do que apresentar uma tradição, ensinar uma doutrina, transmitir conhecimentos. Entretanto, não penso aqui no professor, mas no educador ou mestre. Estou pensando naquele que faz do seu discurso, seu modo de vida. Penso juntamente com o filósofo Michel Foucault numa educação que se consuma no próprio pensamento do mundo, e na própria forma de vida. Penso numa educação que prepara para a vida, prepara para a luta. Penso numa educação que arma nossos jovens para a vida, para que possam enfrentar os acontecimentos.

Ensinar sobre igualdade de gênero parece ser atualmente nosso maior compromisso enquanto mestres na medida em que o ensino aqui aparece como uma armadura para a vida. Armadura que permite pensar em infinitas possibilidades de se constituir, de viver e de ser. Ser aquilo que verdadeiramente queremos ser e, assim, constituirmos uma vida de verdade. “Mas essa relação com a verdade de si mesmo, daquilo que somos capazes e do fluxo das representações deve se acompanhar de outra, que é uma relação de vigilância com respeito aos outros” (Foucault. A coragem da verdade. 2011, p.275).

Verdade do sujeito que implica uma relação ética com o outro. Estou pensando seriamente em abandonar os cânones da Filosofia e começar a me implicar cada vez mais com uma educação de resistência a tudo aquilo que impede o outro de ser aquilo que ele verdadeiramente é.

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3 Comentários

  1. Olá, Brando!
    Resumiste bem o debate entre Foucault e Chomsky!De fato, Foucault muitas vezes foi incompreendido o que não significa dizer que tenha sido desqualificado. Foucault gostaria de pensar novas formas de viver, ser, se constituir para além das generalidades e universalismos. Felizmente a vida é muito menos previsível e muito mais interessante do que uma tese acadêmica.
    Forte abraço!

  2. Foucault dizia que o humanismo era uma invenção recente, referindo-se ao iluminismo. Algo a ver com a "normalização" da sociedade e consequente prejuízo à "emancipação". Criticava os "universalismos", a razão seria contingenciada pelo contexto histórico.
    Chomsky prega que o ser humano já nasce com a estrutura da linguagem "gravada" no cérebro e, num debate com Foucault, teria afirmado que o conceito de justiça poderia ter a mesma origem. Foucault rejeitou a possibilidade e negou veementemente a existência de uma moral universal.
    Resultado do debate: Chomsky saiu chocado. Disse que Foucault era gente boa, mas parecia ser de uma espécie totalmente diferente: era completamente amoral.
    Não é uma desqualificação do Foucault, simplesmente lembrando que os cânones da filosofia atendem todos os gostos in "terra brasilis". Problema? O mundo não é uma tese acadêmica. O mapa não é o terreno.

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