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Quem quer ser professor? – por Giorgio Forgiarini

“Desinteresse dos jovens, envelhecimento da categoria e abandono precoce”

Recentemente a Câmara dos Deputados aprovou Proposta de Emenda Constitucional (PEC n. 169/2019) que possibilita a professores acumularem seus cargos de magistério com outros de qualquer natureza na Administração Pública. A mudança foi celebrada por parlamentares da direita e da esquerda, de Hugo Motta (REP) a Lindbergh Farias (PT), e contou com apoio velado do Ministro da Educação Camilo Santana. “Olhem como somos bonzinhos, estamos permitindo vocês trabalharem em outros lugares”, disseram em outras palavras.

Porém, a ideia não foi saudada pelos profissionais da educação, destinatários da medida e a razão para isso é óbvia: Deixou ainda mais patente a visão já institucionalizada de que ser professor é ser subempregado e de que, de fato, não existe nenhuma intenção política de se reverter esse quadro. Para eles, o magistério nada mais é do que um “bico”, uma atividade complementar meramente destinada a servir de incremento na renda.

Também recentemente Tarcísio de Freitas iniciou um programa de “Avaliação de Desempenho Diagnóstica”, para avaliar os professores do Estado de São Paulo. A avaliação, segundo a própria resolução que a institui, poderá ser utilizada até mesmo para remover o professor da escola em que lotado ou afastá-lo de algum programa em que esteja inserido.

O problema é que o protagonismo dessa avaliação foi atribuído aos próprios alunos e, convenhamos, não é preciso ser muito inteligente para saber que alunos tendem a nutrir antipatia por professores que lhe sejam severos ou rígidos. Uma avaliação nestes moldes obviamente seria temerária e convidaria os professores à prevaricação. “Ora, por que vou fazer um trabalho sério e correr o risco de me incomodar com isso?”, pensará qualquer ser racional nessa posição. A Secretaria de Educação de São Paulo sabe disso, mas levou a avaliação a diante mesmo assim.

Ainda em São Paulo 12 policiais militares armados entraram em uma escola para averiguar a “denúncia” de que uma professora estaria ministrando aulas sobre cultura afro-brasileira para os alunos. Lá permaneceram 20 longos minutos e nesse tempo rasgaram todos os desenhos feitos pelas crianças sobre a temática que estavam afixados num mural. Sinceramente, não consigo nem imaginar o constrangimento e o pânico sentido por esses professores.

Aqui em Santa Maria a Prefeitura se recusa a pagar o piso do magistério. Pior do que isso, condiciona a implementação desse piso à aprovação da reforma da previdência pela Câmara de Vereadores. O nome disso, todos sabemos, é chantagem.

Essa reforma da previdência, aliás, traz em seu bojo a extinção de um dos poucos benefícios que ainda remanescem aos professores: A aposentadoria especial. Caso aprovada, professores e professoras terão de trabalhar por 40 anos para ter direito a aposentadoria com proventos de 100% sobre a média de suas remunerações mensais, exatamente como acontecerá com os demais servidores e servidoras.

O resultado disso é previsível: Desinteresse dos mais jovens, envelhecimento da categoria e abandono precoce da carreira. O apagão de professores está aí. Só não vê quem acha que educação se faz com apostila colorida comprada de empresa paranaense. Não é assim que funciona. Precisa de professores. Mas afinal, quem quer ser professor?

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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9 Comentários

  1. Resumo da opera. Padrão vermelho. Serviço publico não serve para atender as necessidade do publico, serve para resolver o problema dos servidores (como os politicos em geral). Vermelhos apoiam porque votam neles. Educação no Brasil esta muito longe de ser uma das ‘melhores do mundo’. Vai continuar assim, as coisas sempre foram assim, nada mais ‘conservador’ que servidor publico. Total zero, problema que se soluciona sozinho.

  2. ‘O apagão de professores está aí.’ Sim e não. Curva demografica fará com que menos docentes sejam necessarios. Tecnologia não vai ficar parada, até em SM que é um cafundó do Judas um dia a inteligência artificial chega.

  3. ‘O nome disso, todos sabemos, é chantagem.’ Tipico dos vermelhos, quando não conseguem impor suas politicas negociação vira ‘chantagem’. Previdencia municipal já dá sinais de estar quebrada. Se implantarem o piso sem a reforma mais quebrada fica. E se implantarem o piso com reforma significa que daqui outro tempo será necessario outra reforma. Simples assim. Não tem mimimi na matematica.

  4. ‘Ainda em São Paulo 12 policiais militares armados entraram em uma escola para averiguar a “denúncia” de que uma professora estaria ministrando aulas sobre cultura afro-brasileira para os alunos.’ Para verificar este tipo de situação é que existe as instituições. Puna-se que deva ser punido. Só que não era ‘aula sobre cultura afro-brasileira’ simplesmente. Fato ocorreu na Escola Municipal de Educação Infantil Antônio Bento. Crianças pequenas. Era uma ‘atividade pedagógica’, não ‘aula’. Que consistia em desenhar orixás. O que pode ser interpretado como ensino religioso. Ou seja, se uma criança for de familia evangelica é obvio que pode dar m.

  5. ‘Uma avaliação nestes moldes obviamente seria temerária e convidaria os professores à prevaricação.’ Os resultados aparecerão no Provão Paulista, no Enem, no Saeb.

  6. ‘[…] não é preciso ser muito inteligente para saber que alunos tendem a nutrir antipatia por professores que lhe sejam severos ou rígidos.’ Avaliação aborda metodologia, dinamica em sala de aula, etc. Teoricamente na media os extremos tendem a se cancelar.

  7. ‘O problema é que o protagonismo dessa avaliação foi atribuído aos próprios alunos e, […]’ Duas por ano, uma para informar e possibilitar correções e outra final . Diretores e equipe de gestão serão avaliados também. Diretores avaliam professores e equipe de gestão. Professores avaliam equipe de gestão e direção. Lembra a avaliação 360 graus da iniciativa privada. Lembrando que o corpo discente já é avaliado.

  8. ‘Porém, a ideia não foi saudada pelos profissionais da educação, destinatários da medida […]’. Obvio que não. Destinatarios são servidores publicos que também desejam lecionar. ‘é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos exceto […] a de dois cargos de professor […] a de um cargo de professor com outro técnico ou científico; […]’. Fux e Barroso ministros do STF e professores da UERJ. Sergio Moro professor da UFPR, de onde saiu e foi para a Unicuritiba. Atividade principal deles era magistratura ou magisterio?

  9. ‘[…] possibilita a professores acumularem seus cargos de magistério com outros de qualquer natureza na Administração Pública.’ Acumulação hoje é restrita a cargos tecnico-cientificos.

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