Pela estrada afora – por Bianca Zasso
A solidão pode ser o destino mais triste para alguns. Mas e quando a salvação está na solidão? Não na solidão da madrugada, onde levantamos sozinhos e curtimos os poucos ruídos da noite ou no fim de semana de casa vazia. Estou falando da solidão extrema, do isolamento, de fugir de tudo. O que parece o fim para muitos pode ser um belo começo.
Em tempos como o que vive nossa cidade, ainda abalada pela tragédia ocorrida na boate Kiss, é comum que multidões ganhem as ruas com o intuito de fazer da união uma forma de consolo. Parece que quanto mais gente, maior será a força para seguir em frente. Porém, a opção de muitos familiares das vítimas foi o silêncio e a reclusão. Isso porque o silêncio é como um quadro negro onde se podem apagar todas as letras e começar uma nova frase com um simples movimento. Na vida, este processo é um pouco mais demorado.
Wim Wenders é um dos mais poéticos diretores do chamado Novo Cinema Alemão, movimento que, a partir da década de 60, trouxe novo fôlego para as telas europeias. Um de seus filmes mais conhecidos e premiados trata justamente do poder que a solidão pode ter em nossas vidas. Paris, Texas foi lançado em 1984 e conta a trajetória de Travis (uma sublime interpretação de Harry Dean Stanton), um homem que resolve abandonar tudo depois que sua mulher sai de casa sem deixar vestígios. Hunter, o filho do casal, fica aos cuidados do irmão de Travis, que resolve pegar o carro e descobrir onde está o pai do menino. Quando finalmente o encontra, Travis aceita voltar para casa e iniciar um processo de aproximação que vai além da família. Ele quer ficar próximo de si mesmo, do pai e do marido que um dia foi.
É o ponto de partida para que o público desfrute de alguma das melhores sequências já feitas para o cinema. Uma, em especial, merece destaque: numa de suas muitas reações estranhas, Travis acompanha o filho ir para a escola de longe, do outro lado da calçada. Hunter parece temeroso, já que não entende porque seu próprio pai precisa espioná-lo como se fosse um desconhecido. Mas Travis sabe que mesmo que esteja a alguns metros do filho, nunca esteve tão próximo do garoto.
É uma cena importante não só por seu apelo estético e emocional, mas por ser o momento que apresenta ao público o verdadeiro interesse de Travis. Mais do que simplesmente reconstruir sua família, ele quer conhecê-la outra vez, redescobrir o que um dia ele soube de cor. Decisão essa que ele só conseguiu tomar depois de um longo tempo sozinho, vagando por paisagens desérticas. O homem precisa ficar só para estar com todo mundo.
Travis não se torna um novo homem ao longo de sua jornada em busca da restruturação familiar. Continua o mesmo Travis de sempre, porém, observa suas atitudes de uma forma diferente. Relembrar os momentos felizes com a mulher e o filho não faz com que ele os ame mais ou menos, mas os ame de uma nova forma. Wim Wenders, ao invés de bancar o educador (coisa que muitos cineastas acham que devem fazer) e mostrar um personagem que muda completamente seus hábitos em nome da família, prefere algo mais próximo da realidade e foge do final ao estilo comercial de margarina.
Por mais que um reencontro proporcione belos sorrisos e uma boa dose de esperança, o cinema de Wenders é vida de verdade. Há espaço para a alegria e o recomeço, mas nada operístico ou definitivo. Travis sabe que nada é para sempre e que um novo rompimento pode acontecer e protagoniza um dos finais mais instigantes da carreira de Wenders. Muita gente não aceita o desfecho por não saber lidar com a eterna sina de estar sempre juntando pedaços, recomeçando, trocando de lugar. Nossas vidas não terão apenas um tropeço e uma guinada triunfal.
No livro “O cinema pensa – Uma introdução à filosofia através dos filmes”, o filósofo e professor Julio Cabrera usa o Paris, Texas para explicar algumas teorias do filósofo alemão Hegel. Segundo ele “a aridez e a imensidão do deserto, onde os irmãos se encontram, acentuam precisamente esse nada inaugural que pede aos gritos um novo começo.”.
Talvez a gente precise de Hegel para recomeçar. Ou talvez de umas horas ou dias sozinhos. O importante é não se contentar com a felicidade momentânea e saber que é nas pequenas tristezas que a gente cresce de verdade.
Paris, Texas
Direção: Wim Wenders
Ano: 1984
Disponível em DVD e Blu-Ray





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