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O RELATO. Uma tarde no Vêneto, por Atílio Alencar

Por ATÍLIO ALENCAR (texto e fotos), Especial para o Site

Todos os anos, repito o ritual de percorrer a estradinha sinuosa que leva de Silveira Martins até o Vale Vêneto, distrito bucólico do município de São João do Polêsine. Faço isso pelo prazer libertador da caminhada e pela certeza da satisfação que nos aguarda no Vêneto: poucas experiências são tão agradáveis quanto sentar no Bar da Dona Romilda, depois da travessia entre vales e montes, para comer a famosa torrada colonial acompanhada de um cálice de vinho, feito também ali, na colônia. Se tem algo do qual não se deve duvidar é do talento dos descendentes italianos quando se trata de comer e beber bem.

Uma vez por ano, quando acontece em Vale Vêneto o Festival de Inverno e a Semana Cultural Italiana, o panorama do pequeno povoado é alterado de modo significativo – são milhares de turistas que chegam dos mais diversos lugares, em busca dos atrativos culturais e gastronômicos promovidos pelos dois eventos conjugados.

A música, carro-chefe do Festival de Inverno, ajuda a criar uma atmosfera quase onírica no vale. Nas janelas das casas, na igreja, nos pátios das escolas, nas mesas do bar – em todos os cantos, em cada esquina, vibram as notas que desenham a paisagem sonora do Vêneto.

E haja apetite para tanta fartura sobre a mesa. Os banquetes de queijos, salames, massas e pães são compartilhados em grandes mesas coletivas, em rituais que remetem ao gosto ancestral dos migrantes, tão calejados em seu êxodo, por festejar a vida com a comilança que os maus tempos não permitiam. Temos a impressão que comer se torna, então, um rito propiciatório, uma espécie de orgia sagrada: comer com prazer e gratidão, para que a terra nunca deixe de ser fértil e generosa com as lavouras e vinhedos.

Mas divago, provavelmente sob o efeito do vinho rústico da colônia.

Eu daria uma dica, talvez modesta e até previsível, tanto para quem vai ao Vale Vêneto durante o Festival de Inverno, quanto para quem prefere desfrutar da calmaria de um dia comum no povoado: não deixe de subir o Calvário, a colina que, apesar do suplício sugerido pelo nome, não tem uma subida tão penosa que não se possa vencer. Lá do alto, a vista é larga e a brisa traz as conversas de longe, dando a impressão de que somos observadores apartados do mundo, da vida que segue seu rumo em ritmo lento naquele vilarejo à deriva no mar dos tempos. Basta disposição para uma boa caminhada e –  para quem aprecia – o estímulo de um cálice de vinho para dar vigor às pernas e distração ao pensamento.

Mais do que um passeio, um exercício do olhar. Talvez seja isso, afinal, o mais atraente destas experiências: pôr-se a olhar, e também ouvir, o que a vida nos diz nas linhas e entrelinhas de cada paisagem.

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