CIDADANIA. Royale Escola de Dança e Integração Social: mais que só um lugar em que se “faz ballet”

CIDADANIA. Royale Escola de Dança e Integração Social: mais que só um lugar em que se “faz ballet”

Por PAOLA SALDANHA (com fotos de Divulgação e de Ronald Mendes – espetáculo) Especial para o Site

Promover o desenvolvimento corporal, intelectual. Integrar. Aliar o ensino de ballet com ações sociais. Essa é a Royale Escola de Dança e Integração Social. O projeto, que completou 20 anos em 2018, atua na cidade por meio da formação nesta modalidade de dança erudita.  Conforme Daniela Nascimento, uma das fundadoras da Royale, a organização não governamental desenvolve ações complementares de escola. As atividades são oferecidas em turnos inversos aos estudos e, necessariamente, todas as pessoas atendidas devem estar matriculadas e frequentando as instituições de ensino. “O que chama a atenção é o ensino do ballet, mas a gente aproveita esse momento em que elas estão aqui para aplicar outras ações”, explica Daniela.

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O ensino de dança na escola Royale é oferecido a crianças a partir dos seis anos, em sua boa parte, estudantes da rede municipal

Entre as ações estão às oficinas de Dança Cidadã, Artes Plásticas e Língua Francesa. Daniela conta que quando foi oferecida a possibilidade de educação em língua estrangeira, os alunos da época optaram pelo Francês, já que a nomenclatura do ballet é neste idioma. Além das oficinas, há apoio pedagógico e serviço psicológico individual e coletivo, as turmas e as famílias.

Todas as atividades desenvolvidas ao longo do ano partem do tema escolhido para o espetáculo apresentado por toda a escola, ao final de ano. As temáticas são escolhidas pelos próprios alunos e trabalhadas nas oficinas, para a composição da peça.

De acordo com Daniela, o número máximo de matriculados na Royale é de 200 pessoas, em função da capacidade do espaço físico onde a organização está instalada. Neste ano, 180 crianças compõem o projeto. Deste número, apenas dois são meninos. “O preconceito é muito grande”, lamenta. Para ingresso no projeto, nas turmas de iniciação, os interessados devem ter de seis a doze anos. Para que se mantenham vinculados à organização, é feito o acompanhamento das notas e da frequência de cada um. “Se for detectado que a criança está com algum problema na escola, é oferecido reforço”, esclarece Daniela.

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Após a formação de nove anos na Royale, as jovens podem seguir vinculadas a escola. E sim, existem casos em que isso acontece

Instalada desde 2015 na Rua 13 de Maio, o local passou por algumas alterações, para atender às demandas do ensino de dança, como a adaptação de uma das salas a fim de acomodar as aulas de ballet. O espaço é residencial e alugado e Daniela informa que uma das principais dificuldades é manter a organização em funcionamento com este investimento. A administradora ainda frisa que o projeto se provê de editais, Leis de Incentivo a Cultura (LIC) e sócios, que “contribuem mensalmente para a Royale, mas o número ainda é pequeno”.  Daniela relembra, ainda, que há alguns anos havia mais incentivo governamental, com a criação de mais editais e programas. Atualmente, a escola tem projetos ligados ao Ministério da Cultura e tenta aprovação de projetos para captação de recursos por meio da LIC municipal.

Com foco no atendimento a crianças e jovens em estado de vulnerabilidade social, a Royale atua como “projeto preventivo”, destaca Daniela. Há duas décadas, ela ministrava aulas de ballet e foi convidada a lecionar dança para algumas meninas em uma escola do bairro Camobi. Mesmo após enfrentar algumas dificuldades de acesso e de estrutura, já que o local onde atendia as alunas da região Leste não fornecia as condições necessárias para as aulas, Daniela percebeu que as meninas desempenhavam bem as danças.

“Elas foram tão bem, que eu decidi levá-las para dançar com a minha escola no final do ano. Foi tão bonito e no palco tu não conseguias ver a diferença da menina que era de Camobi e a que era do centro. No palco a gente não vê a diferença. Decidi apresentar um projeto na prefeitura e abrir 20 vagas paras as intuições da cidade” relembra. Das duas dezenas de vagas oferecidas, 60 pessoas buscaram pelas aulas. Neste momento, Daniela decidiu que iniciaria um projeto social.

Desde então, a Royale trabalha na formação de ballet em Santa Maria. Após o ingresso, o/a estudante permanece por nove anos na escola, no processo de educação da dança, e no último ano desenvolve coreografias, ministra aulas para outras turmas e realiza estágios. “E depois elas podem permanecer o tempo que quiserem aqui na escola”, salienta Daniela.

E este é o caso de Naylana da Rosa Ferreira, 20 anos, que integra o projeto há 11 anos.  Conforme a aluna, a Royale surgiu em sua vida quando ela ainda estudava na E.M.E.F. Oscar Grau e sua mãe “estava a procura de um lugar mais barato para a realização do meu sonho e das minhas duas irmãs mais velhas, pois na época ela não tinha como pagar”. A escola informou a mãe de Naylana, então, que um projeto chamado Royale havia passado na instituição e deixado seus contatos.

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O projeto realiza sempre apresentações de final de ano com temática escolhida e desenvolvida pelas alunas. Na foto, o espetáculo de 2017

Hoje em dia, Naylana é acadêmica do sexto semestre do curso de Dança Bacharelado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde participa também de projetos, compõe o Coletivo Negressência e ministra aulas em uma escola e em um núcleo de ballet da Royale, localizado no bairro Tancredo Neves.  “A Royale representa muito para mim. Na Royale tenho uma família que está sempre disposta a me incentivar a ir além dos meus sonhos. Ela está muito além de somente uma escola de ballet. Foi dançando na Royale que tive certeza que queria fazer faculdade de dança. Por isso sou extremamente grata”, diz Naylana.

Marline Ilha da Silva, 30 anos, também relembra com gratidão os 10 anos em que participou do projeto, entre 2000 e 2010. Quando ainda estudava na sexta série da E.M.E.F Irmão Quintino, Marline conheceu a Royale por meio da diretora da escola, que distribuiu bilhetes de divulgação a classe. “Sempre vi a Royale como uma segunda família. O acompanhamento que foi feito durante todo meu desenvolvimento contribuiu muito para ser quem eu sou hoje, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. A professora Dani sempre foi como uma mãe pra mim. Fazer parte da Royale me ajudou a ir bem na escola, a ter força para sempre correr atrás dos meus objetivos. Só tenho a agradecer por todo carinho que recebi e tudo que aprendi”, relata a doutoranda em Matemática Aplicada, que vive, atualmente, em Porto Alegre, mas mantém seu vínculo com a dança.

Daniela ressalta que a escola sempre buscou trabalhar com o empoderamento feminino e com a conscientização “de que elas podem ter uma vida diferente do que elas imaginam poder ter”.  A professora e administradora da Royale lembra que quando iniciou o projeto ouviu críticas preconceituosas, como a “de que pessoas mais pobres não podiam ter acesso a cultura mais erudita, porque não iriam entender. Isso não é verdade”.

E assim, há 20 anos, a Royale quebra com os tabus e marca a vida de quem passa pela organização. “É muito importante para a vida das crianças e da gente que trabalha aqui. É muito gratificante. Tu vês o crescimento de cada uma. Essa mudança na vida delas, das famílias”, valoriza Daniela.

A Royale atende de segunda a sexta-feira, em dois turnos, das 9h às 11h, e das 14h30 às 20h. Nos dias 23, 24 e 25 de novembro toda a escola apresenta o espetáculo especial de final de ano. A exibição ocorre no Theatro Treze de Maio.

CONFIRA UM VÍDEO SOBRE OS20 ANOS DA ROYALE: AQUI



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