MULHER. Dona Julia Kubitschek é bem mais, pode acreditar, que a mãe de um Presidente da República

MULHER. Dona Julia Kubitschek é bem mais, pode acreditar, que a mãe de um Presidente da República

Dona Julia

Por LEONARDO DA ROCHA BOTEGA (*)

MULHER. Dona Julia Kubitschek é bem mais, pode acreditar, que a mãe de um Presidente da República - leonardoMuitas vezes uma mãe sacrifica suas alegrias e sonhos pessoais para realizá-los nos momentos alegre de seus filhos.  A história de Dona Julia é um exemplo disso. Nascida em Diamantina, Minas Gerais, no ano de 1873, era a terceira filha do casal Augusto Elias Kubitschek e Maria Joaquina Coelho Kubitschek, neta de Jan Nepomucký Kubitschek, um marceneiro tcheco que chegou ao Brasil em 1831. Era, conforme o filho, “a discrição em pessoa, escrava do dever, adversária das festas e folguedos” frequentava “tão somente a igreja e as casa dos parentes próximos”.

Nomeada professora em 1895, para a surpresa da sociedade diamantinense casou, em 17 de dezembro de 1898, com João César de Oliveira, conhecido como o “rei da noite e das serenatas”. Tiveram três filhos: Eufrosina, nascida em 1900 e morta meses depois; Maria da Conceição, a Naná, de 1901; e Juscelino, o Nonô, de 1902.

Diferentemente de muitas mulheres casadas do início do século XX, Dona Julia nunca abriu mão de manter a sua profissão. Nem mesmo as dificuldades de deslocamento até a escola primária onde atuava, situada alguns quilômetros longe da cidade, e a razoável situação econômica do marido “caixeiro-viajante” serviam de justificativas para afastá-la da docência. Uma atitude que seria importante para aquilo que o futuro lhe reservava. Em 10 de janeiro de 1905, após algum tempo de isolamento, tendo breves contados com os filhos apenas aos domingos, João César veio a falecer, vitimado pela tuberculose.

Viúva e com dois filhos pequenos, Dona Julia teve que redobrar o trabalho. Disposta a criar os filhos “custasse o que custasse”, levantava da cama antes do sol nascer, acendia o fogo, preparava o café, fazia o almoço e caminhava, todos os dias, nove quilômetros até a escola. Apesar do esforço diário, a situação de pobreza era tão latente que o filho somente pode calçar pela primeira vez um sapato aos 12 anos. A dureza da vida serviu para endurecer ainda mais a já reservada professora e mãe, que todas as noites em casa absorvia os dois papéis ensinando o filho Juscelino à necessidade de ter os primeiros contatos com as letras e os números. Era a forma pragmática que a vida lhe reservou para demonstrar afeto. Para Dona Julia carinho era garantir aos filhos um futuro melhor, uma vida digna.

Mesmo assim, Dona Julia, nunca deixou de realizar os sonhos de seus filhos, seja somando suas parcas economias com o dinheiro ganho de presente pelo filho na véspera de Natal de forma a que ele pudesse comprar o Gigante (seu tão sonhado carneiro de estimação) ou reduzindo a qualidade das refeições para pagar os 40 mil-réis por mês para que ele pudesse seguir os estudos ginasiais no Seminário de Diamantina. Dona Julia, assim como boa parte das mães solitárias do Brasil, sabia que a vida era muito difícil para um jovem pobre, porém sem estudo ela seria mais difícil ainda. Uma forma de ver o mundo que foi muito bem aprendida pelo filho, que de brilhante aluno ginasial virou médico, que de médico virou prefeito, depois governador e presidente do Brasil.

Juscelino Kubitschek de Oliveira, o filho de Dona Julia, um dos poucos presidentes de origem humilde que um dos países mais desiguais do mundo já teve, nunca deixou de reverenciar sua mãe. Nunca deixou de homenageá-la e beijá-la em público, até mesmo quando aquela senhora sóbria achava que o filho estava louco como na inauguração de Brasília.

Dona Júlia Kubitschek morreu em 1º de maio de 1971, aos 98 anos, olhando televisão e segurando na mão do filho que, entre a gratidão por tudo que a mãe fizera e o sentimento de injustiça diante das perseguições que sofria por parte da Ditadura Civil-Militar, chorou por mais de uma hora aos pés da cama. No velório, Juscelino pôs um ramo de sempre viva, flor nativa do velho Tijuco (como era chamada inicialmente Diamantina) sobre o peito daquela mãe que, apesar das intempéries da vida, havia realizado seus sonhos nos momentos alegres de seus filhos.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site aos domingos, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a foto (de Dona Júlia e Juscelino) que ilustra este artigo é uma reprodução da internet.



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