CRÔNICA. Gilvan Ribeiro e “AmarElo”. Ou como um rapper e sua música conseguem calar fundo na alma

CRÔNICA. Gilvan Ribeiro e “AmarElo”. Ou como um rapper e sua música conseguem calar fundo na alma

CRÔNICA. Gilvan Ribeiro e “AmarElo”. Ou como um rapper e sua música conseguem calar fundo na alma - gilvan-crônica“Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”

Por GILVAN RIBEIRO (*)

Há exatamente um século antes de eu nascer, Nietzsche já havia dito que sem música a vida seria simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio.

Foi justamente para me tirar do cansaço e do exílio de uma manhã cinzenta de sexta-feira, que uma amiga me presenteou com uma música incrível. Um presente imaterial chamado AmarElo, lançado no último mês pelo músico (rapper) Emicida, em parceria com Felipe Vassão e DJ Duh. A canção é uma mistura de rimas do rapper com um ‘’sample’’ de Belchior, nas vozes das talentosas Majur e Pablo Vittar.

Não é de hoje que conheço Emicida. Nós nos conhecemos, bem na verdade, num voo de Porto Alegre para São Paulo no ano de 2008. Na época, muito infelizmente, o meu repertório musical era (bem) menos abrangente do que hoje e quando aquele rapaz magrelo, com pinta de artista sentou ao meu lado no avião, demorei a identificar quem era. Na minha mente eu guardava uma lembrança visual sobre ele, porém, de suas músicas eu ainda pouco sabia. Uma grande pena, diante do privilégio que me foi concebido naquele traslado à grande metrópole.

O tempo passou e por sorte eu fui aprendendo mais sobre (boa) música. Alguns anos depois daquele encontro passei a escutar e me encantar pelo som de Emicida. Mais do que isso, passei a me identificar com a mensagem do Rap e a perceber que este é um movimento marginalizado, porém muito necessário, assim como tudo que é construído em termos de arte e cultura nas periferias.

AmarElo é um pontapé na porta. É um posicionamento político/cultural e, portanto, algo vital para os dias atuais no Brasil.

Nos dois primeiros minutos da música, a letra expõe o desabafo real de um amigo de Emicida que sofria de depressão, e chegou a pensar em suicídio. Ainda neste trecho, o clipe da canção é coberto por imagens muito marcantes, que refletem sobre questões de adoecimento psíquico e saúde mental. Para além disso, existe uma sacada semiótica – não descobri ainda se foi intencional, mas é muito óbvia para não ser – que dá referência ao Setembro Amarelo, conhecido como o mês de prevenção ao suicídio.

Após este relato, surge a inconfundível voz do eterno Belchior tecendo um trecho de Sujeito de Sorte, música composta por ele mesmo em 1976. “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, começa a dar sentido a proposta de Emicida para apresentar outros personagens do clipe, que foi gravado no complexo do Alemão, conjunto de favelas do Rio de Janeiro.

Amarelo não é apenas uma mistura de vozes e artistas, mas também – e principalmente – a união de forças contra o racismo, a segregação social e pelas causas LGBT+.

Ainda sobre o clipe, somos apresentados a pessoas reais, ou seja, atores sociais que mostraram força e coragem para transcender às limitações impostas pela vida e transformar suas realidades.

Por coincidência ou não, Emicida me ajuda a responder uma angústia pessoal que têm me acompanhado há muito tempo. Busco entender como é possível produzir empoderamento social nas periferias, sem cairmos num discurso meritocrático que, como sabemos, é motor de mais desigualdade.

Este questionamento me persegue justamente porque enxergo no Esporte uma grande oportunidade promover autoestima social. Porém, entendo que é uma violência com as pessoas sair discursando sobre fórmulas do sucesso e ‘’exemplos de superação’’. O necessário, realmente, eu sei. Precisamos dar oportunidades reais para que as pessoas possam se desenvolver no seu meio. Porém, ao trabalhar com Projeto Social há mais de dez anos, aprendi que oportunidades são necessárias, mas existe outro ponto a ser atacado. Algo que aprendi empiricamente mesmo e chamo baixa autoestima social.

Neste sentido que Emicida me mostrou algum caminho possível a seguir. Os atores sociais do seu clipe são pessoas da Comunidade, que de alguma forma transgrediram ao destino imposto pelo Social. O cadeirante que virou atleta olímpico, as bailarinas de chinelo de dedo e o jovem negro, de escola pública, que se graduou na universidade.

Precisamos dar oportunidades para as pessoas, mas para além disso é preciso ajudá-las a resgatar sua ‘’potência de agir’’. Mais uma vez ressalto que o discurso de “você também consegue”, sem dar chances reais às pessoas, é mesmo uma lógica da meritocracia, que só causa mais desigualdade. Mas precisamos fazer algo ao mesmo tempo em que tentamos igualar as oportunidades, e acredito que esse algo seja justamente devolver às pessoas o direito de sonhar e transformar sua subjetividade. Temos uma linha tênue aqui entre meritocracia e empoderamento social. Precisamos agir, mas precisamos refletir para que nossas ações tenham efeito e não apenas intenção.

Ao final de AmarElo, Emicida lança a rima “Aê, maloqueiro, aê, maloqueira, levanta essa cabeça, enxuga essas lágrimas, respira fundo e volta a correr / Cê vai sair dessa prisão, vai correr atrás desse diploma, faz isso por nós”, e eu me permito complementar dizendo “faz essa por você, mano”.

(*) GILVAN RIBEIRO, 30 anos, é atleta olímpico e apaixonado pelo jornalismo (cursa o 8º semestre, na UFN) e pela Psicologia (está no 1º semestre, na UFSM). Ele escreve no site sempre aos sábados.  

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da Internet,do clipe AmarElo.



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