CRÔNICA. Uma terrível injustiça. Orlando Fonseca e aquele programa de humor vetado por “inverossímel”

CRÔNICA. Uma terrível injustiça. Orlando Fonseca e aquele programa de humor vetado por “inverossímel”

CRÔNICA. Uma terrível injustiça. Orlando Fonseca e aquele programa de humor vetado por “inverossímel” - orlando-1Zorra Federal           

Por ORLANDO FONSECA (*)

A equipe de redatores de uma grande rede de TV brasileira reuniu-se por dois meses para compor a personagem principal de um novo programa de humor. Após uma série de discussões sobre modelos de programa, críticas contra o velho humor, os humoristas decidiram-se pela proposta que passaram a chamar de o Novo Humor. Uma vez elaboradas as coordenadas, montaram um piloto para apresentar à diretoria de programação da TV.

O programa se consistiria em esquetes que enfocariam a conjuntura, com a apresentação de uma personagem principal: o Mito. Ele já começaria o programa eleito Manda-Chuva de uma República Bananeira da América do Sul.

O mais votado, com a faixa atravessada no peito, cabelinho lambido e um bigodinho, teria faltado aos debates eleitorais, por ter sido proibido de soltar palavrões. Seu perfil não deixaria dúvidas: homofóbico, misógino, racista, xenófobo – exceção feita aos americanos, a quem considera superiores, quer dizer, tirando a população de imigrantes sul-americanos.

Apresentaria visões políticas de extrema-direita, com repetidas investidas raivosas contra a esquerdalha. Sua nebulosa origem military o faria negar a ditadura existente em tempos idos naquele país, além do mais, consideraria a tortura uma prática legítima – elegendo como herói um sujeito a quem chamaria Brilhante. Adepto do nepotismo.

Seu guru sobre política, sobre o mundo e a respeito de tudo, seria um astrólogo travestido de filósofo. Vem daí uma série de propostas de governo que tenta colocar em prática na marra:

– liberar o porte e o uso de arma, inclusive as pesadas; – retirar os pardais e os radares móveis de todas as estradas; – mudar a embaixada de Israel para Jerusalém; – colocar os filhos e os primos nas principais embaixadas pelo mundo; – bater continência para a bandeira americana e lamber os sapatos de Trump; – mudar os livros de história para dizer que a verdade é que não houve ditadura militar em 64; – recusar o dinheiro da Noruega e da Alemanha para o Fundo de proteção à maior floresta tropical do planeta; – vender bijuterias de nióbio para aumentar o PIB; – acabar com o horário de verão.

Suas declarações seriam bombásticas, como estratégia de desvio dos problemas principais. Gerando outros, claro: “se o cara da OAB quiser saber como o progenitor desapareceu, eu conto pra ele”. “Passar fome, não, mentira! Você não vê gente pobre pelas ruas com o físico esquelético, como tem no Brasil, por exemplo”. “Pretendo beneficiar meu filho sim. Pra ele só filé mignon, ou hamburguer americano”. “Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Sem essa de dinheiro público pra filme de putaria.” “Questão ambiental só importa aos veganos que comem só vegetais.” “Este não pode ser o país do mundo gay. Temos famílias”. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. “O que é golden shower?”

Proporia ainda fazer mudanças no IBGE, para não haver mais dados falsos de pesquisa: “não vai mais haver pesquisa, pronto, e de lambuja acabamos com o INPE também”. Também proporia tipificar invasão de terra como terrorismo, acabar com as ONGs de Direitos Humanos e também com os Direitos Humanos.

Depois de assistir ao programa piloto, o diretor se levanta, visivelmente irado.

– Vocês estão loucos? Vocês piraram? Quem é que vai aceitar este tipo de personagem? Essa figura é completamente inverossímil, vocês pesaram a mão, exageraram em tudo. Isso não vai dar audiência.

Um dos membros da equipe até tentou negociar, sugerindo um programa com uma grande figura política na cadeia, cujos correligionários e simpatizantes insistem que ele não cometeu ilícitos. No que foi interrompido pelo diretor: ah, até que daria maior IBOPE, mas isso a TV Justiça já passou como uma paródia.

Não deu outra. A equipe foi demitida imediatamente.

(*) ORLANDO FONSECA é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO: A foto que ilustra esta crônica é reprodução do site GSshow, no portal Globo.Com, das Organizações Globo. O endereço original da foto, creditada a Rodrigo Sant’Anna (arquivo pessoal) é este: https://gshow.globo.com/programas/zorra/noticia/fernando-caruso-e-leo-castro-comentam-bolsonaro-teste-de-elenco.ghtml



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