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ARTIGO. Michael Almeida Di Giacomo, a letargia dos democratas e o flerte atual do país com o totalitarismo

A erosão da incipiente democracia brasileira

Por MICHAEL ALMEIDA DI GIACOMO (*)

A cultura política instrumental do brasileiro apresenta uma relação direta com o fato de que não somos afeitos à vida democrática. A premissa é fácil de ser confirmada se observarmos que, em mais de quinhentos anos de história, alternamos períodos de absolutismo, ditaduras e de uma república oligárquica.

A consequência é que o brasileiro ainda mantém seu gosto e apreço por políticos populistas, o que é muito lesivo para regimes democráticos. O culto à personalidade embriaga a lucidez humana e resulta na ascensão ao poder de líderes com status de semideuses. Estamos sempre à procura de um salvador e não de um estadista.

Isso explica muito o paradoxo atual em que o cidadão, pela via eleitoral, dá poderes a um político de extrema-direita para comandar o país, que, ao mesmo tempo, por meio de um discurso nacionalista, usa as próprias instituições democráticas para depreciar o regime o qual se valeu para ser eleito.

O resultado é que aos poucos perdemos nossa capacidade de indignação frente a situações que restam por nos enfraquecer, por nos tornar objeto pertencentes a um sistema desumanizador. As posições políticas extremistas promovem um colapso social que enfraquece o regime democrático e nos colocam em uma redoma não só política e social, mas também cultural.

Na verdade, o flerte com o totalitarismo é tênue ao nosso olhar. Assim, quando as instituições de ensino são atacadas, não nos indignamos. O artista contestador é censurado, não protestamos. Nossos direitos são tirados, não reclamamos.

Uma vez que há presente letargia popular, basta encontrar um discurso para justificar a redoma. O atual é nos salvar do comunismo, do marxismo cultural. Mesmo que aqueles que o propaguem nunca tenham lido Karl Marx. O que importa é disseminar o medo e, assim, sob os braços do salvador, afastar o perigo.

Enquanto brincamos de guerra fria, conselhos populares são dissolvidos, dados estatísticos sobre a real situação do país não são considerados, os jornalistas são desacreditados e até desrespeitados, o desemprego torna-se estrutural e o governante segue divertindo seu eleitor fiel com as “melhores” bravatas.

Assim a autocracia toma forma, de modo lento, mas firme, a causar a erosão da nossa democracia e remete meu pensamento a uma fábula atribuída a Esopo e relembrada por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, na obra “Como as Democracias Morrem”. A fábula fala sobre um cavalo, um javali, um caçador e demonstra exatamente o que estamos vivendo nos dias atuais.

Ela diz assim:

“Surgira uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu para ser vingar. O caçador concordou, mas disse: “se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre suas mandíbulas, para que eu possa guiá-lo com estas rédeas, e que coloque esta sela nas suas costas, para que eu possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo’. O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: ‘Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas’. ‘Não tão rápido, amigo’, disse o caçador. ‘Eu o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim’ ”. “O Javali, o Cavalo e o Caçador”, Fábulas de Esopo.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestrando em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A foto é uma criação artística utilizando a técnica 2D, do estúdio Romeu & Julieta, de Porto Alegre, comandado por Jean Campos (ilustrador) e Patrícia Palma (publicitária). Foi feita para para a agência de propaganda Morya e, no original, você pode vê-la AQUI.

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3 Comentários

  1. Soviets são coisa da esquerda, muito longe de ser unanimidade e em tempos de aplicativos é algo anacrônico.
    Dados estatísticos feitos por gente que sabe pouco de estatística e ainda por cima não sabem interpretar.
    Jornalistas alguns com clara agenda ideológica, outros de uma ignorância de causar dó. Só os muito ignorantes davam aos mesmos a tal ‘fé pública’.
    Desemprego estrutural em 6 meses? Obvio que não. Causas externas, agradeça-se ao regime comunista chinês que está no limiar de passar o rodo em Hong Kong.
    Interessante a fábula e o artigo. ‘O que importa é disseminar o medo e, assim, sob os braços do salvador, afastar o perigo.’ Molusco livre!

  2. ‘Artistas’ não são censurados. Podem fazer o que bem entender. Com dinheiro do próprio bolso, não dinheiro público que falta na saúde e na educação.
    ‘Marxismo cultural’ é uma expressão utilizada alternativamente com ‘estudos culturais’ nos países de língua inglesa a partir do fim dos 70 e inicio dos 80. Manifesto Comunista tem menos de 100 páginas, Marx só participou do primeiro volume do Capital. Só que é uma falácia, não é necessário ler Marx para saber que o comunismo não deu certo em lugar nenhum. Vide Venezuela. Também não é disseminar o medo, é encarar a realidade, existe uma esquerda que ainda tem mentalidade setentista. Basta ver certas manifestações, aparecem bandeiras com a foice e o martelo. Obviamente não é o símbolo da turma do Mickey.

  3. Questão de ponto de vista.
    Molusco não é populista, não é um ‘salvador’?
    B17 é de extrema direita para quem está na extrema esquerda.
    PCdoB também é extremamente nacionalista, não é algo que se pode imputar a só um matiz ideológico.
    Falar até papagaio fala. Escrever muitos conseguem, alás, para uns dominar a gramática é o único talento.
    Uma década e meia praticamente de maioria comprada no Congresso com dinheiro de corrupção não é flerte com o totalitarismo?
    Instituições de ensino não foram atacadas. Foram criticadas, porém acreditam que estão acima de qualquer crítica. Contingenciamento atingiu todas as áreas.

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