CRÔNICA. Orlando Fonseca, o Rio Grande do Sul e a sua data maior: o significado que transcende o dia 20

CRÔNICA. Orlando Fonseca, o Rio Grande do Sul e a sua data maior: o significado que transcende o dia 20

CRÔNICA. Orlando Fonseca, o Rio Grande do Sul e a sua data maior: o significado que transcende o dia 20 - orlando-crõnicaVinte de setembro

Por ORLANDO FONSECA (*)

O que significa o vinte de setembro na realidade do Rio Grande do Sul atual? A bem da verdade, um grupo expressivo de conterrâneos tem dificuldade em localizar na história a motivação da efeméride. Seria motivo de orgulho? Tem sido uma referência altaneira que balize ações e projetos?

É certo que se deve fazer uma reserva em favor dos que frequentam CTGs, conceder alguns privilégios aos moradores do meio rural, e até mesmo entre esses, uma diferenciação entre grandes e pequenos proprietários de terra.

De qualquer modo, sexta-feira que vem é o feriado estadual, chamado popularmente de Dia do Gaúcho. E gaúcho, o que quer dizer mesmo?

Para alguns alunos do ensino fundamental, recém aprendendo o hino oficial do Estado, a data tem a ver com uma tal de “aurora precursora”.  A qual tanto pode ser uma certa mulher com um cargo no governo estadual, uma heroína ao lado de Anita Garibaldi, quanto pode ser alguma coisa relativa a madrugada, como já viram aparecer em alguns versos da gesta gauchesca.

Ao contrário do sete do mesmo mês, cuja designação não deixa dúvidas – o Dia da Independência do Brasil – este nosso vinte é motivo de polêmica entre historiadores nativos.

Para a galera em geral, afinal de contas, alguma relação com os Farroupilhas é possível, o difícil é definir, o que aquele pessoal queria: o tal do Bento queria imitar o D. Pedro I? O Rio Grande do Sul queria se separar do resto do país? Eles ganharam ou perderam na luta com os imperiais?

O ufanismo das nossas grandes façanhas – “modelo a toda Terra” – considera que a data foi, na verdade, precursora. Quando aconteceu não tinha, em si, a relevância que tem hoje, apenas apontava o seu “farol da divindade” em direção ao futuro. Em si mesmo, aquela data remete a um episódio da guerra dos Farrapos que não deu em nada.

Não quero ofender ninguém com a minha falta de especificidade, mas é o que encontro nos livros de História, e até mesmo no Google. Tomada da ponte da Azenha, que marca o início da Revolução Farroupilha. O que não deixa de ser estranho, pois normalmente se comemora o fim de uma guerra, no caso 21 de maio de 1845.

Na verdade, os revoltosos não pugnavam pelo separatismo, algo que veio, no correr das lutas, em virtude do objetivo maior, o republicanismo. Já que o Império não queria deixar de ser Império, o Rio Grande seria uma república, em separado.

Não deu certo, e Caxias veio para consolidar-nos como um puxadinho. Se, durante a luta, o pessoal estava em farrapos, depois, ficaram em frangalhos, ou como diria décadas depois um gaúcho: todo esgualepado. Pergunto: e melhoramos?

Há os que defendem que sim, há os que garantem que não. Como tudo em nosso Estado. A cor do lenço, parte fundamental da pilcha, a indumentária símbolo do gauchismo, durante muitos anos definiu a polaridade política característica: de um lado os chimangos (branco) e os maragatos (vermelho).

Depois de alguns entreveros em 1923, 1930 e por aí vai, embora mantivesse o nome, os ideários já se confundiram em cores partidárias múltiplas. O pessoal até resolveu a questão usando cores diversas, até mesmo lenços petit poá.

Não houve, como prenunciava a aurora, o tal GreNal do século, portanto, é possível que o Estado venha a confundir a cor do lenço com a cor de um dos times na final da Copa do Brasil.

No entanto, para além do chimarrão e do churrasco, a sexta-feira servirá para alegria geral. Em termos de referência histórica, ou prenúncio para as novas auroras, vai ficar devendo para a maioria que não se deixa levar pelo ufanismo.

Não estou dizendo que os desfiles em cavalos garbosos, uma invernada artística fazendo suas coreografias, ao som de uma chimarrita, um gaúcho dos quatro costados impecável em sua pilcha, que os versos da gesta farroupilha, do cancioneiro guasca ou das pajadas de um Jaime Caetano Braum, ou o galope melodioso de um cantado pelo Luiz Marenco não sejam belos símbolos do nosso estado.

A questão é saber se apenas essa alegria, esse entusiasmo, é suficiente para nos definir a virtude de povo que não se deixará escravizar.

(*) ORLANDO FONSECA é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO: A foto que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.



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