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É CINEMA. Bianca Zasso e o filme que conta uma história do fim ‘trágico e silencioso’ de um casamento

O fim

Por BIANCA ZASSO (*)

Quando um relacionamento chega ao fim, não importa o quão pacífico tenha sido esse rompimento, sempre sobram cacos pelo chão. Sejam do vaso chinês que foi da sua vó ou da sua própria autoestima.

Abordar esse processo é um perigo para realizadores otimistas por natureza, já que a tendência de insistir na máxima de que depois da tempestade vem a bonança pode levar a uma abordagem novelesca para algo que os adultos sabem (ou um dia irão saber) não tem romantismo nenhum.

História de um Casamento, novo longa do diretor Noah Baumbach acerta por levar a sério esse momento entre duas pessoas e por deixar claro que, ao contrário da choradeira mostrada em alguns longas semelhantes, pode ser trágica e silenciosa.

Assim como já havia feito em trabalhos anteriores de sua carreira, Baumbach já entra em cena com a casa destruída. A voz em off dos protagonistas lendo os motivos pelos quais amam um ao outro parece a trilha de fundo de um revival de dois apaixonados, mas é o problema do dia na terapia de casal.

Mesmo os flashbacks dos bons momentos da relação entre Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) não se demoram. O buraco já está aberto e o desencanto é quem comanda os dias. Por se tratar de dois artistas no centro da trama, um diretor de teatro e uma atriz, História de um Casamento ganha uma camada extra. Duas mentes criativas à sua maneira e repletas de dúvidas diversas.

Não estamos assistindo o desmoronar de um amor, mas o auge da dor causada pelo fim. O equilíbrio que o roteiro dá para que tanto Nicole quanto Charlie exponham suas falhas e desejos é a jogada de mestre do longa. Homens e mulheres na plateia terão seus momentos de raiva e admiração por ambos ou até por nenhum deles, deixando claro que não há vencedores ou perdedores nessa guerra.

Com a entrada dos advogados, com destaque para a sempre surpreendente Laura Dern, esbanjando dubiedade como a defensora de Nicole nos tribunais, fica nítido que a disputa pela guarda do filho ou mesmo os bens adquiridos juntos é o que menos importa para o casal: eles só queriam seguir seus dias em paz.

História de um Casamento dá as suas derrapadas, especialmente quando tenta colocar Nicole em crise com as próprias escolhas ligando essa confusão ao ex-marido e não à sua mãe insuportável e possessiva.

Óbvio que o objetivo do longa não é discorrer sobre o peso de matriarcas dominantes na vida das mulheres (apesar de apresentar um monólogo incrível de Laura Dern sobre a Síndrome da Virgem Maria que deveria ser apresentado em escolas de tão didático e verdadeiro), mas a ligação das duas poderia ter sido apresentada de maneira mais intensa e menos cômica, dando ao filme uma abordagem ainda mais realista.

Falhas no roteiro a parte, quem faz a magia nessa produção é mesmo o elenco. Da participação discreta e terna de Alan Alda como o advogado de Charlie até a poderosa cena da troca de insultos entre Johansson e Driver, toda a atenção do espectador é mantida pelas atuações.

É sempre bom ver atores que arrastam multidões em blockbusters se entregarem fora dessa zona de conforto do fundo verde e dos diálogos genéricos. Esqueça a pose de sexy da eterna Viúva Negra, senhorita Johansson é uma mãe aspirante a diretora de série de TV e nenhum decote. J

á Adam Driver mostra que seu carisma e jeito de homem comum são inebriantes quando bem utilizados. Vê-lo cantar para exorcizar o fim do casamento e em pequenos gestos de carinho com o filho Henry são, igualmente, inesquecíveis.

Apresentado em duas sessões lotadas durante a madrugada na última edição da Mostra de Cinema de São Paulo, em outubro, e agora disponível para os assinantes da plataforma de streaming mais famosa do mundo, História de um Casamento, diferente de O Irlandês, de Martin Scorsese, não perde força ao ser assistido em uma tela menor.

Sua montagem tem ritmo, mas não requer a imersão da salão de exibição para funcionar. E, convenhamos, a choradeira no sofá é muito mais confortável que na multidão. E, sim, você vai precisar de uma caixa de lenços e bem mais que uma poltrona de cinema para se encolher em posição fetal após os créditos finais.

História de Um Casamento (Marriage Story)

Ano: 2019

Direção: Noah Baumbach

Disponível na plataforma Netflix

(*) BIANCA ZASSO, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009.  Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.

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Um Comentário

  1. Irlandes. E ficção. Não foi ele quem matou Hoffa. Há entrevistas com mafiosos que afirmam isto. Por que é arrastado? O diretor afirma que a história é contada por um velho. Mesa redonda disponível no Netflix. Impressão geral sobre o filme depois de assistir e ver os comentários: são amigos se despedindo. Observação: Joe Pesci deveria ter a carreira mais apreciada.
    Psicanalise é coisa de terraplanista. Estamos na era da bioquímica, da ressonância magnética funcional, etc. Equivale a tentar consertar o motor de um carro com orações. Porém é possível chutar alguma coisa. Mundo é um lugar incerto, porém as pessoas tem normalmente a sensação de previsibilidade devido a rotina. Esta ilusão anda muito prejudicada por muitas razões. Leva a busca pela fuga da realidade. A ficção tem que espelhar a mesma de maneira sutil. Este tipo de filme, problemas pessoais (porque cada caso é um caso), tende a ter pouco público.

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