ARTIGO. Na estreia, Ricardo Ritzel conta a morte do herói de guerra, pela ‘lâmina de uma adaga maragata’

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Nos campos missioneiros, após negado pedido para morrer fuzilado, coronel Hoerer é degolado pela “lâmina de uma adaga maragata”

A degola de Martin Hoehrer

Por RICARDO RITZEL (*)

Conta a História que, logo após a queda da Monarquia, o governo provisório do Marechal Deodoro da Fonseca substitui por militares os principais cargos da República, promove uma grande reforma na Justiça e Educação do país, separa o Estado da Igreja e decreta uma ditadura militar extinguindo Assembleias Provinciais e Câmaras Legislativas.

O resultado de todas estas transformações e mudanças é uma explosão do radicalismo político em todo país, que se agrava ainda mais quando se acrescenta nesta receita explosiva a maior crise econômica já vivida até então no Brasil.

No Rio Grande do Sul não foi diferente. Provavelmente, com conflitos mais intensos. Com certeza, mais polarizados e violentos.

E o radicalismo político de Julio de Castilhos, inspirado no positivismo de Augusto Comte, impede toda e qualquer conciliação com as diversas tendências republicanas gaúchas e, a olhos vistos, vai construindo, tijolo a tijolo, junto com seu pequeno, mas bem organizado, grupo político a “ditadura científica” projetada pelo filosofo francês.

Castilhos monta uma maquina eleitoral que destitui Câmaras, indica intendentes e Conselhos Municipais, expurga opositores, permite a fraude eleitoral sem muitos esforços, além de exonerar todo e qualquer funcionário público suspeito de não apoiar o Partido Republicano.

O líder republicano também não esqueceu de incentivar seus principais apoiadores a criarem milícias para ameaçar e perseguir qualquer pessoa contrária a suas ideias. O objetivo era atingir a honra, a família e os bens de opositores e, se fosse o caso, a vida destas pessoas, “sempre com a devida discrição”, conforme suas próprias palavras.

Neste contexto de turbulência política e social, de mortes e de vinganças, um assassinato abalou a sociedade santa-mariense e entrou para história da sanguinária Revolução de 1893, envolvendo um herói da Guerra do Paraguai, um farmacêutico santa-mariense que se tornou um dos maiores industriais brasileiros, um juiz municipal que virou delegado de polícia, e o patrono dos poetas da cidade de Santa Maria.

E quem nos conta a primeira parte da história deste crime, é o historiador Romeu Beltrão, em seu livro “Cronologia Histórica de Santa Maria e o extinto Município de São Martinho”. E ela começa assim, no inverno de 1890.

O herói de guerra é o coronel Martin Hoehrer. Ele foi alferes do 1º Esquadrão do 7º Corpo Provisório de Cavalaria, comandado pelo lendário coronel João Niederauer Sobrinho.

Hoehrer participou de todo conflito na Bacia do Prata, desde a invasão do Uruguai, em 1864, até o final da guerra contra Solano Lopez, em 1870, no Paraguai. E voltou de lá como oficial do Estado-Maior do mesmo corpo por distinção de atividade e bravura.

Depois, toma parte ativa na política santa-mariense, chegando à chefia do Partido Conservador e ao comando de um corpo de cavalaria da reserva com o posto de coronel.

Porém, logo após a implantação da República, deixa-se levar por arrebatamentos partidários e torna-se um radical positivista com um robusto histórico de agressões, ameaças e perseguições aos opositores do Partido Republicano Rio-Grandense na região da Bocca do Monte.

Tanto que no início de agosto de 1890, o juiz municipal, doutor Felipe Alves de Oliveira, que naqueles dias exercia também o cargo de delegado de polícia, prendeu em Santa Maria milicianos legalistas ligados a Martin Hoehrer, acusando-os de agressões e perseguições políticas, fato que acabou envolvendo-o em um escândalo político e a um processo penal.

Como represália a tanto “atrevimento” e também para dar exemplo a outros opositores do regime castilhista, um enfurecido coronel reúne partidários cúmplices e monta um complô que visa tirar a vida do delegado Alves de Oliveira antes do desfecho do caso em um tribunal civil.

Alguns dias depois, na tardinha do dia 11 de agosto, ás 19 horas, um desconhecido interrompe o passeio de braços dados de Luis Alves de Oliveira com sua esposa grávida, e o atinge com um tiro mortal no local exato onde hoje é a esquina da Rua do Acampamento com a Rua Astrogildo de Azevedo, no Centro de Santa Maria.

O assassino consegue fugir da cena do crime, mas é capturado alguns dias mais tarde, confessando rapidamente a ação mortal e, logo depois, lista os mandantes do homicídio. Um escândalo abala os alicerces políticos e sociais da cidade.

Como resultado da brutal morte do doutor Oliveira, o coronel Hoehrer é preso e condenado a 30 anos de reclusão no presídio local.

Porém, dias depois de ser encarcerado, ele foge da prisão com ajuda de seus correligionários que estavam no Poder e se refugia sem transtornos no Paraguai, onde passa a viver livremente.

No dia 23 de agosto de 1890, nasce o menino Felippe d’Oliveira, filho do juiz e delegado assassinado, que depois, já adulto, se torna o patrono dos poetas santa-marienses. Ele viria a morrer ainda jovem e também de forma trágica em um acidente de automóvel, no ano de 1933, em Paris, França.

A partir daqui, quem nos conta o final desta história é o soldado Manuel Abel, integrante da coluna revolucionária do general Dinarte Dornelles, que presenciou todos os fatos, depois eternizados em letras no livro “Histórias e Memórias de Bossoroca”, de Valeriano Cruz.

Já há algum tempo desgostoso com o rumo autoritário do governo positivista rio-grandense, o farmacêutico santa-mariense, João Daudt Filho, torna-se um forte opositor de Julio de Castilhos depois da morte do doutor Felipe Alves de Oliveira, que era seu cunhado, casado com sua irmã.

Tanto que não demorou muito para a repreensão castilhista coloca-lo como próximo alvo, fazendo Daudt Filho vender sua farmácia em Santa Maria, reunir seus familiares, viajar para São Borja e, depois, transpor o Rio Uruguai para encontrar abrigo e exílio na cidade argentina de Santo Tomé.

E foi nesta mesma Santo Tomé de 1891 que o farmacêutico santa-mariense conheceu, e logo se tornou amigo, do general maragato Dinarte Dornelles, que naquele tempo preparava sua coluna revolucionária para agir na região das Missões gaúchas tão logo eclodisse a já esperada e inexorável revolução federalista. Faltava apenas a ordem do líder máximo do movimento revolucionário, general Joca Tavares, que estava montando seu exército na fronteira uruguaia.

E quando ela veio, em fevereiro de 1893, Santo Tomé também se transformou no quartel do general Dinarte, local onde sua coluna se abastecia de alimentos, se rearmava, comprava munição, trocava a cavalhada cansada, ou simplesmente se refugiava quando o exército legalista o perseguia de perto em condições superiores de batalha.

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Marcha para um combate da Federação Federalista, episódio sangrento e pano de fundo para o que viria mais adiante, na história gaúcha

Em uma destas “visitas” de Dinarte Dornelles a Santo Tomé durante o conflito de 93, o general ouviu de seu amigo Daudt Filho um desabafo sobre a tragédia vivida por sua irmã e o seu forte desejo de vingar a morte tão traiçoeira do cunhado.

Sem demora, Dornelles acionou a rede de espiões federalistas e encontrou o coronel Hoehrer desfrutando a boa vida nos cassinos, cafés e cabarets de Assunción, inclusive conseguido o seu endereço particular na capital paraguaia.

Não demorou muito para o general missioneiro e o farmacêutico santa-mariense montarem um plano simples, porém infalível, para trazer Hoehrer de volta ao Brasil. Uma vingança maragata para o assassino confesso de Felipe Alves de Oliveira e também famoso membro da repressão castilhista.

E naquele verão de 1893 para 94, enquanto Gumersindo Saraiva lutava em Santa Catarina e Paraná, o general Dornelles e Daudt Filho forjaram uma carta enviada com timbre do governo gaúcho ao Paraguai, prometendo anistia para os crimes de Martin Hoehrer, além de um convite para liderar coluna de milicianos legalistas na região Central do Estado. Pediam também sigilo e discrição ao coronel refugiado.

Além da correspondência maliciosa, os dois conspiradores disponibilizaram uma rede de informantes em toda fronteira noroeste do Rio Grande do Sul para identificar e logo informar a volta ao Brasil do facínora da ditadura positivista.

Hoehrer, cego de ódio e sedento de desforra, caiu na cilada. Era o dia 10 de abril de 1894 quando ele transpôs o Rio Uruguai, em São Borja, disfarçado de negociante de gado, acompanhado apenas por um serviçal. Foi identificado pelos espiões do general Dinarte, que logo após receber a notícia, despachou vários piquetes para capturar o coronel fugitivo da Justiça santa-mariense.

Dois dias depois, ele e seu ajudante foram interceptados e capturados na antiga estrada Real, construída pelos jesuítas para ligar São Nicolau, nas Missões, a São Martinho da Serra, na região Central do Rio Grande do Sul, e levados para um acampamento federalista no local conhecido como Rincão dos Fabrícios (atual Município de Bossoroca), exatamente nas nascentes do Arroio Jaguatirica.

No acampamento, o líder do piquete revolucionário, Anibal Soares de Lima, maliciosamente oferece uma forte bebida alcoólica para o serviçal do coronel que, bastante embriagado, confessa o nome verdadeiro de seu patrão, assim como o objetivo real da viagem. Estava decretada a sentença de morte do coronel santa-mariense, herói de guerra que havia se tornado um carrasco da ditadura científica de Julio de Castilhos.

Ao tomar conhecimento de sua morte iminente, Martin Hoehrer clama por uma morte digna de um soldado: por fuzilamento. Mas não é atendido. Seu destino é a lâmina de uma adaga maragata. A degola.

Novamente Hoehrer faz um último pedido, este sim atendido por seus captores: uma garrafa de aguardente, a qual ingere toda em poucos minutos sendo observado pelo piquete inimigo. Era exatamente 14h do dia 13 de abril de 1894 quando a lâmina federalista cortou a garganta do quase inconsciente coronel. “Morreu bêbado como uma cabra”, finalizou Manuel Abel em seu relato!

(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 –Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

Bibliografia utilizada pelo articulista:

– Revolução Federalista, de Moacyr Flores e Hilda Agne Flores, Martin Livreiro Editora, 2016

– História e Memórias da Bossoroca, de Valeriano Cruz, Gráfica A Notícia, 1993

– Cronologia Histórica de Santa Maria e do extinto Município de São Martinho da Serra, 1958

Observação do editor: as imagens, fornecidas pelo autor, são de reprodução.



3 comentários

  1. O Brando

    Sim e não. Simplificações levam a acontecimentos gratuitos. Deodoro assumiu o poder numa época que o Exército (ao contrário da Marinha) não era estruturado como é hoje. Tanto que a Guerra do Paraguai é povoada de ‘corpos provisórios’, ‘Voluntários da Patria’. A Guarda Nacional era instituto importante. A Brigada Militar até a Revolução de 30 (mais ou menos) era força a ser considerada devido aos seus ‘provisórios’.
    República Velha caiu (também) por conta do voto a cabresto. A crise econômica foi resultado da politica econômica de Rui Barbosa (que não era bem o que contam por aí). Alás, estado de sítio e censura a imprensa (inclusive em governos civis, Artur Bernardes que o diga) não era incomum.
    Julio de Castilhos era adepto da chamada Religião da Humanidade. É possível afirmar que tentava acabar com o regime feudal que existia no RS. Ao fim e ao cabo pode-se dizer que tanto aqui como no governo federal o que estava na mesa era federação ou governo centralizado (marxistas tem uma pitada de positivismo grande, Marx chupinhou de muita gente). Alás, o papel de São Paulo também é um problema não resolvido.

  2. O Brando

    Outro problema surge: julgar o passado com critérios/valores atuais. Se a resposta for positiva, até quando é possível retroceder para fazer o julgamento? Até a construção das pirâmides?
    As pessoa tem que arcar com as consequências das próprias decisões. Coronel não iria voltar para o Brasil para se aposentar, comprar uma casa e plantar uma horta. Obviamente não tem santo nesta história.
    De qualquer maneira uma coluna para discutir memória é importante. E registrar (vide foto) os lugares históricos da terra. Coisa que quase não acontece. Alás, dizem que a casa do velho Borges e o Castelo de Pedras Altas viraram tapera.

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