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ARTIGO. Michael Almeida Di Giacomo, a tradição da pequena aldeia alemã, peste bubônica e o coronavírus

A fé humana na busca de proteção

Por MICHAEL ALMEIDA DI GIACOMO (*)

A atual pandemia enfrentada pela humanidade, provocada pelo Covid-19, se assemelha, no sentido de provocar grande número de mortes e mudanças de hábitos, a outras conhecidas em nossa história, como a gripe espanhola, a varíola, a cólera, a aids, entre outras.

Durante esses momentos de aflição e medo do desconhecido, uma das características presentes na ação humana se dá na cultura própria de cada comunidade em busca de proteção divina. É um ato de fé inerente à nossa espécie e tem o condão de rogar o fim das tragédias causadas pelos efeitos nocivos dessas doenças ou mesmo encontrar força para combatê-las.

Um desses momentos se deu durante a pandemia da peste bubônica, ocorrida durante o século XIV, e que vitimou entre 75 e 200 milhões de pessoas na região da Eurásia. O número, certamente, é uma estimativa, pois, há quem fale em 50 milhões. No entanto, demonstra bem o quão devastador foi aquele período na história da humanidade.

É possível constatar que naquele século os procedimentos para contenção e tratamento dos doentes fossem realmente muito rudimentares, inacessíveis ou desconhecidos, por isso o grande número e vítimas. Pugnar por uma graça divina, provavelmente, fosse uma das poucas atitudes racionais na qual se apegar.

E foi isso que aconteceu no vilarejo de Oberammergau, região da Baviera, no sul da Alemanha, com população atual de pouco mais de 5 mil habitantes. A peste bubônica, que havia devastado o vilarejo levando a óbito uma em cada quatro pessoas, serviu de propósito para unir os aldeões. A população, diante de uma cruz, prometeu a Deus que, se Ele poupasse os que ainda sobreviviam, a comunidade realizaria a peça da Paixão – encenando a vida, a morte e a ressureição de Jesus Cristo – a cada dez anos, para sempre.

No ano de 1633, a peste ainda era presente na região, mas conta a lenda que ninguém mais morreu depois de feita a promessa. A afirmação é robustecida pela apresentação do livro de registros dos mortos com o fim do lançamento de novos nomes desde então.

A partir da graça alcançada, o vilarejo durante mais de quatro séculos honra a promessa. A peça da Paixão de Cristo, realizada pela primeira vez em 1634, envolve a cada edição o trabalho de mais de 2400 pessoas, todos moradores permanentes de Oberammergau, e dura 4 horas. É mundialmente famosa, pois é considerada o maior palco ao ar livre do mundo e recebe a visita de mais de meio milhão de pessoas.

A 42ª edição seria realizada no ano de 2020, com estreia marcada para o mês de maio e duração durante todo o período de verão, indo até outubro. Contudo, devido a atual pandemia, o evento teve que ser cancelado e acontecerá somente no ano de 2022.

Isso aconteceu poucas vezes na sua história. A primeira em 1770 e, durante a segunda Grande Guerra, em 1940. Houve outra situação também em que o cancelamento foi necessário. Isso ocorreu após a Primeira Guerra, devido ao fato da morte de muitos homens, o que ocasionou a falta de pessoas para compor o elenco.

Os moradores atuais de Oberammergau acreditam que a promessa ainda tenha força, pois, até a Páscoa deste ano, o Covid-19 ainda não havia feito nenhuma vítima no vilarejo. Se de fato a proteção ainda vige, cabe a cada um acreditar ou não. Sem a pretensão de apurar alguma discussão filosófica a respeito, cabe a mim respeitar a fé daquela comunidade.

O que desejo destacar, nesse breve relato, é que não importa qual sua religião, ou sua fé, se é que você professe uma, importa a mensagem de união entre as pessoas para ultrapassar momentos difíceis e que dizem respeito ao bem-estar de todos. Isso é o que nos fortalece. Isso é o que nos fará vencer. Eu, da minha parte, devoto que sou de Nossa Senhora Medianeira, roga a Ela, luz e proteção para ultrapassarmos com saúde esse período de imensas dificuldades que enfrentamos.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestre em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

Observação do editor: a foto (sem autoria de terminada) que ilustra este artigo é uma reprodução da internet. Para conferir o original, clique AQUI.

Observação do autor: Quem desejar saber um pouco mais sobre A Paixão de Cristo realizada em Oberammergau, pode acessar o site do evento. Lá você irá encontrar um pouco da história e muitos vídeos sobre o vilarejo e a encenação: AQUI

 

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